Nas bodas de madeira dos Fiagros, mercado que comemorou cinco anos de existência em agosto deste ano, o que se vê são muito mais contas de investidores do que dinheiro concentrado nelas.

Em julho, o segmento somava R$ 65,8 bilhões em patrimônio líquido e mais de 1,2 milhão de contas de cotistas, segundo levantamento da Oliveira Trust com dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Apesar de 92,4% dessas contas estarem em classes destinadas ao público geral (investidores de varejo), elas reuniam apenas 28,9% do patrimônio, cerca de R$ 19 bi. Na outra ponta, investidores qualificados e profissionais representavam 7,6% das contas, mas concentravam 71,1% dos recursos (cerca de R$ 47 bilhões).

Os números mostram que, por trás da imagem do Fiagro como um produto de varejo negociado em Bolsa, se formou uma segunda indústria, menos visível e voltada a operações de maior porte, estruturas privadas e investidores institucionais.

Essa divisão também aparece no ambiente de negociação. As classes negociadas em Bolsa reúnem 69,7% (dois terços) das contas, mas respondem por 33% do patrimônio. Já os veículos negociados em balcão organizado ou não organizado concentram 67% do dinheiro, embora representem apenas 30,3% (um terço) das contas.

Para José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust, a diferença ajuda a mostrar o estágio atual do produto. A empresa, que atua há 35 anos na prestação de serviços para fundos, acompanhou a evolução do Fiagro desde o início e hoje administra 48 registros ou classes da modalidade, que somam cerca de R$ 6 bilhões em patrimônio.

Freitas relembrou que, quando os Fiagros nasceram, começaram atendendo três modalidades: cotas de empresas de capital fechado, imobiliário e de crédito. Ou seja, finalidades bastante diferentes.

De um lado, o investidor de varejo vê o produto como uma forma de exposição ao crédito e aos ativos do agronegócio. Para investidores profissionais e estruturadores, pode funcionar como uma arquitetura para combinar recebíveis, imóveis, cotas subordinadas, garantias e diferentes perfis de risco.

Entre as seis principais classes de ativos investidas, considerando todos os tipos de investidor, a maior parcela está em "títulos de securitização", como os CRAs, que somam R$ 14 bilhões. "Cotas de fundos" aparecem em seguida, com R$ 11,1 bilhões, enquanto "imóveis rurais" representam R$ 6,1 bilhões," direitos creditórios" outros R$ 5,4 bilhões, e "títulos de crédito do agronegócio", como CPRs e CDCAs, R$ 3,9 bilhões.

Quando o recorte é feito por tipo de investidor, porém, a composição muda. Nas classes destinadas ao varejo, os "títulos de securitização" concentram R$ 11,1 bilhões, ou 62,4% dos R$ 17,6 bilhões distribuídos nessas seis categorias. Nas classes destinadas a investidores qualificados e profissionais, o valor cai para R$ 2,9 bilhões, cerca de 12% para esse tipo de aplicador.

A preferência se inverte em outras estruturas. Entre qualificados e profissionais, "cotas de fundos" somam R$ 7,3 bilhões, quase o dobro dos R$ 3,8 bilhões registrados no público geral.

Em "direitos creditórios", são R$ 4,9 bilhões dos profissionais e qualificados contra R$ 500 milhões do varejo. Nos "imóveis rurais", R$ 4,7 bilhões, ante R$ 1,4 bilhão do público geral.

Já os títulos de crédito do agronegócio somam R$ 3,4 bilhões nas classes de qualificados e profissionais, contra R$ 500 milhões nas destinadas ao público geral.

O contraste mostra que, dentro das categorias que o levantamento consegue identificar, o público geral está mais concentrado em títulos de securitização, enquanto as classes destinadas a investidores qualificados e profissionais têm maior exposição a cotas de fundos, direitos creditórios, imóveis rurais e títulos de crédito do agronegócio.

Ao todo, essas seis categorias reúnem R$ 17,6 bilhões no público geral e cerca de R$ 23,4 bilhões nas classes de qualificados e profissionais.

A soma, no entanto, não representa todo o patrimônio líquido dos Fiagros. Os R$ 41,1 bilhões correspondem apenas às seis categorias destacadas na tabela de composição da carteira. Outros R$ 15,2 bilhões estão em ativos investidos que não foram destacados individualmente, principalmente outros componentes de ativos financeiros, enquanto R$ 9,8 bilhões correspondem a necessidades de liquidez, incluindo fundos e títulos de renda fixa.

Há ainda R$ 1,6 bilhão em valores a receber e R$ 1,9 bilhão em passivos. Considerando essas outras rubricas, chega-se aos R$ 65,8 bilhões de patrimônio líquido do segmento.

Saindo de quem investe e indo para quem oferta, ao longo dos anos o mercado também deixou de estar concentrado em poucos players. “Nos primeiros anos, era restrito a meia dúzia de casas. Hoje já está disseminado. Vejo Itaú montando Fiagro, Fator fazendo Fiagro, Patria fazendo Fiagro, gestoras montando Fiagros. O conhecimento já virou padrão de mercado", disse Freitas, da Oliveira Trust.

