“Amanco! Amanco!”. Em 2006, o jingle criado pelo baiano Carlinhos Brown fez a marca de tubos e conexões de origem mexicana se tornar rapidamente conhecida no mercado urbano de construção civil no Brasil.

De tão marcante, até hoje, 20 anos depois, o recall da campanha permanece, agora ecoando também nas paisagens rurais do País. Há poucas semanas, por exemplo, a Amanco Wavin realizou em Felixlândia, no Norte de Minas Gerais, a maior entrega de tubulações já feita pela companhia em um projeto único de irrigação no Brasil.

Foram produtos suficientes para ligar nada menos que 57 quilômetros de adutoras em PVC e, assim, viabilizar o fornecimento de água para 28 pivôs que serão instalados na Fazenda Tronco, em Felixlândia (MG), no norte de Minas Gerais, ativo do fundo FZMG, da Tane Capital.

A encomenda recorde para a companhia tem valor superior a R$ 10 milhões. “O fechamento desse contrato consolida a estratégia de crescimento da Amanco Wavin no agronegócio”, afirma Fabiana Castro, diretora de Infraestrutura e Novos Negócios da Amanco Wavin, em entrevista ao AgFeed.

“Esse projeto recorde ratifica nossa capacidade técnica e logística de atender grandes players do setor com soluções completas”.

O sistema de irrigação da Fazenda Tronco, que fica às margens da represa de Três Marias, no rio São Francisco, tem grande porte. Foi desenhado para movimentar quase 20 mil metros cúbicos de água por hora e será executado em duas fases.

Na primeira delas, a ser concluída ainda este ano, serão instalados os primeiros nove pivôs, enquanto os 19 restantes estão programados para 2027, acompanhando o cronograma de liberação das licenças ambientais.

A expectativa é de que a lavoura de soja, primeira cultura a ser cultivada sob a nova estrutura, tenha um aumento de produtividade de até 20% em comparação com as áreas não irrigadas da região. Os pivôs também cobrirão áreas de pastagem da propriedade, que mantém atividade de pecuária em rotação com a agricultura.

Segundo Fabiana, a atuação da empresa no projeto começou mesmo antes da entrega das tubulações, com o atendimento consultivo na elaboração do projeto. E seguirá com acompanhamento da instalação dos pivôs.

Além dos recursos envolvidos, a Amanco conseguiu com o contrato com a Fazenda Tronco uma vitrine relevante sua aposta no agro. Nos últimos anos, a empresa tem feito investimentos tanto na área industrial como na comercial para aproveitar ao máximo o potencial do mercado de irrigação.

A executiva recita de cor os números do segmento. O Brasil, lembra, tem hoje cerca de 8 milhões de hectares irrigados, um número ainda modesto diante da expectativa de que chegue a 55 milhões de hectares nos próximos anos.

A divisão de irrigação já é relevante no negócio. Ela representa cerca de 30% da operação da Amanco no Brasil e vem avançando em ritmo acelerado. “Nos últimos três anos a gente vem crescendo na ordem de dois dígitos”, diz a executiva, com previsão de manter esse ritmo.

Para atender a essa demanda, a companhia montou uma equipe dedicada ao segmento, com cerca de 20 profissionais, entre engenheiros agrônomos, técnicos comerciais e equipe de projetos sediada em Sumaré (SP), que atua na especificação e dimensionamento dos sistemas.

O modelo comercial passa principalmente por revendedores e concessionários de equipamentos de irrigação — que, segundo ela, têm capilaridade para "bater todas as porteiras" —, com visitas conjuntas aos produtores em projetos de maior complexidade.

A estrutura industrial também foi reforçada. Há menos de dois anos a empresa anunciou investimentos na ordem de US$ 92 milhões, que ampliaram a capacidade produtiva nas duas fábricas que atendem o mercado do agro, uma em Sumaré e outra em Suape (PE). Para Fabiana, as unidades estão estrategicamente localizadas para alcançar os grandes polos agrícolas e de irrigação do país.

