A MyTS, empresa de tecnologia especializada em homologação de fornecedores e gestão de documentos, está ampliando uma parceria com a consultoria de sustentabilidade Groundd para ajudar empresas a organizar e acompanhar suas cadeias de fornecedores.
As empresas estão criando um “Passaporte Auditável”, ferramenta voltada inicialmente a empresas que precisam atender às exigências da nova legislação europeia contra produtos associados ao desmatamento, o EUDR.
Mas a ambição das empresas é maior do que ajudar exportadores a cumprir uma nova regra. A ideia é usar a tecnologia para dar mais visibilidade sobre o que acontece ao longo da cadeia, especialmente entre fornecedores indiretos, e transformar informações que hoje ficam espalhadas em planilhas, documentos e até papel em dados que possam ser acompanhados de forma contínua.
“A parceria vem pra tirar a parte de sustentabilidade do discurso e transformar isso em gestão. Vemos muitos projetos bons que não vão para a frente,por culpa de empresas que não conhecem bem as cadeias, e existe um problema de traduzir o que acontece no campo, em especial com pequenos produtores", disse Valmir Rodrigues, fundador e CEO da MyTS, ao AgFeed.
O executivo criou a MyTS (sigla de My Trusted Source, ou "minha fonte confiável", em português) em 2023, após algumas décadas atuando na WQS, uma das maiores empresas de certificação, auditoria e inspeção alimentar das Américas, na qual ele fundou.
A Groundd passa a atuar como Strategic Growth Advisor da MyTS, contribuindo com desenvolvimento de negócios, posicionamento de mercado e identificação de oportunidades, especialmente em sustentabilidade, impacto, desenvolvimento inclusivo, sociobioeconomia e financiamento.
Na prática, a parceria combina duas etapas que costumam andar separadas. A Groundd atua mais próxima dos produtores, cooperativas e comunidades, fazendo diagnósticos, capacitação e acompanhamento das cadeias. A MyTS entra com a plataforma tecnológica para organizar documentos, evidências, fornecedores e indicadores e permitir que esse acompanhamento continue depois do trabalho de campo.
“Pontos no mapa são fáceis de ter, mas os processos de rastreabilidade, as histórias a serem contadas, têm que estar alinhados com o trabalho no campo. Não somos uma empresa de tecnologia, mas sim uma empresa de soluções com comunidades e produtores ao centro”, afirma Marisa Rodrigues, fundadora da Groundd.
Segundo os executivos, o grande problema de alavancar esse mercado está em fazer a ferramenta chegar na ponta final.
Segundo Valmir Rodrigues, grandes empresas já conseguem ter informações relativamente estruturadas sobre seus fornecedores diretos. O problema aparece quando é necessário avançar para as camadas seguintes da cadeia. A MyTS possui projetos hoje, por exemplo, com o Carrefour e com a Korin, de orgânicos.
No caso de uma varejista - como no primeiro caso - dentre os 300 fornecedores diretos de produtos, uma empresa de café, por exemplo, pode reunir mais de 15 mil produtores rurais em sua cadeia.
"Existe um gap muito grande de ter visibilidade. E o risco é altíssimo”, disse Valmir Rodrigues.
Para ele, a dificuldade também está em transformar a informação coletada no campo em algo que possa ser utilizado pela gestão. Mesmo empresas que já possuem softwares robustos ainda podem depender de planilhas e documentos físicos para organizar dados de produtores e fornecedores.
Marisa Rodrigues, da Groundd, cita casos de empresas que chegam à companhia com sistemas sofisticados, mas sem uma estrutura adequada de informações na ponta.
“Temos visto empresas que ainda organizam informações em papel ou Excel. É uma dor grande de quem operacionaliza no terreno, todos os dias captando informação”, diz.
O trabalho da Groundd começa, nesses casos, com um diagnóstico da cadeia. A consultoria identifica os pontos de risco e ajuda a estruturar processos de capacitação, coleta de informações e adequação às exigências do comprador ou financiador. A MyTS entra para organizar essa documentação e permitir o monitoramento.
