O resultado reflete os dados do segundo trimestre de 2026. Se a estratégia declarada por trás deles deu certo, entretanto, só será confirmado nos próximos meses, com o que de fato a Minerva Foods realizar ao longo do segundo semestre.
Divulgados na noite da quarta-feira, 12 de agosto, os números do balanço da companhia trazem uma combinação de indicadores positivos e negativos, amarrados em uma conjuntura global complexa para a indústria de carne bovina no mundo.
E retratam uma companhia que escolheu sacrificar caixa e alavancagem no curto prazo para se posicionar melhor no segundo semestre, apostando na realização de estoques recordes e na captura de preços mais altos, sobretudo nos Estados Unidos.
O grande teste virá nos próximos meses, quando a companhia espera liberar o capital de giro investido e melhorar a rentabilidade.
Assim, a Minerva encerrou o trimestre de 2026 com recordes de faturamento, mas carregou os custos dessa estratégia. A receita líquida somou R$ 14,1 bilhões, alta de 1,3% na comparação anual, enquanto o Ebitda ficou em R$ 1,2 bilhão, com margem de 8,7%.
O lucro líquido, porém, caiu 57% na base anual, para R$ 196,9 milhões, pressionado pela alta do preço do gado e pelo efeito não-caixa da variação cambial.
Na avaliação do CFO, Edison Ticle, o trimestre foi "muito bom, dado o ambiente volátil e a incerteza toda que a gente está vivendo por causa tanto do problema geopolítico quanto do ambiente macroeconômico".
A leitura positiva vem acompanhada de um movimento claro: segundo ele, a companhia está no "all-time high" de estoques, pronta para realizar essas vendas no segundo semestre.
Assim, o ponto central do trimestre, na sua visão, foi o investimento em capital de giro, utilizado justamente para financiar essa formação de estoques. Com isso, o fluxo de caixa livre foi negativo em R$ 611,4 milhões.
O CFO detalhou a conta: o Ebitda de R$ 1,2 bilhão foi consumido por R$ 1,1 bilhão em capital de giro, R$ 200 milhões em capex e R$ 560 milhões em despesas financeiras.
"A companhia teve um fluxo de caixa negativo no trimestre de R$ 600 milhões. É exatamente o que subiu a nossa dívida líquida", afirmou Ticle.
A explicação para o investimento em estoques está na dinâmica de cotas dos principais compradores externos da carne brasileira.
"O primeiro semestre de todo ano é quando a gente monta os estoques, principalmente em China e Estados Unidos, por causa da dinâmica de cotas. E a gente faz as vendas desse estoque no segundo semestre", detalhou o CFO.
Esse movimento pressionou a alavancagem, que subiu de 2,7x no primeiro trimestre, para 2,9x no segundo, embora ainda abaixo das 3,2x do segundo quarto de 2025. "O que explica a subida na alavancagem? Basicamente, os investimentos em capital de giro que a gente fez nesse trimestre", disse Ticle.
A expectativa, porém, é de reversão: "Nunca antes na história dessa companhia a gente teve tantos estoques, seja nos destinos, seja nas origens. Então, a gente está pronto para realizar esses estoques no segundo semestre", completou, lembrando que no terceiro trimestre do ano passado a companhia liberou quase R$ 2 bilhões em capital de giro por redução de estoque.
O CFO explicou com detalhes a decomposição da queda de margens e lucro. O Ebitda recuou de R$ 1,3 bilhão para R$ 1,2 bilhão, uma redução de cerca de R$ 70 milhões. O lucro, porém, caiu R$ 250 milhões, com o restante vindo do resultado financeiro.
"Se você olhar o segundo trimestre do ano passado, a gente teve uma variação cambial positiva que contribuiu com mais ou menos R$ 130 milhões positivo. E esse ano a gente teve uma contribuição negativa de R$ 35", explicou, somando os dois efeitos para chegar aos R$ 220 milhões que explicam a maior parte da queda.
A margem bruta caiu de 17,6% para 16,6%, reflexo, segundo ele, do encarecimento do animal. "O gado hoje, se a gente pegar todas as geografias que a gente opera, está cerca de 27% mais caro em média contra o ano passado. Isso pressionou a margem bruta, que caiu aproximadamente 100 bps", afirmou Ticle.
A margem Ebitda caiu menos (de 9,4% para 8,7%) graças às sinergias extraídas da operação de compra dos ativos da Marfrig, finalizada no ano passado. Segundo ele, os custos operacionais e administrativos, que antes da aquisição representavam de 13% a 14%, agora estão na faixa de 10%.
