Alguns venderam a pequena propriedade onde nasceram. Outros, sem terra para arar, colocaram a família sobre um caminhão e partiram rumo a um destino do qual pouco sabiam.
Houve quem dormisse semanas sob uma lona preta, quem pagasse a travessia de uma balsa com as próprias botas e quem chegasse ao Cerrado quando ainda não existiam estradas asfaltadas, hospitais ou armazéns.
Todas essas histórias são reais. Nas décadas de 1970 e 1980, milhares de agricultores deixaram o Rio Grande do Sul em direção ao Centro-Oeste em uma das maiores migrações internas da história recente do Brasil, marcha que ajudou a transformar uma região considerada improdutiva em uma potência mundial na produção de alimentos.
A história da soja costuma ser contada em livros técnicos, pesquisas acadêmicas e reportagens. Mas ao contrário do ciclo do café, da borracha, do ouro, a trajetória da soja nunca havia sido contada pela literatura brasileira.
Foi essa lacuna que chamou a atenção da advogada e escritora gaúcha Anna Mariano, que vem se dedicando à literatura nos últimos 20 anos e escreveu, desde então, livros como o romance "Atado de ervas" (L&PM Editores), de 2011, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura do ano seguinte.
"Eu não conhecia nenhum livro de ficção sobre essa epopeia", afirma Mariano em entrevista ao AgFeed. "E quando descobri que milhões de pessoas tinham feito essa travessia, fiquei pasma, achei que alguém precisava contar essa história."
O resultado é "Murmúrios da terra", romance escrito por Mariano ao longo dos últimos cinco anos e que acaba de ser lançado pela Globo Livros (416 páginas; R$ 69,90).
A obra acompanha, entre 1936 e 1984, a trajetória de produtores rurais desde o interior do Rio Grande do Sul até as novas fronteiras agrícolas que foram abrindo no Centro-Oeste.
Embora os personagens sejam fictícios, o pano de fundo é rigorosamente histórico e está ligado à própria vida da autora, que teve a ideia de escrever o livro a partir de uma inquietação pessoal.
Mariano nasceu e passou boa parte da vida na capital gaúcha, Porto Alegre. Mas até os 11 anos de idade viveu na estância de gado de sua família em São Borja (RS), na região das Missões.
Não muito longe dali, por sinal, em Santa Rosa, também no Rio Grande do Sul, foram plantadas as primeiras espécies de soja no Brasil, em 1924.
“Eu vivia pra fora”, resume a escritora, utilizando uma expressão interiorana dos gaúchos usada para dizer que alguém viveu na roça. "Minha origem é da terra, é de acordar cedo e tirar leite, de tosar ovelha.”
O que a escritora não conhecia, no entanto, era a dimensão das mudanças que a soja na sociedade e na vida de milhares de pessoas.
"A soja é uma planta que mudou não só a vida de milhões de pessoas. Mudou a economia do Brasil", afirma.
Ao longo de cinco anos, além de consultar inúmeros livros, fontes e manuais de agronomia, Mariano fez várias incursões ao interior gaúcho para entender melhor as transformações promovidas pela agricultura ao longo do tempo.
Passou pela estância da família em São Borja, por uma propriedade de soja em Santiago (RS), e uma temporada em Vale Vêneto, distrito de São João do Polêsine (RS), nos arredores de Santa Maria (RS), para compreender os costumes das famílias descendentes de italianos que inspirariam seus personagens.
Aprendeu receitas tradicionais, ouviu histórias locais e até consultou especialistas em talian, o dialeto utilizado pelos descendentes de imigrantes italianos do Rio Grande do Sul, que vinham boa parte da região do Vêneto, no nordeste da Itália, para reproduzir expressões da época sem perder a autenticidade.
Mariano viajou também para Chapadão do Sul (MS), antigo Chapadão dos Gaúchos, um dos primeiros pólos da migração dos gaúchos para o Cerrado, ainda nos anos 1970.
