Santa Bárbara do Sul e Ijuí (RS)* - A rodovia que conecta o aeroporto de Passo Fundo à simpática cidade de Santa Bárbara do Sul, bem no coração agrícola gaúcho, tem um entorno que parece ter sido pintado por uma caneta marca-texto.
Isso porque o mês de agosto marca a época de florada da canola, que tem por característica flores em amarelo vivo em meio ao seu desenvolvimento.
O mesmo viajante - ou jornalista - que passasse por esses campos no mesmo mês em 2025 até veria as flores amarelas, mas num volume menor, contudo. O Emater-RS projeta que a área com o cultivo dobrou em 2026, ultrapassando os 350 mil hectares.
A canola foi plantada entre abril e o início de junho e deve ter sua colheita iniciada em outubro. A principal responsável pelo seu impulso no Estado é a 3tentos, que aproveita de seu modelo de negócio que combina indústria, orginação e venda de insumos para fazer da planta oleaginosa uma nova tendência, agrícola e de negócios, no Sul do País.
Na prática, a companhia da família Dumoncel atua como fornecedora de sementes, defensivos e fertilizantes aos produtores, compra a canola e a processa e transforma em biodiesel na sua planta de Ijuí, na mesma região. Segundo Thiago Milani, diretor de commodities da 3tentos, a projeção é originar 160 mil toneladas do grão neste ano, ante quase 60 mil no ano passado.
Para chegar a esse volume, alguns fatores, industriais e de lavoura, ajudam. O primeiro é o preço. Por muito tempo, a oleaginosa foi negociada praticamente como uma subcultura da soja, com um desconto sobre a cotação da principal commodity agrícola brasileira. Se a soja valia R$ 100, a canola frequentemente era precificada 10% abaixo disso.
Essa lógica começou a mudar à medida que o mercado de óleos vegetais ganhou importância, com o avanço dos biocombustíveis e dos mandatos para avanço da mistura do biodiesel no diesel comum. "A canola passou a ter vida própria, muito ligada ao preço do óleo”, afirmou Milani.
No ano passado, segundo Leandro Carbone, diretor industrial da 3tentos, a saca da canola chegou a ser negociada entre R$ 5 e R$ 10 acima da soja em determinados momentos.
Na Agropecuária Corticeira, em Santa Bárbara do Sul, o produtor Tales Pezzini plantou 130 hectares de canola pela primeira vez nesta safra. A decisão significou substituir parte da área que normalmente seria destinada ao trigo ou culturas de cobertura.
A propriedade, que soma 1,1 mil hectares de plantio, trabalha com soja e milho no verão e alterna trigo, canola e outras culturas no inverno. Neste ano, a perspectiva de um período mais chuvoso e o custo elevado para produzir trigo ajudaram a empurrar a decisão em direção à nova cultura.
“Vimos a necessidade de ter uma cultura que trouxesse mais rentabilidade. Pelo preço comercializado e pela expectativa de produtividade, a canola pode trazer isso”, afirmou Pezzini.
A conta, pelo menos no papel, é relativamente simples. Segundo o produtor, o custo de produção da canola fica entre 18 e 20 sacas por hectare. Com uma produtividade projetada ao redor de 30 sacas, seria possível alcançar um retorno de cerca de 50% sobre o capital investido.
A 3tentos calcula, segundo Milani, um custo de produção entre 14 e 15 sacas e trabalha com uma safra que deve entregar produtividades entre 25 e 26 sacas, semelhante ao visto no campo por Pezzini.
“Para conseguir isso com trigo, eu precisaria de uma produtividade muito alta. E a chance de isso acontecer neste ano, com o clima chuvoso, era pequena”, disse o produtor rural. "Hoje, [a rentabilidade] é melhor do que soja e trigo", completou Milani, da 3tentos.
A comparação não envolve apenas preço e produtividade, mas também está no manejo. Na fazenda de Pezzini, que plantou a canola no início de maio - com previsão de colheita em outubro - a necessidade de aplicação de defensivos diminuiu frente ao que seria feito no trigo.
Segundo ele, até agora ele já realizou uma aplicação de herbicidas e duas de fungicidas. No trigo, seriam pelo menos cinco operações nesse mesmo estágio da safra.
