Uma pitada de risco, outra de oportunidade. Esse é o tempero de um relatório do Santander sobre oito empresas do setor de alimentos, bebidas e agronegócio no Brasil, divulgado nesta segunda-feira, 24 de julho.
O documento traz um resumo das discussões sobre o segmento na 27ª Conferência Anual do banco, realizada na semana passada, etraça um mapa de potencial de valorização que varia de forma expressiva entre as oito empresas cobertas: de modestos +12,5% para a SLC Agrícola até impressionantes +151% para a 3tentos.
A leitura do relatório traz, entretanto uma ressalva importante: nem todos os preços-alvo indicados pelo banco têm o mesmo prazo. Enquanto Boa Safra, Camil e M. Dias Branco têm alvos fixados para o fim de 2026, Ambev, MBRF, Minerva, SLC e a própria 3tentos miram o fim de 2027.
Com isso, os três primeiros papéis têm apenas cerca de quatro meses para atingir os patamares projetados — um detalhe que muda bastante a interpretação dos números e ajuda a explicar por que o banco mantém esses nomes como neutros, mesmo com upsides elevados.
A 3tentos é a aposta mais agressiva do Santander no agronegócio e a única com potencial de valorização de três dígitos. Com preço-alvo de R$ 26,60 para 2027 e cotação atual de R$ 10,60 indicada no relatório, o papel embute um upside de cerca de 151%.
A tese repousa em três motores que, na visão dos analistas, o mercado ainda não precifica integralmente: a plataforma de etanol de milho, "significativamente maior do que o mercado atualmente precifica"; o potencial de expansão da operação de varejo para além dos dois estados onde a companhia tem presença forte; e a conversão gradual da unidade de Ijuí para canola, vista como importante oportunidade de expansão de margens.
O banco também passou ainda a incorporar explicitamente a TentosCap na avaliação, com valuation separado de R$ 264 milhões, cerca de R$ 0,53 por ação.
Do lado dos riscos, o excesso de oferta de biodiesel segue como a principal preocupação dos investidores — o relatório cita formalmente o risco de diminuição da mistura obrigatória de biodiesel —, além de frete mais caro, execução do projeto de expansão, concorrência mais acirrada e perdas de estoque na divisão de químicos.
A MBRF é a outra recomendação de outperform (indicação de desempenho acima da média do mercado, correspondendo a uma recomendação de compra) e a principal escolha do banco entre as proteínas.
O preço-alvo de R$ 28,00, ante cotação de R$ 17,25, implica um potencial de valorização de 62,3%, com horizonte de fim de 2027. A preferência é sustentada por revisões positivas nas projeções de lucro, puxadas principalmente pelo desempenho esperado da BRF.
O banco elevou em 16% a estimativa de Ebitda da MBRF para 2026, para R$ 13,5 bilhões, cerca de 6% acima do consenso e vê demanda consistente por carne de frango no mercado internacional, com preços ainda elevados no Oriente Médio.
Os riscos formais listados pelos analistas incluem um ciclo bovino negativo mais longo do que o esperado nos Estados Unidos e no Brasil, despesas financeiras elevadas, valorização do real, alocação de capital, excesso de oferta de frango no Brasil e preços de grãos mais altos.
Oportunidades de curto prazo
Entre os papéis com recomendação neutra, o caso de Boa Safra e M. Dias Branco chama atenção pela combinação de ratings conservadores com upsides relevantes e também por terem os alvos mais próximos.
A Boa Safra, com alvo de R$ 10,00 para o fim de 2026 e preço de R$ 6,11, oferece, na visão do Santander, potencial de valorização 63,7%. O banco reconhece a melhora da execução do capital de giro à medida que a escala fortalece os termos com fornecedores, o ganho de participação de mercado de cerca de 8% para 10% e a transição da plataforma tecnológica, que pode reduzir as preocupações relacionadas a patentes.
Os riscos para a sementeira, citados no relatório, são a qualidade de crédito de varejistas e produtores, a exaustão do canal, a concorrência e a inadimplência, enquanto os fatores de alta incluem aquisições de players em dificuldade financeira e o crescimento de novas culturas e genéticas no portfólio.
A M. Dias Branco, por sua vez, tem alvo de R$ 27,00 também para o fim de 2026, contra o patamar atual de R$ 17,01, um upside de 58,7%. A visão neutra dos analistas é explicada pelo foco em execução em um ambiente de trigo mais caro, que pressiona margens, e pelo programa "Acelera" de corte de despesas, em meio a um ciclo de investimentos de dois a três anos.
Os riscos incluem depreciação do real, alta do trigo, capacidade limitada de repasse de preços sem perda de market share, execução de fusões e aquisições e concorrência intensificada.
