A agricultura regenerativa tem ganhado espaço nas propriedades rurais brasileiras, mas, para ampliar sua adoção, o setor precisa de políticas públicas que facilitem o acesso ao crédito, ampliem a assistência técnica e estimulem mercados dispostos a remunerar os produtores que investem nessas práticas.

Essa é a principal mensagem de uma carta-manifesto lançada pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), um movimento que reúne aproximadamente 14 mil produtores rurais e entidades do setor.

A FERA foi criada em 2025 pelo Instituto O Mundo Que Queremos e nasceu com o objetivo de unir produtores em prol de ampliar a adoção das diferentes iniciativas de agricultura regenerativa que passaram a surgir no Brasil nos últimos anos, indicando que as práticas de cultivo comprometidas com a regeneração dos solos, aumento da biodiversidade e resiliência climática, sustentáveis são um caminho viável e possível no campo.

No comitê fundador da FERA, estão nomes conhecidos da agricultura regenerativa no Brasil, como Gilberto Terra, cofundador da Courageous Land, Luís Laranja, líder da Caaporã Agrosilvopastoril, e Flávia Garcia Cid, gestora da Fazenda Jaracatiá, em Querência do Norte (PR), entre outros.

"Queremos fortalecer a adoção de práticas de agricultura regenerativa por quem já produz dessa forma no campo, inspirar outros produtores e também chamar a atenção do Poder Público", resume Lucimar Silva, que também é integrante do comitê da FERA, em entrevista ao AgFeed.

Intitulado "A nova safra do agro é regenerativa", o documento faz um chamado à sociedade civil, ao setor produtivo e ao poder público para reconhecerem o potencial da agricultura regenerativa e criarem condições para que essas práticas sejam adotadas em maior escala no País.

A FERA parte do entendimento de que a agricultura regenerativa já apresenta resultados concretos nas propriedades rurais, tanto na recuperação de áreas degradadas quanto no aumento da eficiência de sistemas produtivos já estabelecidos.

Segundo a carta-manifesto, a adoção de práticas regenerativas contribui para aumentar a retenção de água no solo e a resistência aos períodos de seca, melhorar o manejo das pastagens e ampliar a capacidade de produção pecuária em uma mesma área. Além disso, permite recuperar terras degradadas, elevar a produtividade e produzir alimentos de maior qualidade, com menos riscos e origem rastreável.

“O alimento que sai dessas terras chega às mesas do Brasil e do mundo com mais qualidade, com menos risco, com uma origem que pode ser contada com orgulho”, afirma a carta-manifesto.

Segundo a entidade, a disseminação dessas práticas ganha importância diante de uma combinação de desafios que vão das mudanças climáticas e do encarecimento dos insumos importados às exigências crescentes dos consumidores brasileiros e dos mercados internacionais em relação à origem dos alimentos.

O desafio, agora, é criar condições para que a transição não fique restrita aos produtores que já dispõem de capital e estrutura para investir em novos sistemas produtivos.

“Para que essa prática deixe de ser exceção em algumas propriedades e se torne o padrão do campo brasileiro, é preciso o que toda boa colheita exige: preparo do terreno. É preciso investir em políticas públicas com acesso a crédito facilitado, que reconheça o tempo da transição, assistência técnica que chegue a quem está longe dos grandes centros e acesso a mercados dispostos a valorizar quem já entrega esse resultado”, defende o documento.

Ao AgFeed, Lucimar Silva defendeu maior participação do poder público no fortalecimento da agricultura regenerativa. "Precisamos do poder público para ajudar a fortalecer a agricultura regenerativa e dar oportunidades, como essa questão de acesso ao crédito", diz.

A demanda por melhores condições de financiamento ganha ainda mais relevância em um momento em que o endividamento dos produtores e os juros elevados têm limitado a capacidade de investimento no campo, lembra ela.

"Se você diminui sua dependência externa, você reduz custos. É uma ferramenta para sobreviver a esse tsunami que o agro tem passado nos últimos tempos, principalmente puxado pela questão dos juros altos", afirma. “Mesmo diante de todos esses desafios a gente nunca deixou de pensar e seguir com a agricultura regenerativa.”

Na avaliação de Lucimar Silva, a transição para a agricultura regenerativa não deve ser entendida apenas como uma alternativa para recuperar áreas degradadas ou que perderam produtividade.

