Qualquer conversa entre produtores ou empresas do agronegócio ao longo deste ano, necessariamente, envolve uma preocupação: o crédito cada vez mais restrito.
Nos pavilhões do Congresso da Andav 2026, evento que reuniu milhares de representantes do setor, não foi diferente. Por isso, todos assistiram atentos aos números apresentados pela Serasa durante o evento, com os dados mais recentes sobre as recuperações judiciais no agronegócio.
A pesquisa mostrou um avanço de quase 22% nos pedidos de RJ no campo no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. Esse retrato tem sido um dos principais fatores para tornar cada vez mais rigorosa e seletiva a concessão de crédito.
Mas seria essa uma tendência para o ano? A resposta foi dada pelo diretor de agronegócios da Serasa, Marcelo Pimenta, na entrevista exclusiva ao SpeedCast Andav 2026, gravado durante o evento, pelo AgFeed, em parceria com a Agriconnection.
“O número de produtores que estão perdendo a capacidade de pagamento continua alto. Então, imagina, é como uma inércia. Imagina um trem em determinada direção, mesmo que ele pare de acelerar, para ele perder velocidade, leva um tempo. Então, o que acontece é que a gente ainda vai ter crescimento nos pedidos de recuperação judicial, mas a aceleração ela diminui”, afirmou Pimenta.
Em resumo, o executivo do Serasa disse que a alavancagem ainda está muito alta e que “o número de produtores que estão perdendo a capacidade de pagamento continua alto”.
Neste cenário, nos próximos meses, ele espera um aumento nominal no número de pedidos, mas com taxas de crescimento menores.
Quanto ao que vem ocorrendo até agora, ele destacou que, nos últimos três anos, houve um aumento na dívida média por produtor, reduzindo a capacidade de pagamento.
“Em alguns casos, você realmente ter situações onde a margem dele de operação está negativa. Esses fatores têm diversas razões, mas muitos deles acabam explicando, tanto a inadimplência quanto a recuperação judicial”, mencionou.
Ainda assim, Marcelo Pimenta faz questão de dizer que, proporcionalmente, as recuperações judiciais ainda representam pouco.
“É claro que a recuperação judicial é algo extremo, é algo que não é bom nem para o produtor, nem para os credores de maneira geral, mas se nós compararmos o número total de pedidos de recuperação judicial a todas as transações de créditos existentes, a gente vai perceber que a gente está falando de 1 a cada 10.000 produtores que pedem recuperação judicial”.
Ele recomenda que as empresas cada vez mais utilizem ferramentas capazes de prever com antecedência o risco de recuperações judiciais entre os clientes, fazendo uma gestão da inadimplência.
“O AgriScore, a análise de carteira, consegue prever com 18 meses de antecedência se existe um risco ou não daquele produtor pedir a recuperação judicial”, citou.
Embora nas conversas com a Serasa, o foco principal costume ser os dados de inadimplência e RJ, Pimenta ponderou que a empresa vem trabalhando muito em projetos de expansão no agronegócio, incluindo a conversão de áreas degradadas.
“Entre os atores que são responsáveis pela produção (agrícola), o que está acontecendo agora é um movimento onde aqueles que se estruturaram vão crescer mais rápido, aqueles que não se estruturaram tem duas saídas”, explicou.
“Ou se reestrutura e vai doer em muitos casos, porque vai precisar, muitas vezes, devolver um arrendamento, devolver equipamento, em alguns casos vender parte da terra para poder se reestruturar. Mas, uma vez reestruturado, tem um caminho de crescimento e aqueles que não conseguirem se reestruturar, vão perder o seu negócio”.
Assista a entrevista na íntegra com Marcelo Pimenta, da Serasa Experian.