Durante a pandemia do coronavírus, entre 2020 e 2021, a sigla PCR ficou famosa. O teste, considerado padrão-ouro para detectar a presença do vírus SARS-CoV-2 no organismo, dependia de uma estrutura laboratorial para analisar o material genético e identificar a infecção.

No agro, no entanto, toda essa estrutura acaba sendo pouco célere e custosa. Uma amostra precisa chegar íntegra ao laboratório, passar por processos de preparação e purificação e ser analisada por equipamentos específicos, até que o resultado chegue ao agricultor.

De olho em acelerar esse processo e levá-lo diretamente ao campo, a deeptech Doroth desenvolveu uma tecnologia que automatiza, em um chip microfluídico, etapas do diagnóstico molecular que hoje exigem equipamentos e profissionais especializados em laboratório.

“Num esquema de teste de PCR tradicional, até o resultado chegar na mão do agricultor, estamos falando de várias semanas, na maior parte das vezes, mais de 30 dias”, conta Rodrigo Gurdos, cofundador e CEO da empresa, em entrevista ao AgFeed.

A proposta da Doroth é permitir que produtores e técnicos agrícolas identifiquem patógenos e genes de resistência diretamente na fazenda a partir de um equipamento com os chips microfluídicos, sem precisar esperar semanas pelo resultado de uma amostra enviada para análise.

“É um sistema como se fosse uma cafeteira Nespresso: eu tenho que fazer o chip, que é a cápsula, e o equipamento, que é a cafeteira de fato", resume Gurdos.

Agora, para dar escala à operação e produzir os chips, que são a base do processo de análise, em massa, a startup acaba de levantar R$ 23 milhões em uma rodada de investimentos liderada pela empresa de biotecnologia Loccus e que também conta com recursos de editais da Finep e da Fapesp.

Com parte desses recursos, já a partir deste ano, a Doroth pretende começar a colocar de pé uma planta automatizada, capaz de produzir 4 milhões de chips por ano.

Boa parte dos equipamentos necessários para a operação virá da China, que hoje domina a fabricação de chips microfluídicos em escala, segundo a empresa.

A estratégia é trazer as máquinas, adaptá-las às necessidades da Doroth e montar a linha de produção no Brasil.

“Quando a gente traz esses equipamentos para cá e padroniza os equipamentos para a produção da indústria, nós nos tornamos, naturalmente, a primeira indústria de chips microfluídicos na América Latina”, diz Gurdos.

Da pesquisa à fábrica

A Doroth trabalha com três componentes principais: os já mencionados chips microfluídicos, os equipamentos que realizam os testes e os reagentes moleculares utilizados nas análises.

O chip, feito de plástico, possui canais e câmaras por onde circulam os líquidos e ocorrem as reações. A precisão precisa ser micrométrica, já que pequenas diferenças nos volumes podem alterar os resultados.

Os reagentes, por sua vez, incluem enzimas produzidas pela própria empresa a partir de microrganismos geneticamente modificados.

A fabricação desses componentes internamente é parte da estratégia para reduzir custos e aumentar a escala.

Um sensor óptico importado, por exemplo, pode custar R$ 25 mil, segundo a empresa. “A gente contratou uma série de engenheiros para desenvolver os nossos próprios sensores. E hoje os nossos sensores estão saindo na faixa de R$ 1.000, R$ 1.200”, diz Gurdos.

A expectativa é de que a nova fábrica potencialize e dê escala à produção de chips, que hoje é feita de forma artesanal, com duas pessoas trabalhando em uma sala desumidificada para manipular os reagentes, colocá-los nos chips e selar os dispositivos.

“Hoje produzimos 30 chips por dia. Com a fábrica, aumentamos para 10 chips por minuto”, adianta Gurdos.

A companhia também está desenvolvendo sua própria capacidade de produção de enzimas, incluindo processos de purificação e liofilização.

Segundo o executivo, cerca de 80% dessa etapa já foi concluída, com os equipamentos adquiridos e entregues.

A primeira fase da produção em escala deve ser concluída até o início de 2027.

No primeiro semestre do ano, a empresa pretende integrar a linha para reduzir as transferências manuais.

A expectativa é que, até o fim de 2027, a operação se aproxime de uma “dark factory”, com produção contínua e pouca necessidade de intervenção humana.

O modelo de negócio da Doroth começa com projetos de pesquisa e desenvolvimento contratados por empresas do agronegócio.

A partir da demanda do cliente, a startup adapta o chip, os reagentes e o equipamento para uma aplicação específica. Depois da validação, a solução passa a ser adquirida de forma recorrente, conforme o volume de análises.

Entre os clientes e projetos em desenvolvimento estão grandes companhias do agro como CTC, FMC, Bayer, BASF, Corteva, Syngenta e Suzano.