Ele cita que o trigo até produz mais por hectare, cerca de 90 sacas, mas, pela projeção climática, a qualidade poderia vir abaixo do desejado pelos moinhos compradores. "Se você entrega um trigo com pH acima de 78 ele vale X. Agora, se ele chega lá na hora e não atingir essa qualidade, vale menos. O trigo é mais complexo, assim, pensando no manejo e principalmente doenças", disse.
Nem tudo são flores amarelas
A conjuntura positiva e momentânea não significa, porém, que a cultura seja uma solução automática para o inverno gaúcho. Tales Pezzini cita que não se pode olhar apenas para a rentabilidade da canola, mas sim para a conta fechando em todo o ano-safra.
Ele cita, por exemplo, que a canola deixa uma quantidade menor de palhada no solo após a colheita e que também se decompõe mais rapidamente do que a resteva do trigo ou da aveia. Em um período de chuvas intensas, isso pode deixar o solo mais exposto à erosão antes do plantio da soja.
“Se eu ganhar 10 sacas de canola, mas o fato de ter plantado canola fizer com que eu perca 20 sacas de soja lá na frente, não adianta. No final do dia, o que interessa é quanto sobrou líquido por hectare no ano”, afirmou.
A repetição da cultura também precisa ser evitada por causa da pressão de doenças, como mofo-branco e canela-preta. Na Agropecuária Corticeira, a ideia é usar a canola como parte de uma rotação, sem transformar toda a área de inverno em lavouras da oleaginosa.
“Se der certo, vamos seguir em um sistema de rotação. Não vamos plantar tudo com canola e nem chegar a 30% da área, mas vamos sempre rotacionando”, disse Pezzini.
É justamente nessa possibilidade de ocupar uma parte das áreas que hoje ficam com trigo, pastagens ou apenas culturas de cobertura que a 3tentos enxerga espaço para o próximo salto. Hoje, o Rio Grande do Sul tem mais de 1 milhão de hectares destinados ao trigo e outras culturas de inverno.
“Mesmo considerando a necessidade de rotação, tem espaço para crescer. A gente acredita que pode chegar facilmente, em dois ou três anos, a 1 milhão de hectares de canola”, afirmou Milani.
Para a 3tentos, ainda há um desafio no lado industrial. Em 2025, a companhia investiu R$ 60 milhões para adaptar a unidade de Ijuí e permitir o processamento de canola. A diferença em relação à soja começa pelo teor de óleo: enquanto a soja tem, em média, cerca de 20%, a canola pode chegar a 40%.
A planta recebeu equipamentos adicionais principalmente na etapa de preparação, incluindo prensas que retiram parte do óleo antes de o restante do material seguir para o circuito convencional de extração.
No primeiro ano, a operação ainda funcionou como uma espécie de aprendizado. Agora, segundo a empresa, o processo está mais "azeitado".
A capacidade de esmagamento é de 1,2 mil toneladas por dia e pode chegar a 1,5 mil toneladas. Nesta safra, a expectativa é que a unidade processe canola durante cerca de cinco meses, começando em setembro e avançando até fevereiro. No ano passado, foram cerca de dois meses.
“Se tiver originação, a fábrica foi transformada para, no futuro, rodar 100% com canola o ano inteiro. No futuro, com o mercado mais consolidado, projetamos que o produtor vai fazer rodízio entre trigo e canola nessas áreas nobres”, afirmou Carbone.
A empresa atua como principal fornecedora de insumos para a cultura, com 30% de market share nacional, segundo Thiago Milani, que relembra que cerca de 90% dos quase 400 mil hectares estão no estado gaúcho, com algumas poucas experiências no Paraná.
Ele ainda cita que, para além da 3tentos, a Refinaria Riograndense planeja produzir, a partir de 2029, SAF no estado, ampliando potencialmente a demanda por óleos vegetais, incluindo canola.
*O jornalista viajou à convite da 3tentos
Resumo
- Com preço e rentabilidade mais atrativos, produtores trocam parte do trigo pela oleaginosa nas lavouras de inverno
- Área de canola deve dobrar em 2026 e superar 350 mil hectares no RS, e 3tentos projeta originar 160 mil toneladas
- Após adaptar fábrica de Ijuí, companhia vê espaço para 1 milhão de hectares em até três anos