A Camil aparece com potencial de valorização de40,1% — alvo de R$ 6,50 para o fim do exercício 2026, contra preço de R$ 4,64 —, apoiada em uma perspectiva mais favorável para os preços do arroz que começa a se desenhar, no processo de desalavancagem e nas tendências de consumo discutidas na conferência, incluindo o impacto dos medicamentos GLP-1.
Entre os pontos de atenção, segundo o banco, estão os ventos macroeconômicos contrários no Brasil, a redução estrutural dos estoques dos grandes clientes, uma guerra de preços em café e massas como reação ao aumento de volumes e um cenário mais desafiador do que o esperado para o açúcar.
Do lado positivo, os analistas do Santander citam a recuperação da divisão de açúcar, a expansão das operações de café e massas e o uso do brand equity da Camil para alavancar outras categorias.
Falta um gatilho
A Minerva, com recomendação neutra e alvo de R$ 4,50 para o fim de 2027, ante R$ 3,47, oferece o upside mais contido entre as carnes, de 29,7%. O Santander reconhece que boa parte das notícias negativas já está refletida no preço, mas vê a ausência de catalisadores como limitante: o ciclo do gado no Brasil se torna mais negativo, as exportações à China perdem força após o preenchimento de cerca de 80% da cota e os custos com gado e logística pressionam margens.
O alvo avalia a empresa com um múltiplo explicitamente baixo, justificado pelo próprio banco como resultado de o setor estar passando pelo "trecho mais negativo do ciclo bovino no Brasil".
A alta dos preços do boi no Brasil, sanções sanitárias contra unidades operacionais, real mais fraco e despesas financeiras elevadas surgem como os pontos vistos como eventuais problemas para a companhia.
Em contrapartida, a diversificação geográfica em Argentina, Colômbia e Uruguai deve se destacar, e a companhia preserva flexibilidade de balanço, capital de giro e dividendos, atributos valorizados justamente no ambiente de ceticismo sobre a alavancagem dos frigoríficos.
A Ambev, com alvo de R$ 17,50 para o fim de 2027 e cotação de R$ 14,73, tem o segundo menor upside da carteira, de +18,8%, numa leitura em que parte do bom momentum já estaria precificada: o banco estima crescimento de 6,5% no volume de cerveja no Brasil, impulsionado por bases fracas, eventos esportivos e efeitos de um El Niño forte no segundo semestre, mas vê espaço limitado para novas revisões positivas de lucro.
Na frente dos riscos, o avanço dos medicamentos GLP-1 e a busca por hábitos mais saudáveis aparecem como preocupação de parte dos investidores — embora o Santander acredite na capacidade de adaptação da companhia, com portfólio ampliado de cervejas sem álcool, sem glúten e de baixo teor calórico —, além de condições macro na Argentina, incertezas tributárias no Brasil e o upside limitado de uma reestruturação de capital que segue travando a reavaliação do papel.
Fechando a cobertura, a SLC Agrícola tem o menor potencial de valorização, de 12,5%, com alvo de R$ 16,00 para o fim de 2027, contra R$ 14,22, em linha com uma visão neutra que destaca o risco climático do El Niño como principal preocupação para a safra 2026/2027 e as questões de alocação de capital levantadas pela aquisição do Bloco Mato Grosso, da Radar, por R$ 669 milhões.
Os riscos de baixa citados são quebra de safra por El Niño, reavaliação dos custos de arrendamento, perdas adicionais de safra, incapacidade de entregar o crescimento esperado em áreas arrendadas e a posição de alavancagem da SLC.
Já os fatores de alta incluem maior demanda e preços de soft commodities brasileiras, depreciação do real e custos de insumos menores. Vale notar que essa leitura contrasta com a de outros bancos: o BTG Pactual, por exemplo, tem a SLC como compra, com preço-alvo de R$ 23, o que ilustra como o mesmo papel pode ser enxergado de formas bastante distintas em um setor dominado por incertezas.
No conjunto, o relatório do Santander desenha um setor em que o valor existe, mas exige paciência e seleção. Para o Santander, os riscos que atravessam todas as teses — El Niño, excesso de oferta de biocombustíveis, baixa visibilidade de capital de giro e a alavancagem dos frigoríficos — seguem como o pano de fundo de um posicionamento ainda leve dos investidores no agronegócio brasileiro.
Resumo
- Santander identifica potenciais de valorização relevantes em empresas do setor agro, alimentos e bebidas, mas recomenda atenção ao cenário de riscos
- Relatório banco aponta perspectivas distintas para alimentos, proteínas, sementes e insumos, refletindo os desafios de cada segmento
- 3tentos aparece com mair potencial de valorização (151%) entre as oito companhias avaliadas; SLC tem o menor upside, com 12%