Para o segundo semestre, o CFO foi conservador quanto à recomposição de margens. "Esse ano a gente está tendo margens piores que o ano passado pela questão da alta do gado. A nossa expectativa é continuar na mesma toada para o segundo semestre. A gente não tem nenhuma expectativa muito positiva em relação às margens", afirmou, projetando a manutenção da queda de cerca de 70 bps ante o ano anterior.
China, Estados Unidos e a arbitragem de origens
No trimestre, as exportações representaram 56,6% da receita bruta, com destaque para a Ásia e a China como principal destino. O CFO destacou a capacidade da companhia de arbitrar entre origens.
"O Brasil passou a ser um destino importante, principalmente para o Paraguai. E o Brasil acabou representando quase 20% das exportações nesse trimestre", disse, explicando que a companhia exporta mais do Brasil e supre o mercado local com carne do Paraguai, Argentina e Uruguai.
Para o segundo semestre, Ticle vê os Estados Unidos ganhando participação nas vendas externas, com a China estável. "Apesar de o Brasil estar fechado, porque as cotas acabaram, a gente continua exportando para a China via Colômbia, Uruguai e Argentina", pontuou.
"Os nossos volumes de China esse ano vão ficar praticamente iguais aos volumes do ano passado, mesmo tendo o Brasil com uma cota menor", afirmou.
Ele acrescentou que a demanda segue "muito forte, muito aquecida", especialmente nos Estados Unidos, "o que nos dá base para a estratégia de ter construído os estoques, principalmente nos Estados Unidos, mas também na China, e aproveitar esse aumento de preço no segundo semestre".
O CEO, Fernando Galletti de Queiroz, reforçou a visão de longo prazo sobre o papel da América do Sul. "Cada vez mais a América do Sul tem um papel importante no fornecimento mundial. A Austrália, que era a última dos competidores que ainda tinha algum volume, está tendo um movimento de subida de preço, de redução de volume. Então isso deve se traduzir em um espaço maior e um pricing power mais forte para os países da América do Sul", afirmou.
Gestão de passivos
A Minerva segue ativa na gestão de passivos. No primeiro semestre, recomprou e cancelou cerca de US$ 232,9 milhões (R$ 1,2 bilhão) em bonds no mercado internacional, além de R$ 66,2 milhões em títulos no mercado local.
Ticle confirmou que esse movimento vai continuar. "A gente vê muitas oportunidades, tanto no mercado local quanto no mercado lá fora", disse.
Nesse ponto, a estratégia é alongar o prazo do endividamento e reduzir o impacto do custo financeiro no balanço.
Para o CFO, "o ambiente de crédito está muito mais avesso, muito mais adverso agora do que estava no início do ano, por uma série de fatores", disse, citando juros altos no Brasil, incerteza eleitoral e a dúvida sobre a política fiscal a partir de 2027.
"Os bancos se retraíram bastante. A expectativa é que no segundo semestre peguem ainda mais. Não é que você não tem crédito disponível, mas os spreads aumentaram bastante. Então, a gente tem que navegar com um pouco mais de cautela daqui para o final do ano."
Mercado interno e novos mercados
Sobre o mercado interno brasileiro, Queiroz destacou a resiliência. "Nós estamos vendo um mercado interno bastante resiliente apesar do endividamento e da alta taxa de juros. O mercado interno brasileiro tem surpreendido positivamente, um consumo estável, pouco elástico", afirmou.
Ticle acrescentou um diferencial competitivo: "A gente tem as plantas que são China no Brasil, aprovadas também para Estados Unidos, que é um fator único na indústria. Os outros frigoríficos, que só têm China, provavelmente vão ter que ir para o mercado interno. A gente continua tendo outras opções tão ou mais rentáveis."
Sobre a abertura de novos mercados para a carne brasileira, como a Coreia, Queiroz viu a probabilidade aumentando. "Não só a Coreia, mas você tem alguns mercados a mais se abrindo para os países da América do Sul. A probabilidade aumenta, mas aumenta principalmente a velocidade de abertura de novos mercados."
Resumo
- Minerva encerra o trimestre com estoques recordes para capturar melhores preços e margens no segundo semestre
- Receita atinge recorde, mas lucro cai 57% e fluxo de caixa fica negativo devido ao aumento do capital de giro
- Companhia aposta na demanda de China e EUA, mantém gestão ativa da dívida e vê espaço para novos mercados