A proposta também é conservar os recursos naturais e preservar a capacidade produtiva de propriedades que já apresentam bons resultados.

A adoção dessas práticas em atividades como soja, milho, café, cana-de-açúcar e pecuária, segundo ela, demonstra que a agricultura regenerativa deixou de ser uma discussão restrita a determinadas culturas. “É um movimento que está alcançando toda a cadeia produtiva”, resume.

Além de fazer parte do comitê da FERA, Lucimar Silva também é gerente executiva do grupo mineiro Auma Agronegócios, que colhe, nos últimos anos, um trabalho de décadas de adoção de práticas regenerativas em suas lavouras.

Com uma operação de aproximadamente 5 mil hectares, o Auma tem sede em Patos de Minas (MG) e atua na produção de café, grãos, suínos e uvas, estas últimas cultivadas em Petrolina (PE).

A trajetória da Auma na agricultura regenerativa começou pela cafeicultura, no fim dos anos 1990. Desde então, a empresa estendeu gradualmente essas práticas às demais atividades, buscando integrar diferentes sistemas produtivos e aproveitar os resíduos gerados dentro das propriedades.

“Todas as nossas culturas seguem a produção de acordo com os critérios da agricultura regenerativa”, afirma Silva. Atualmente, tanto o café quanto a soja possuem certificações relacionadas à produção regenerativa, diz ela.

Somadas, as fazendas Recanto e Fortaleza possuem aproximadamente 450 hectares de café, com cerca de 2,25 milhões de plantas.

Na Recanto, propriedade de 503 hectares, a integração entre a cafeicultura e a suinocultura permite transformar resíduos das atividades em energia, biocombustíveis e fertilizantes.

Os dejetos suínos são utilizados principalmente na geração de energia, enquanto resíduos das diferentes operações agrícolas são destinados à compostagem. Com isso, a companhia consegue produzir parte dos fertilizantes utilizados nas próprias lavouras, reduzindo a necessidade de adquirir insumos externos.

A energia gerada na propriedade também é aproveitada na irrigação do café, nas operações de pós-colheita e na fabricação de ração, criando um sistema em que os diferentes negócios se complementam.

Segundo Lucimar Silva, a produtividade média do café chegou a 55 sacas por hectare neste ano, resultado superior ao registrado nas safras anteriores.

Além dos ganhos operacionais, a Auma busca transformar as práticas regenerativas em oportunidades comerciais. A companhia fornece café para grandes compradores, como Nespresso, Illy Café e Stockler, e participa de programas de sustentabilidade desenvolvidos por seus clientes, além de contar com produção certificada pela Rainforest Alliance.

A experiência da empresa ilustra uma das principais bandeiras defendidas pela FERA: a necessidade de desenvolver mercados que reconheçam economicamente os investimentos dos produtores na transição para sistemas regenerativos.

Embora já existam compradores dispostos a pagar um prêmio por produtos associados a essas práticas, Lucimar Silva reconhece que essas oportunidades ainda estão concentradas em segmentos específicos do mercado.

"Hoje a gente já tem mercados, apesar de ainda serem nichados, que pagam mais por esses produtos", afirma.

Mas não é apenas o mercado que deve dar impulso à adoção de agricultura regenerativa no País, avalia a FERA. A ideia da frente dos produtores rurais é mobilizar, nesta safra, diferentes atores em torno da expansão da agricultura regenerativa, incluindo o poder público, o setor produtivo e a sociedade brasileira.

A entidade defende que essa articulação pode ajudar o Brasil a avançar em uma transformação dos sistemas produtivos, conciliando a produção de alimentos com geração de renda na conservação dos recursos naturais.

“Podemos construir juntos um Brasil que siga alimentando o mundo, que garanta renda e segurança a quem vive da terra, e que atravesse as próximas décadas com o solo, e o futuro, mais férteis do que os encontrou. Esse é o imperativo do presente.”

Resumo

  • Em carta-manifesto, Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA) cobra políticas para ampliar adoção de práticas regenerativa no campo
  • Documento faz chamado à sociedade civil, ao setor produtivo e ao poder público para reconhecerem o potencial da agricultura regenerativa
  • Movimento defende crédito, assistência técnica e mercados que valorizem produtores que adotam práticas regenerativas