No Brasil, o escoamento da produção agrícola é considerado um desafio para as cadeias de grãos. O óleo diesel, por exemplo, representa cerca de 35% dos custos totais no transporte rodoviário de cargas, influenciando o valor final do frete.
Desta forma, o mercado sempre buscou alternativas à dependência de combustíveis fósseis, como o uso de biodiesel, ou o etanol produzido a partir de cana e milho. Porém, a tecnologia ainda esbarra em gargalos operacionais e até políticos.
Outro caminho seria a utilização de caminhões elétricos, mas aqui o terreno fica ainda mais sinuoso. Durante muito tempo, havia quase um consenso dizendo que o modelo poderia funcionar para cargas mais leves e rotas mais curtas, mas que não era adequado ao trabalho pesado e às distâncias do transporte de safras.
Além disso, a falta de pontos de recarga e as más condições das estradas inviabilizaria a substituição de carretas a diesel por cavalos mecânicos elétricos.
Uma transportadora do interior de Mato Grosso, porém, decidiu entrar na contramão nessa discussão. Com sede na capital da soja, Sorriso, e especializada no transporte de grãos, o Grupo Navarini assinou, no início de setembro, um contrato com a fabricante chinesa XCMG para a compra de 251 caminhões elétricos pesados.
O investimento previsto é de R$ 500 milhões e deve resultar na renovação total da frota da empresa, que este ano deve movimentar cerca de 4 milhões de toneladas, transformando-a na maior da América Latina em caminhões elétricos pesados.
“Se na China o custo de energia é 70% mais caro que no Brasil e funciona, aqui também deve dar certo”, afirma Luis Fernando Navarini, fundador da Transportadora Navarini, em entrevista ao AgFeed, ao explicar porque resolveu acelerar em uma pista em que poucos se propuseram a percorrer.
Ele começou a estudar as marcas chinesas há dois anos. Depois, conta, levou a ideia aos quatro principais clientes da transportadora, em busca de parceria. “Apenas um acreditou na minha ideia”, diz.
O projeto começou a sair do papel efetivamente em 2025, quando Navarini iniciou a realização de testes em operações reais no agronegócio com veículos totalmente elétricos. “Testamos temperatura, ambiente, autonomia. Zeramos a bateria em alguns casos, para verificar o tempo de reação. O torque é instantâneo no caminhão elétrico e o motor é mais forte do que em um caminhão a combustão”, compara o empresário.
No início de setembro, ele e outros executivos do grupo voaram para Xuzhou, na China, onde fica a sede da XCMG e selaram o negócio. Líder no segmento de máquinas pesadas na China, a XCMG é terceira maior fabricante do setor no mundo e pioneira na introdução de caminhões elétricos no Brasil.
No Brasil desde 2014, a companhia detém quatro unidades: uma fábrica em Pouso Alegre (MG), um centro de distribuição de peças e serviços em Guarulhos (SP), e duas unidades com foco em mineração nas cidades de Contagem (MG) e Parauapebas (PA).
Os caminhões adquiridos são do modelo E7-95T. Serão produzidos na fábrica chinesa e chegarão no Brasil a partir de janeiro do ano que vem.
Rota elétrica
Além do meio bilhão investido na compra dos veículos, o projeto tem outra frente não menos importante e cujos valores a Navarini não divulgou: resolver o desafio do abastecimento dos caminhões nas longas distâncias entre as lavouras do Mato Grosso e os portos no Pará.
É aí que entra o cliente que acreditou na ideia. “No início, em parceria com a Agrícola Alvorada, vamos eletrificar a rota de Confresa (MT) até Barcarena (PA)”, diz Navarini. Trata-se de uma distância de 1,4 mil quilômetros, “numa das regiões mais remotas do Brasil”, como ele define, até o porto, que escoa mais de 10 milhões de toneladas por ano.
“Depois nós vamos eletrificar todo Mato Grosso até o fim do ano que vem”, promete. A frota elétrica da transportadora já começa a operar no primeiro trimestre de 2027, promovendo economia no negócio.
“Hoje a eletricidade dá uma diferença de mais ou menos 70% no custo em relação ao diesel. Então, eu consigo ter uma geração de caixa na minha logística”, analisa. “E o mais importante é a sustentabilidade. É um veículo 100% elétrico e sustentável. A nossa frota vai gerar, por ano, uma economia em crédito de carbono estimada em 72 mil toneladas”.
De acordo com a XCMG, o caminhão utiliza propulsão elétrica e não emite gases de efeito estufa, além de oferecer redução de ruído e de necessidades de manutenção. Ele pesa 74 toneladas e tem 120 toneladas de tração, com desempenho que equivale ao dos maiores cavalos mecânicos a diesel do mercado.
“Nossos caminhões vão chegar com voltagem de 528 kW, super avançados. Eles têm autonomia de mais ou menos 230 quilômetros carregados, com 50 toneladas de carga”, afirma o empresário.
Segundo ele, os pontos de carregamento serão localizados a cada 150 quilômetros, de forma com que os caminhões trabalhem com uma margem de 20% a 80% de carga. Isso, de acordo com Navarini, traz eficiência à operação de carregamento, que deve durar em torno de 35 minutos. “É uma logística extremamente matemática”, diz Navarini.
Energia nos negócios
A aquisição materializa o projeto iniciado em 2024, quando Luís Fernando Navarini idealizou que a transportadora poderia ser a primeira do agronegócio brasileiro a eletrificar a frota.
“Meu pai é funcionário público e, ironicamente, é eletricista, aposentado da Companhia Paranaense de Energia. Então, um filho de eletricista sendo pioneiro na eletrificação da frota rodoviária”, conta, emocionado.
Fundada por ele, em 2023, a TN Logística Integrada é especializada no transporte rodoviário de cargas. No agro atende negócios que vão desde grãos, sementes e algodão até açúcar e fertilizantes. Para 2027, a transportadora projeta um volume de 5,5 milhões de toneladas embarcadas, com reforço dos caminhões elétricos.
O grupo é composto, hoje, por Navarini e outros experientes executivos como sócios. “Márcio Dias trabalhou 13 anos como gerente da Brasil Central, uma das maiores do Brasil. Max Paixão trabalhou muitos anos em grandes transportadoras, em frota. E João Paulo trabalhou nove anos na Bom Futuro, uma das maiores empresas de algodão do Brasil”, apresenta o empreário.
A companhia atua em onze estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pará, Piauí, Tocantins e Maranhão.
Agora, com a aproximação com a XCMG, abre uma nova frente de negócios na mobilidade elétrica pesada no Brasil. Além de cliente, a Navarini se torna concessionária da marca chinesa, já com a previsão de abertura de sete filiais para dar suporte pós-venda e incentivar a cultura elétrica para a logística do agro.
“Em Mato Grosso serão três lojas: Sorriso, Cuiabá e Rondonópolis. No Paraná, elas serão abertas em Cascavel, Maringá, Guarapuava e Curitiba”, antecipa. Com a ampliação, a empresa deve dobrar o quadro de funcionários, passando dos atuais 240 colaboradores, para mais de 400 - contando com embarcadores e motoristas.
Resumo
- Grupo Navarini, de Sorriso (MT) investe R$ 500 milhões na compra de 251 caminhões elétricos pesados da chinesa XCMG
- Transportadora pretende eletrificar rotas de grãos entre Mato Grosso e os portos do Arco Norte a partir de 2027
- Projeto aposta em menor custo operacional e redução de emissões, com pontos de recarga planejados para longas distâncias