Passei as últimas cinco décadas acompanhando a evolução do setor florestal brasileiro de perto: da fase em que ainda se discutia produtividade básica até o momento em que o país passou a liderar, com segurança, o debate global sobre floresta plantada, competitividade industrial e sustentabilidade.
Vi o eucalipto deixar de ser tratado como aposta e se tornar um dos maiores ativos estratégicos da economia brasileira. E, honestamente, poucas vezes estive tão convencido de que o futuro do setor é tão promissor quanto desafiador.
O Brasil chegou a esse ponto por uma razão simples: investiu em ciência. Segundo a Ibá, o país soma 10,5 milhões de hectares de florestas cultivadas e preserva mais de 7 milhões de hectares de vegetação nativa.
Em 2025, esses avanços se traduziram no recorde de 29,4 milhões de toneladas de celulose produzidas (crescimento de 6,9% na comparação com 2024) e em 20,7 milhões de toneladas exportadas (+11,6%).
O dado mais recente já fechado, referente a 2024, mostra que a produção florestal brasileira atingiu R$ 44,3 bilhões, com a madeira em tora para papel e celulose respondendo por R$ 14,9 bilhões desse total.
Esses números não são apenas expressivos. Eles mostram que o país construiu uma base florestal altamente competitiva e, ao mesmo tempo, ambientalmente responsável.
Quando comecei a trabalhar no setor, a discussão era muito mais restrita. Falava-se em sobrevivência, adaptação e escala. Hoje falamos em genética, qualidade da madeira, resiliência climática, automação e inteligência de dados.
Isso revela uma mudança profunda: não estamos mais apenas produzindo madeira. Estamos desenhando sistemas produtivos complexos, capazes de responder a um mundo mais exigente, mais quente e mais pressionado por eficiência e rastreabilidade.
O eucalipto, nesses 120 anos de Brasil, foi símbolo dessa transformação. O que o tornou uma história de sucesso não foi apenas sua velocidade de crescimento, mas a capacidade brasileira de aperfeiçoá-lo continuamente.
O futuro está justamente nessa fronteira: em clones mais resistentes ao estresse hídrico, às altas temperaturas e às doenças, em laboratórios de qualidade da madeira, em programas de melhoramento genético cada vez mais sofisticados. É ali, no detalhe técnico, que se decide a competitividade de uma cadeia inteira.
Quem olha de fora às vezes repete a crítica fácil dos “desertos verdes”. Eu sempre achei essa uma visão incompleta — e, em muitos casos, injusta. O setor florestal brasileiro evoluiu com áreas de conservação, corredores ecológicos, mosaicos de uso do solo e monitoramento permanente da biodiversidade.
A própria Ibá informa que o setor mantém mais de 7 milhões de hectares de florestas nativas conservadas, em paralelo às áreas plantadas. Isso não é detalhe. Isso é parte estrutural do modelo.
Não há floresta plantada competitiva sem compromisso ambiental. A produção moderna depende de conservação, de proteção à biodiversidade e de manejo responsável ao redor dos plantios. É uma lógica de produção que entende que a estabilidade ambiental é condição para o próprio negócio prosperar.
Também precisamos dizer com clareza que a madeira brasileira é um ativo global. A celulose do Brasil figura entre as mais competitivas do mundo porque combina produtividade por hectare, escala industrial e eficiência logística.
Em um mercado internacional que valoriza materiais renováveis, rastreáveis e de menor pegada de carbono, o país tem algo raro: um setor que une desempenho econômico e solução ambiental.
Mas o futuro não vai premiar apenas quem já é grande. Vai premiar quem continuar inovando. E isso significa ampliar investimentos em pesquisa, laboratórios, automação, sensoriamento remoto, gestão climática e inteligência aplicada ao campo.
Significa também sempre comunicar à sociedade o que fazemos e por que fazemos. Porque o debate público sobre floresta plantada ainda é, muitas vezes, marcado por desconhecimento. E o melhor antídoto contra o ruído é dado, transparência e consistência.
As próximas gerações do setor precisam ter clareza de que o Brasil não chegou até aqui por acaso e não permanecerá na liderança por inércia. A vantagem que construímos foi erguida sobre pesquisa, disciplina e visão de longo prazo.
O eucalipto completou 120 anos no país. O próximo século dependerá da nossa capacidade de fazer ainda melhor, com mais ciência, mais resiliência e mais compromisso com o futuro.
Germano Vieira é diretor florestal da Eldorado Brasil Celulose.