A ideia é também trazer frigoríficos para a carteira de clientes – já que um dos editais prevê o desenvolvimento de soluções para a detecção de presença de salmonella, gênero de bactérias que causa infecções gastrointestinais.

Para exemplificar como a deeptech atua, Gurdos menciona o caso de uma empresa do setor sucroenergético que precisava realizar diagnósticos de patógenos em campo.

O processo tradicional levava cerca de 45 dias para entregar os resultados. A solução encomendada à Doroth prevê a identificação de até 100 amostras por hora, em um equipamento portátil que possa ser transportado no porta-malas de um técnico.

A demanda estimada para esse projeto é de 110 mil análises por ano. Considerando o preço de R$ 60 por teste, o potencial de receita anual com a venda dos chips chega a aproximadamente R$ 6,6 milhões.

A startup não revela, no entanto, o faturamento atual. À PWC, em 2021, previa que iria chegar a um faturamento de R$ 2,2 milhões naquele ano.

Uma ‘pivotada’ na operação

A Doroth foi criada em 2019 e começou com projetos de diagnóstico e monitoramento no campo.

E, como é comum em startups, pivotou sua operação deixou de lado alguns projetos que eram relevantes em um primeiro momento.

Foi o caso, por exemplo, do Dot-AR, primeiro equipamento automatizado desenvolvido pela Doroth.

A tecnologia foi criada em parceria com a FMC para detectar esporos da ferrugem asiática no ar, enviando um alerta para o produtor quando houvesse a necessidade de aplicar fungicidas na lavoura.

O projeto, no entanto, entrou em stand-by. "A gente esbarrou num problema de mercado, porque ninguém nunca monitorou ferrugem asiática, o esporo da ferrugem asiática nesse nível de campo”, conta Gurdos.

“A própria FMC, em algum momento, entendeu que era complexo fazer a venda dessa informação na escala que era necessária para o projeto ser rentável.”

Caminho semelhante teve uma outra solução da startup, a DotSol, serviço de diagnóstico de amostras do solo que gerava mapas de calor a partir da média de concentração dos microrganismos.

A operação está sendo encerrada à medida que a Doroth direciona os recursos para os testes moleculares realizados diretamente no local de coleta.

"No momento que a gente montou uma estrutura laboratorial, a gente tinha muito equipamento que não era só usado para pesquisa e desenvolvimento. E o equipamento estava ocioso, então, a gente usava para esses testes", diz.

Mudanças foram feitas também na governança da startup mais recentemente. A Doroth foi fundada por Gurdos, Camila Amaral e Samuel Oliveira.

Camila vinha ocupando o cargo de CEO, mas agora passa a lidar mais com a operação, enquanto que Gurdos passa a ocupar o posto de CEO.

“A gente fez uma troca. A Camila vai liderar o desenvolvimento da indústria especificamente, entender como montar essa linha de produção. E eu assumi a cadeira de CEO para fazer essa comunicação com os clientes e investidores”, conta Rodrigo Gurdos.

Samuel Oliveira, por sua vez, divide sua atenção entre a Doroth e a Joint School of Nanoscience and Nanoengineering (NC A&T), universidade do estado americano da Carolina do Norte, onde atua como professor assistente.

Até aqui, a Doroth recebeu aproximadamente R$ 13 milhões em rodadas com investidores privados.

Já de editais de fundos governamentais, a startup conseguiu aproximadamente R$ 24 milhões. “Estamos aguardando ainda mais, até o final do ano, mais pelo menos R$ 40 milhões em editais. Depende do governo liberar ou não”, diz.

Entre os investidores privados, Gurdos destaca a participação do Agroven, clube de investimentos formado por uma rede de empresários e famílias do agronegócio, que entrou com R$ 1,1 milhão em uma rodada de R$ 2,2 milhões feita na virada de 2022 para 2023.

“A Agroven foi pioneira em entender o potencial da tecnologia quando praticamente nada existia”, avalia Gurdos.

“Eles acreditaram lá atrás em uma tese, que nada mais era do que uma tese. A gente até brinca que foi um mega risco levantar capital privado para desenvolver pesquisa, porque, no mundo, o mais comum é você usar dinheiro governamental para passar desse risco. E a Agroven assumiu esse risco”, emenda.

“Quando investimos na Doroth, entendemos o potencial de aproximar a biotecnologia e o diagnóstico molecular dos desafios concretos do agronegócio. A evolução da empresa e a chegada de novos investidores estratégicos reforçam a importância de apostar cedo e, apoiar essas empresas a construir seu caminho até o mercado.”, afirma Silvio Passos, fundador e presidente da Agroven.

Resumo

  • Doroth quer reduzir diagnósticos que levam até 45 dias para resultados em testes capazes de analisar 100 amostras por hora
  • Startup captou R$ 23 milhões em rodada liderada pela Loccus, com recursos também de Finep e Fapesp
  • Parte dos recursos será destinado à fábrica de chips, com capacidade anual de produção de 4 milhões de unidades