O Brasil continua transformando seu território, como os dados de desmatamento e queimadas não nos deixam negar. Essa dinâmica tem acompanhado a expansão da agropecuária, da infraestrutura energética e de transportes e o avanço da urbanização.

Em muitas regiões, no entanto, já estamos vivendo as consequências do descolamento desses processos de uma visão sistêmica e sustentável. Com isso, estamos chegando perto de limites ecossistêmicos que colocam essas mesmas atividades produtivas em risco.

Durante muito tempo, desenvolvimento e conservação foram apresentados como interesses incompatíveis. Hoje sabemos que essa oposição não ajuda a enfrentar os desafios do presente. Produzir alimentos, fibras e energia depende cada vez mais da disponibilidade de água, da estabilidade do clima, da qualidade do solo e da manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos.

Em outras palavras, depende da própria paisagem. Quando falamos em paisagens sustentáveis, não estamos nos referindo a uma propriedade rural isoladamente. Estamos falando de territórios onde convivem diferentes atividades econômicas, áreas naturais, rios, cidades e comunidades.

Podem ser bacias hidrográficas, corredores ecológicos ou um conjunto de municípios. É nessa escala que os efeitos de políticas públicas e das decisões individuais se acumulam e é nela que surgem as oportunidades para conciliar produção e conservação.

As paisagens que atualmente mais desafiam o Brasil são justamente aquelas que passam por rápidas transformações, como as divisas entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia, na Amazônia, e o Matopiba - principal fronteira agropecuária do país na atualidade, que engloba extensas porções do Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Nestas regiões, ainda assistimos à conversão em larga escala de vegetação nativa para novos usos da terra. Ao mesmo tempo, vemos o avanço da recuperação de pastagens degradadas, a adoção de sistemas produtivos de baixa emissão de carbono e o uso de tecnologias capazes de aumentar a produtividade sem ampliar a pressão sobre ecossistemas naturais.

Esses dois movimentos convivem no mesmo território e nos colocam diante da escolha que fará toda a diferença para a economia e o bem-estar dos brasileiros: qual deles iremos incentivar?

É exatamente por isso que a discussão não deve ser exclusivamente sobre interromper a transformação das paisagens, mas sobre como preservar os recursos naturais dos quais a ocupação antrópica das paisagens depende.

Em vez de um processo que simplesmente reduz a cobertura vegetal, comprometendo os recursos hídricos e aumentando a vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos, precisamos construir um modelo que fortaleça a natureza e seus serviços ecossistêmicos enquanto amplia a capacidade produtiva das áreas já abertas.

Isso começa pelo reconhecimento de que o Código Florestal oferece ao país uma base consistente para organizar essa transição. O desafio não é produzir novas regras, mas implementar de forma efetiva as que existem.

Ao mesmo tempo, devemos compreender que o cumprimento da legislação representa um ponto de partida. Paisagens resilientes exigem também recuperar áreas degradadas, proteger remanescentes de vegetação nativa além do mínimo exigido pela legislação e valorizar os serviços da natureza que sustentam a própria produção.

Dentre estes serviços merecem destaque a regulação climática, a disponibilidade hídrica, a polinização e o hábitat dos inimigos naturais das principais pragas e doenças das lavouras.

A ciência brasileira também oferece razões para o otimismo. O País acumulou conhecimento sobre recuperação de solos, manejo de pastagens, agricultura de baixo carbono e restauração de ecossistemas. O passo seguinte é ampliar a adoção dessas soluções. Isso envolve pesquisa aplicada, políticas públicas, monitoramento, dados capazes de orientar decisões, assistência técnica qualificada e tecnologias adaptadas às diferentes realidades regionais.

O verdadeiro impacto da inovação ocorre quando ela ultrapassa os centros de pesquisa e alcança o campo, produzindo resultados em escala territorial para pequenos, médios e grandes produtores. Esse avanço será muito mais rápido se vier acompanhado de instrumentos econômicos compatíveis com essa visão.

Linhas de crédito, financiamento e mecanismos de mercado podem reconhecer e estimular o desempenho ambiental, premiando quem investe na conservação, na recuperação da vegetação e em sistemas produtivos mais eficientes. Não como forma de excluir quem ainda está em transição, mas de criar incentivos para acelerar essa mudança. Nenhuma dessas iniciativas prospera isoladamente.

É justamente na escala da paisagem que interesses distintos podem se ajudar mutuamente. Paisagens sustentáveis são resultado da convergência entre políticas públicas, ciência, financiamento e compromissos do setor privado. Quando a vegetação nativa permanece conservada, os recursos hídricos são protegidos, as áreas degradadas recuperam sua capacidade produtiva e a renda local se fortalece, todo o território se torna mais resiliente diante das mudanças climáticas e das pressões econômicas.

Quando esses elementos atuam de forma coordenada, deixam de existir escolhas entre produzir ou conservar. Passa a existir uma estratégia de desenvolvimento capaz de fortalecer ambos.

O Brasil reúne condições para liderar essa agenda agroambiental – a única agenda que manterá nosso desenvolvimento ao longo deste século.

O desafio agora é transformar iniciativas pontuais em uma estratégia de escala nacional. Esse deve ser o compromisso compartilhado entre governos, empresas, produtores, instituições financeiras e sociedade: fazer da transformação das paisagens uma oportunidade para desenvolver o país sem comprometer o capital natural que sustenta nossa prosperidade e nosso bem-estar.

Beto Mesquita é diretor de Paisagens Sustentáveis da Conservação Internacional (CI-Brasil).

Marcello Brito é diretor acadêmico do FDC-Agroambiental da Fundação Dom Cabral.