A expansão, concluída recentemente, permitiu um ganho de 30% a 40% na capacidade fabril no conjunto das duas plantas.

O aporte faz parte de um plano mais amplo do Orbia, grupo mexicano controlador da Amanco. O Orbia faturou US$ 7,6 bilhões globalmente em 2025, com a divisão Amanco/Wavin sendo responsável por um terço desse total. O Brasil, maior mercado da Amanco no mundo, responde por até 20% das suas receitas globais.

Aqui, os recursos foram direcionados principalmente para as linhas de tubos BIAX, produzidos em PVC biorientado, tecnologia que, de acordo com Fabiana, combina alta resistência mecânica e baixo peso. Nessa linha, especificamente, o aumento na capacidade produtiva foi de cerca de 47% nas duas fábricas, com a implementação de novo maquinário holandês e italiano.

Mesmo depois desse aporte, segundo a executiva, as linhas de produção da Amanco já estão próximas do seu limite. Por isso, a companhia já iniciou o planejajento futuras ampliações. “Estamos fazendo estudos para novas linhas, mas ainda com nada concreto, com uma data firmada. Isso só deve ocorrer, muito provavelmente, a partir de 2028", antecipa Fabiana.

Os desafios da irrigação

Apesar do otimismo, Fabiana reconhece que o potencial do segmento de irrigação hoje está represado por conta dos juros altos. "Projetos de irrigação em geral exigem um capex importante dos produtores e essa questão dos juros acaba sendo um limitador bastante grande", afirma.

Além do custo do capital, ela lista ainda a pressão no preço das commodities, os efeitos da guerra sobre os insumos e o ambiente eleitoral como fatores que deixam o mercado "num certo compasso de espera".

O custo do petróleo, em particular, impactou diretamente a companhia. Por conta dos conflitos no Oriente Médio, o PVC, sua principal matéria-prima, teve aumentos de preço na ordem de 20% a 40% ao longo do ano, com efeitos também sobre o polietileno e a cadeia de suprimentos como um todo.

Com isso, também o investimento necessário para os projetos de irrigação acaba sendo recalculado para cima, justamente em um momento em que os agricultores já veem suas margens mais apertadas pelo aumento dos custos de produção. O PVC responde por cerca de 20% do custo desses projetos.

Fabiana argumenta, porém, que implantar um sistema de irrigação pode funcionar como um seguro nesses tempos de aperto. "Quando você está com margens mais espremidas é o momento de minimizar riscos e, sim, de fazer o seu ‘seguro’ para manter a produtividade, quer sofra com mais chuva ou mais estiagem", diz.

No mercado, a companhia atende de forma agnóstica a projeto de diversos fabricantes de equipamentos de irrigação, como Lindsay, Valley e Bauer, no segmento de pivôs. A sinergia é naturalmente maior, porém, com a Netafim, empresa de origem israelense que é uma das maiores do mundo em irrigação de precisão.

A Netafim foi adquirida pelo Orbia em 2017. Enquanto ela atua na ponta, com projetos de gotejamento, a Amanco se posiciona como fornecedora de infraestrutura, com equipamentos para a condução e distribuição de água da fonte, do reservatório até o sistema de irrigação.

Essa parceria aparece sobretudo em culturas como o café, frutas e até cacau irrigado, que vem se desenvolvendo no oeste da Bahia. Para Fabiana, ao lado de soja, milho e algodão, é em torno delas que hoje se concentra a maior demanda por irrigação no País.

Resumo

  • Amanco conclui contrato recorde de irrigação com 57 km de tubulações para atender 28 pivôs em uma fazenda de Minas Gerais
  • Companhia aposta no mercado de irrigação e reforça capacidade industrial para atender à expansão da agricultura irrigada no Brasil
  • Divisão de irrigação já representa 30% da operação da Amanco no País, com crescimento de dois dígitos nos últimos três anos

Tubulações entregues na Fazenda Tronco