Na própria Oliveira Trust, o número de gestoras atendidas cresceu 81% nos últimos 24 meses, segundo o executivo. Parte desse avanço veio de casas que passaram a estruturar Fiagros.

Só em 2026, a empresa iniciou 12 novos Fiagros, que somam aproximadamente R$ 1,4 bilhão. O número representa uma parte das estruturas que entraram no estoque da administradora ao longo do ano.

No mercado como um todo, a captação também continuou positiva. Os Fiagros registraram entrada líquida de R$ 755 milhões em julho e acumularam R$ 6,2 bilhões nos sete primeiros meses de 2026, segundo a Anbima. No mesmo período, a indústria brasileira de fundos registrou resgate líquido de R$ 25,3 bilhões.

De 2024 para cá, o mercado também passou a testar estruturas diferentes para lidar com o aumento do risco de crédito no agronegócio, causado pelo avanço nos pedidos de RJ no setor e do avanço da inadimplência em algumas carteiras.

Especificamente nos Fiagros, os casos da Agrogalaxy, Languiru e da Portal Agro trouxeram uma preocupação adicional para operações lastreadas no setor, relembrou Freitas: em caso de inadimplência, a execução de garantias ligadas à atividade rural pode ser mais complexa e demorada.

Nesse ambiente, parte dos estruturadores voltou a olhar para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), uma modalidade já conhecida do mercado e que permite trabalhar com a compra de carteiras de recebíveis.

Para Freitas, porém, o movimento não representou uma substituição definitiva do Fiagro, mas uma resposta a um momento específico do crédito no agro.

“Quando veio AgroGalaxy, Portal, Languiru, aí veio gestor com ideias de salvar estrutura, de não contaminar risco com empresa específica. Esse tipo de movimento acabou gerando uma migração natural dos estruturadores para o FIDC", explica.

A mudança, segundo ele, também não atingiu de forma uniforme todos os tipos de Fiagro. Enquanto estruturas relacionadas a empresas com maior risco de crédito passaram a enfrentar essa discussão, operações menores e mais pulverizadas continuaram avançando.

É nesse contexto que começaram a ganhar espaço os chamados “Fiagrinhos”: estruturas menores, voltadas a um único cedente ou a uma carteira específica, em vez de um fundo maior que reúne recebíveis de diferentes originadores. A lógica é separar os riscos e permitir que o investidor escolha de forma mais direta a exposição que pretende assumir.

Segundo Freitas, os Fiagros hoje conseguem ser competitivos em relação aos FIDCs tanto pelo custo de montagem quanto pelo tratamento tributário, o que permite desenhar operações mais específicas sem exigir a escala de um fundo grande.

“A procura do investidor está voltada para o mix de rentabilidade e tributação. Para o empresário que está fazendo a operação, ele optou porque a rentabilidade acaba sendo favorecida pelos benefícios fiscais, e por isso o spread é reduzido, o custo de captação é menor", firmou.

"O Fiagro hoje sai mais barato no fim das contas do que um FIDC tradicional”, prosseguiu.

Esse desenho também tem sido usado para operações de maior porte, principalmente em um momento em que o crédito bancário ficou mais restrito e caro. Freitas cita o caso de produtores que possuem terras mas precisam de recursos de curto prazo para atravessar um período de maior pressão financeira.

Ele exemplifica uma estrutura recém avaliada pela Oliveira Trust: uma fazenda avaliada em R$ 100 milhões onde o proprietário transfere uma parcela do imóvel para um Fiagro, recebe recursos e permanece na estrutura como cotista subordinado. O fundo, por sua vez, capta com investidores e estrutura uma operação de crédito lastreada no imóvel e em recebíveis do produtor.

Segundo Freitas, uma operação desse tipo pode permitir que o produtor levante algo entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões em caixa, usando os recursos para quitar dívidas de curto prazo e ganhar prazo para reorganizar o passivo.

“Captando R$ 30 milhões ou R$ 40 milhões de caixa, que precisa para girar o negócio, o ajuda a sair de um problema de juros altos. Com isso faz CPR financeira no Fiagro, num prazo entre três e cinco anos num juro tranquilo, tudo lastreado na fazenda", explicou.

Na prática, a estrutura combina dois ativos: o imóvel usado como garantia e a CPR financeira que representa o crédito concedido ao produtor. Do outro lado estão as cotas do fundo, divididas entre a participação subordinada do próprio produtor e as cotas dos investidores que colocam o dinheiro na operação.

Para Freitas, esse tipo de operação acaba funcionando como uma forma de reorganização do endividamento. O produtor troca uma dívida de prazo mais curto por uma estrutura com vencimento mais longo, reduzindo a pressão imediata sobre o caixa e preservando a atividade enquanto atravessa um período de crédito mais caro.

Resumo

  • Fiagros chegam a R$ 65,8 bi em cinco anos, mas investidores qualificados e profissionais concentram 71,1% do patrimônio
  • Público geral reúne 92,4% das contas, mas só 28,9% do patrimônio, em um mercado com perfis distintos de investimento
  • RJs no agro levaram parte do mercado a migrar para FIDCs, enquanto Fiagros menores ganham espaço em novas estruturas de crédito