A proposta é também se afastar de uma lógica baseada apenas em certificações. Valmir conta que a certificação isolada não resolve mais o problema de acompanhamento das cadeias.
“Todo mundo fala em certificação. Isso não garante mais nada. A certificação é uma foto do momento. O que acontece depois ninguém acompanha”, afirma.
EUDR como porta de entrada
O EUDR aparece como uma das demandas que aceleram esse movimento. A regulamentação europeia exige que empresas demonstrem que produtos como café, cacau, soja, carne, madeira e outros não estejam associados ao desmatamento e cumpram requisitos de diligência devida.
Para empresas que exportam para a União Europeia, a falta de documentação e de evidências pode representar um risco financeiro relevante. As multas podem chegar a 4% do faturamento anual no mercado europeu, por exemplo.
O “Passaporte Auditável” foi desenvolvido justamente para organizar esse tipo de documentação, reunindo informações de fornecedores, geolocalização, avaliações de risco e evidências de conformidade.
A Groundd já trabalha com empresas que precisam se preparar para o EUDR e, segundo Marisa, a atuação alcança oito códigos de produtos diferentes. A consultoria também já participou de projetos em países como Brasil, Peru, Indonésia, Angola e Moçambique.
Mas, para as empresas, o mesmo modelo pode ser usado em outras exigências de sustentabilidade, compliance ou acesso a mercados.
“EUDR é um tipo de processo. Qualquer empresa que possa exportar para os Estados Unidos ou para outro país precisa coletar essas informações e gerar valor para a cadeia”, diz Valmir.
A demanda também vem de outro lado do mercado. Bancos, fundos e investidores que financiam empresas ligadas ao agronegócio começam a exigir mais informações para liberar recursos e acompanhar o uso do capital.
Marisa cita o caso de um investidor que financia empresas produtoras e exportadoras e passou a exigir diagnósticos das cadeias antes da liberação de novas parcelas dos investimentos.
No último ano, a Groundd afirma ter ajudado a mobilizar US$ 25 milhões em recursos por meio de fundos, financiamentos bancários e organizações voltadas ao desenvolvimento de cadeias. Um dos projetos envolve mais de 20 mil famílias na Bahia, em uma iniciativa ligada a cacau, restauração e soluções baseadas na natureza.
A MyTS pretende levar a plataforma para novas cadeias e estima chegar a cerca de 10 mil fornecedores cadastrados a partir de 2027, além de iniciar uma expansão mais estruturada nos Estados Unidos.
“Uma empresa traz sua cadeia e seus produtores diretos. A empresa que entrou pode falar: ‘eu também tenho minha cadeia, meus riscos e quero controlar isso’. O objetivo é dar escala”, afirma Valmir.
A expectativa é avançar principalmente em setores com cadeias mais pulverizadas, como café, cacau, ingredientes naturais, alimentos, cosméticos e produtos ligados à sociobiodiversidade.
A Groundd, por sua vez, leva para a parceria a experiência acumulada em projetos no Sul Global. A empresa atua atualmente em 12 países, com trabalhos que vão de agricultura regenerativa e conservação a desenvolvimento comunitário e acesso a mercados.
Para Marisa, é justamente essa combinação que pode preencher a lacuna entre a informação produzida no campo e a necessidade de quem compra, financia ou acompanha uma cadeia.
“O que já existe de bom no Brasil, com capacidade de ter estudo, precisa estar numa plataforma que traz a evidência para quem compra e para quem está contando essa história”, afirma.
Resumo
- MyTS e Groundd lançam ferramenta para organizar dados e evidências exigidos pelo EUDR, que prevê multas de até 4% do faturamento
- Parceria mira um dos principais gargalos das cadeias: a falta de visibilidade sobre fornecedores indiretos e produtores rurais
- MyTS quer chegar a 10 mil fornecedores cadastrados em 2027 e ampliar atuação nos Estados Unidos