A Buri tem pouco mais de um ano de vida como gestora, mas seus sócios carregam uma história de quase uma década no mercado de capitais ligado ao agronegócio.
O ex-vice presidente da Kepler Weber, Olivier Colas, e o ex-PwC Eça Correia já ajudaram a estruturar mais de R$ 1,6 bilhão em fundos voltados ao agro, em parcerias com outras gestoras e bancos, antes de decidirem criar uma casa própria para isso.
Entre os produtos estruturados nesse período estão o BTRA11 e o BTAL, fundos de terras feitos em parceria com o BTG Pactual, e o FIP Forêt, desenvolvido com a EQI.
A experiência acumulada na Funchal Investimentos, empresa fundada pelos dois em 2018, está sendo usada agora para montar produtos dentro da própria Buri. A estratégia parte de duas oportunidades que ganharam força com a deterioração das condições financeiras do setor: comprar terras agrícolas com desconto e adquirir dívidas e ativos de empresas em situação de estresse.
A primeira tese já ganhou forma em um fundo de terras. O veículo começa com uma fazenda da Agrícola São Luiz (ASL), da família Martelli, produtora de grãos de Mato Grosso. A propriedade, que está em processo de conversão de pecuária para agricultura, foi aportada ao fundo em troca de cotas.
A ASL será também a arrendatária das terras adquiridas pelo fundo e continuará responsável pela operação enquanto a janela para uma eventual venda não se abre.
Ao todo, o fundo já reúne R$ 180 milhões entre terras aportadas e recursos de investidores, profissionais e institucionais, e outras propriedades estão em estágio avançado de negociação.
Mais de 80 fazendas já foram apresentadas aos gestores e cerca de 95 mil hectares estão em análise ou negociação, e segundo os sócios, a ideia é encontrar áreas que possam ser vendidas de forma rápida.
"Há um ano vislumbrávamos uma ideia de entrar no mercado de recuperação de terras degradadas. Mas essa tese, no ambiente atual do País, de juros altos, traz algumas incertezas por ser longa. Demanda investir por muito tempo para começar a desinvestir, algo em torno de 10 anos, um prazo muito difícil para colocar no mercado", disse Colas, ao AgFeed.
O desconto é parte central da tese. Segundo Olivier Colas, os gestores estão encontrando propriedades negociadas com preços 30% a 40% abaixo dos valores observados em 2022, um momento ainda de auge dos preços de commodities. Essas operações chegam ao mercado principalmente por meio de execução de garantias.
"As situações todos conhecem: produtor endividado e um câmbio que não favorece a vida dele. Isso cria a oportunidade", prosseguiu o sócio.
Apesar disso, a leitura é que esse ciclo tem hora para virar. Colas argumenta que os preços de commodities devem se recuperar, citando que a China diminuiu seus estoques nos últimos anos - o que fez o preço da soja cair no mercado externo -, e que a demanda é contínua.
O fundo de terras tem potencial, segundo ele, de chegar a R$ 1 bilhão, mas pela estrutura e relativa rapidez que pretendem operar, deve chegar no máximo aos R$ 500 milhões.
Na estratégia, a Buri adquire terras em Mato Grosso, em regiões próximas da BR-163, a fim até de aproveitar a facilidade de escoamento, e as arrenda para a Agrícola São Luiz operar.
"Diferente de outros fundos, temos um parceiro que vai operar a área e não será um empecilho no momento da venda, independente do momento que essa hora chegar", explicou Colas.
A ideia é adquirir fazendas de R$ 50 milhões e R$ 70 milhões que se dedicam à produção de grãos (soja e milho). "Como trabalhamos com esse produtor alinhado, nos limita em termos de tamanho do fundo. Queremos entregar qualidade", continuou.
Enquanto o fundo de terras aposta na recuperação do mercado, a segunda estratégia da Buri olha para o outro lado do ciclo: créditos e ativos que já chegaram a uma situação de estresse.
A tese começou a ser desenhada antes mesmo de a atual onda de problemas financeiros do agronegócio ganhar força. Eça Correia conta que os sócios já estudavam a compra de dívidas vencidas antes de casos como o da AgroGalaxy aumentarem a percepção de risco no setor.
“A casa foi criada pra pensar em produtos cíclicos ou contracíclicos. Não veremos um fundo de crédito padrão que se vê no mercado, não dá pra competir com bolsos maiores de um Itaú ou Banco do Brasil. A ideia é criar produtos de nicho, aproveitar ciclo e contraciclo. No ciclo, vendo dívida vencida, no contraciclo, terra”, afirma.
A Buri já teve uma primeira experiência com esse tipo de operação e, atuando como consultores, os sócios estruturaram cerca de R$ 120 milhões em créditos do tipo, em arranjos amarrados a um retorno de CDI + 10% durante dois anos de investimento.
Agora, a nova estrutura tem uma proposta diferente. O fundo terá seis anos de duração, dos quais três serão dedicados à aquisição de dívidas e ativos em situação mais sensível no agronegócio. A meta é captar entre R$ 200 milhões e R$ 250 milhões.
A Buri pretende atuar em operações de reestruturação, financiamento de empresas em dificuldades e outras situações em que o ativo ou crédito já esteja em um estágio mais avançado de estresse. A ideia é que cada operação fique na faixa de R$ 4 milhões a R$ 10 milhões, justamente para não disputar transações maiores com os grandes bancos e gestoras de crédito.
Ao contrário do fundo de terras, a estratégia distressed não tem um tipo de ativo, empresa ou produtor preferido.
“Essa tese já é agnóstica, tanto em cultura quanto geográfica. Os critérios são outros, envolvem muito mais o estágio do processo. Não queremos discutir se ou quanto eu vou receber. Queremos discutir quando vou receber”, diz Correia.
A diferença está também no risco que a Buri pretende assumir. A gestora não está buscando financiar a próxima safra ou apostar na capacidade produtiva de uma fazenda. O objetivo é comprar uma posição em um momento de estresse e capturar o valor que pode ser recuperado a partir de uma renegociação, reestruturação ou solução para aquele ativo.
“Hoje trazer dinheiro novo pro agro e produtor é quase impossível. Mas trazer dinheiro para surfar nessa arbitragem que tem pra fazer, tanto no preço da terra quanto nos créditos vencidos, ali tem uma história para contar”, afirma Colas.
“Não estamos trazendo dinheiro para o produtor agrícola funcionar. É dinheiro novo para dar solução para ele, mas trazer perspectiva de ganho pro investidor também. Não toma risco agrícola, não toma risco de plantar, não plantar, ele não toma risco da produção”, prosseguiu.
É por isso que os sócios enxergam a Buri mais próxima de uma estratégia de private equity aplicada ao agronegócio do que de um veículo tradicional de crédito rural. Como as operações terão tamanhos relativamente pequenos, a expectativa é que o veículo consiga reciclar o capital ao longo dos três anos de investimento: conforme uma operação é encerrada, os recursos retornam para financiar a próxima.
Resumo
- Buri aposta em terras agrícolas e dívidas estressadas para capturar oportunidades criadas pela crise financeira do agronegócio
- Gestora já reúne R$ 180 milhões em fundo de terras e analisa cerca de 95 mil hectares, buscando propriedades com descontos de 30% a 40% sobre os preços de 2022
- Nova estratégia de crédito mira operações de R$ 4 milhões a R$ 10 milhões e prevê captar entre R$ 200 milhões e R$ 250 milhões em um fundo de seis anos