O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32% (E32) no mês de julho. A medida tem validade inicial de 180 dias.

O benefício da decisão vai além da valorização do combustível renovável: em um contexto de alta dos preços internacionais do petróleo, pressão inflacionária e elevado custo fiscal para conter reajustes de combustíveis, o etanol brasileiro se apresenta como instrumento estratégico de alívio econômico e de segurança energética.

O efeito direto do E32 é a redução da demanda por gasolina, diminuindo a dependência de importações e a exposição do país às oscilações do mercado internacional.

Essa vulnerabilidade não é irrelevante: o Brasil é autossuficiente em petróleo bruto desde 2009 e figura entre os dez maiores exportadores globais, impulsionado pelo pré-sal. Ainda assim, segue sem capacidade de refino suficiente para atender à demanda doméstica.

Em outras palavras, exportamos petróleo e importamos derivados, permanecendo expostos a choques internacionais justamente em produtos de grande impacto inflacionário.

Ou seja, em um cenário marcado pela escalada dos preços internacionais do petróleo e um elevado custo fiscal para conter reajustes nas bombas, políticas de incentivo ao etanol brasileiro, como a do E32, transcendem a dimensão ambiental. Ele se consolida como um instrumento estratégico de alívio econômico e de segurança energética nacional.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil importou 3,4 bilhões de litros de gasolina A (aditivada) em 2025 — 27,6% acima de 2024, equivalente a cerca de 7,5% do consumo nacional de gasolina C (comum). Só entre janeiro e junho de 2026, as importações já somaram 1,4 bilhão de litros.

O quadro se agrava com a alta de cerca de 40% no Preço de Paridade de Importação (PPI) da gasolina A no semestre, reflexo de tensões geopolíticas internacionais.

A instabilidade geopolítica tem pressionado os combustíveis fósseis sistematicamente, agravada por conflitos recentes, como os envolvendo o Irã no Oriente Médio. Em junho, o preço já era 72% superior ao do etanol anidro, cuja oferta doméstica segue em expansão, impulsionada pelo crescimento do etanol de milho.

Para conter esses efeitos sobre a inflação, o governo instituiu, desde maio, subsídio de R$ 0,44 por litro de gasolina. O custo da medida está estimado entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão mensais aos cofres públicos, em um momento que o governo enfrenta problemas fiscais — em junho, o IPCA acumulado em 12 meses já atingia 4,64%, acima do teto da meta (4,5%).

Esse subsídio evidencia o custo fiscal da dependência da gasolina importada e revela o sintoma de uma armadilha e de uma relação circular: financia-se um alívio de curtíssimo prazo, mas alimenta-se a mesma pressão inflacionária que se busca conter, via deterioração do resultado primário (ampliação do déficit fiscal), dificultando sua redução sem alternativas estruturais pelo lado da oferta.

É nesse contexto que o E32 ganha relevância. O aumento de dois pontos percentuais na mistura pode evitar a importação de quase 1 bilhão de litros de gasolina ainda em 2026, segundo projeções do governo.

A medida reduz a necessidade de divisas e a vulnerabilidade a choques externos. Fortalece, ainda, uma cadeia produtiva em que o Brasil detém vantagem competitiva reconhecida, estimulando investimento e emprego no país, em vez de subsidiar importações.

A resolução, contudo, não é unânime. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) manifestou oposição, alegando ausência de testes conclusivos sobre durabilidade e autonomia de veículos movidos exclusivamente a gasolina, sobretudo os mais antigos.

Com base na mesma alegação, um representante do Ministério Público Federal (MPF) busca suspender a ação. No entanto, os próprios dados disponíveis no mercado relativizam a preocupação central: cerca de 85% da frota circulante hoje é flex, segundo as estatísticas da própria Anfavea.

Além disso, a decisão do CNPE foi precedida de cuidadosa avaliação técnica, em um esforço coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, com ampla participação do governo, da indústria, da academia e da cadeia de combustíveis.Esses ensaios foram conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia e não identificaram impactos relevantes do E32 nos veículos avaliados (movidos a gasolina, não flex), dando assim embasamento científico e técnico à aprovação.

Como medida adicional, a decisão do CNPE ainda exige que a gasolina comercializada nas bombas siga com maior precisão o teor nominal de 32%, assegurando correspondência técnica com o combustível que foi testado.

Vale destacar que a mudança regulatória tende, intrinsecamente, a favorecer também a própria indústria automotiva nacional: os veículos flex são majoritariamente produzidos no Brasil e os motores nacionais a gasolina já vêm se adaptando de forma contínua e segura para operar com misturas próximas a 30% há mais de uma década.

Em síntese, a elevação para E32 é medida simples, mas de efeitos relevantes: amplia o uso de fonte renovável, reduz emissões, diminui a dependência de combustíveis importados e aproveita vantagem competitiva construída ao longo de décadas pela cadeia de biocombustíveis nacional.

No campo climático, também é possível notar um ganho de escala: a ampliação percentual na mistura deve proporcionar uma redução estrutural na emissão de CO₂. O etanol figura como peça-chave brasileira de baixo carbono, reduzindo emissões ao se aliar aos motores híbridos flex.

Poucas políticas públicas conseguem, apenas com um simples ajuste regulatório, atacar simultaneamente inflação, conta externa e transição energética, e é por isso que o E32 deveria ser apoiado e tratado não como exceção conjuntural, mas como parte da estratégia energética do país e resposta para um problema que a indústria de refino de petróleo brasileira ainda não resolveu.

Leandro Gilio é professor e pesquisador do Insper, atua no Núcleo de Agro Global (Insper Agro Global), economista, mestre e doutor em Economia Aplicada pela USP.