Com as eleições de meio de mandato, em novembro, se aproximando nos Estados Unidos, o presidente americano, Donald Trump, transformou os frigoríficos, incluindo os dois gigantes de capital brasileiro, em alvo político de uma campanha para mostrar serviço no combate à inflação que tem lhe roubado popularidade.

Em mais uma tentativa da Casa Branca de conter os preços da carne, Trump anunciou nesta sexta-feira, 28 de agosto, que prepara uma ordem legal para autorizar fazendeiros e pecuaristas americanos a processarem a sua própria produção, sem terem de entregá-la às indústrias.

Em publicação nas redes sociais, o presidente afirmou que mandará elaborar documentos legais para quebrar o que diz ser um “poderoso monopólio” existente entre as grandes empresas do setor.

Sem citar nomes, ele, na prática, referia-se diretamente o quarteto de gigantes que domina o abate bovino americano, do qual fazem parte duas empresas de controle brasileiro.

A iniciativa é o passo mais agressivo de uma ofensiva que vem crescendo há semanas. Na quarta-feira, 26 de agosto, o presidente já havia dito que "ouve falar de um problema de monopólio" no setor há cerca de 20 anos e assinou uma proclamação aumentando temporariamente a cota de importação de carne moída, em uma tentativa de ampliar a oferta no mercado dos EUA.

Na véspera, ele havia sinalizado a disposição de flexibilizar regulações federais do processamento que, na avaliação de pecuaristas, dificultam a abertura de novas plantas.

O novo plano, porém, vai além: ao dar aos produtores o direito de processar a própria produção, a medida busca afrouxar o elo que amarra os pecuaristas ao punhado de companhias que domina o abate.

O pano de fundo é econômico e eleitoral. Os preços da carne bovina nos EUA seguem pressionados por uma combinação de rebanho reduzido, reconstrução mais lenta do que o esperado e oferta apertada, com a inflação dos alimentos figurando entre os temas centrais da campanha para o Congresso.

Para a Casa Branca, cada anúncio direcionado ao setor funciona como resposta política a uma das dores mais visíveis do consumidor americano. Analistas, porém, ponderam que o impacto econômico real dependerá de quanto a medida avançar além do discurso: autorizar o processamento próprio não elimina, sozinha, as barreiras de escala, capital e inspeção que historicamente concentraram o abate nas grandes companhias.

O alvo da ofensiva é um mercado altamente concentrado. Quatro empresas controlam cerca de 85% do processamento de carne bovina nos EUA, segundo o Departamento de Agricultura (USDA): Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef Packing.

Desse grupo, duas são controladas por brasileiros — a JBS, maior companhia de proteínas do mundo, e a National Beef, que pertence à MBRF, holding que reúne os ativos da Marfrig.

A menção das duas brasileiras no centro do "monopólio" criticado por Trump não é novidade. Desde o fim de 2025, JBS, Cargill, Tyson Foods e National Beef são alvo de investigação federal por supostas práticas de fixação de preços, com o Departamento de Justiça chegando a oferecer recompensas de mais de US$ 1 milhão por informações sobre um suposto cartel — um cerco que incluiu acusações de um conselheiro da Casa Branca contra as empresas de capital brasileiro.

Para JBS e MBRF, a nova ameaça soma-se a um cenário já delicado em seus negócios americanos. As duas operações estão no centro de um ciclo de margens comprimidas na carne bovina dos EUA, agravado pela escassez de gado e pelos custos elevados.

A JBS tem inclusive um plano de recuperação de 3 pontos percentuais de margem para a divisão americana, que ainda amarga prejuízo operacional.

A pressão regulatória e política crescente, combinada à investigação antitruste, adiciona incerteza sobre o ambiente de negócios no principal mercado de proteínas do mundo, justamente quando as companhias apostam na retomada do ciclo.

No caso da National Beef, o risco se soma à alavancagem financeira da MBRF, que segue sob escrutínio dos investidores.

O desfecho, por ora, é incerto. A ordem legal anunciada por Trump precisa ser desenhada e implementada em um setor altamente regulado, e enfrentará a resistência da indústria — que historicamente argumenta que a concentração reflete ganhos de escala e eficiência — além dos trâmites legais e burocráticos.

Resumo

  • Presidente americano prepara ordem para permitir que pecuaristas processem a própria produção e reduzir a concentração no setor
  • JBS e National Beef, da MBRF, estão entre as quatro empresas que controlam cerca de 85% do processamento bovino nos EUA
  • Iniciativa se soma a uma investigação federal sobre suposta fixação de preços e amplia a incerteza regulatória para as companhias