Ali encontrou agricultores, hoje homens maduros, mas que saíram muito jovens do Rio Grande do Sul há cinco décadas e participaram daquela primeira ocupação.
"Eles falavam comigo e choravam. Lembravam de quando tinham que dormir debaixo do caminhão ou debaixo de lona preta porque não havia nada, absolutamente nada, nem armazém", recorda.
Uma das histórias mais marcantes veio de um produtor que recordava o momento em que conseguiu uma casa.
"Ele me disse que nunca esqueceria o dia em que disse para mãe que ela não precisaria mais capinar dentro de casa, porque o chão deixaria de ser de terra batida”, recorda.
Foi ouvindo esses relatos que a escritora teve certeza de que o livro precisava existir. "Quando fui para o Mato Grosso, fiquei realmente convencida de que deveria escrevê-lo", conta a escritora.
"Murmúrios da terra" foi lançado na semana passada em Porto Alegre. Mas a ideia da escritora é também realizar um segundo evento de lançamento, dessa vez em Mato Grosso. “O pessoal de lá já me disse para fazer no dia 20 de setembro. Ainda não está certo, mas estou tentando”, revela.
Feriado estadual no Rio Grande do Sul, o dia 20 de setembro lembra o início da Revolução Farroupilha, conflito travado entre 1835 e 1845 que marcou a história do Estado. Ao longo da guerra, foi proclamada a independência da República Rio-Grandense em relação ao Brasil imperial – posteriormente reintegrada ao país ao fim da batalha.
Um universo de murmúrios
Apesar do intenso trabalho de pesquisa, Anna Marianno decidiu estabelecer uma regra desde o início: a ficção deveria conduzir a narrativa.
A história acompanha as histórias de famílias de descendentes de italianos, que viviam em Vale Vêneto, na região da Quarta Colônia gaúcha, a partir da década de 1930.
Um dos personagens, Pedro, conhece uma cultura ainda pouco difundida, chamada então de "feijão-soja" – é por isso que muitos agricultores gaúchos até hoje falam "o" soja – levada por um caixeiro-viajante.
Encantado com o potencial da planta e a possibilidade de uma nova fonte de renda, passa a apostar na oleaginosa quando ela ainda era utilizada principalmente para alimentar os animais. Mais tarde, já na década de 1970, emigra para o Mato Grosso, acompanhado de outros personagens.
Mas a história não se resume apenas aos produtores rurais. A ideia de Marianno foi trazer todo o universo que a cadeia do agro sempre carrega.
Há tipos que trabalham na mecanização agrícola, outros participam da expansão das novas fronteiras, alguns seguem para a indústria de máquinas e de óleo de soja e há quem descubra oportunidades no mercado de terras e no comércio da produção.
“Um personagem, por exemplo, vai trabalhar na Bolsa. Viaja para os Estados Unidos. Outro vai trabalhar na SLC, quando ainda produziam máquinas. Se encanta com o projeto da nova colheitadeira, a primeira do Brasil. Outro é aviador, começa a vender terras. E por aí vai. São muitas histórias”, afirma Mariano.
Ao mesmo tempo, como boa obra de ficção, a narrativa aborda temáticas diversas como racismo, religiosidade, o surgimento de grandes cooperativas gaúchas e das indústrias de máquinas agrícolas e de óleo de soja, além, é claro, de conflitos familiares na disputa por terras agrícolas, choques geracionais, os dilemas humanos enfrentados por quem deixava tudo para trás em busca de um futuro incerto.
A narrativa vai até 1984, quando Porto Alegre sediou o Grito do Campo, uma gigantesca manifestação de produtores rurais realizada no dia 2 de outubro daquele ano e que reuniu pelo menos 35 mil agricultores e representantes de 68 cooperativas agrícolas no estádio Beira-Rio, do Internacional.
Às vésperas do fim da ditadura militar, o evento foi um ousado ato de protesto de agricultores e dirigentes de cooperativas agrícolas contra a política agrícola do governo do presidente João Figueiredo.
As críticas dos produtores gaúchos à época eram parecidas com as de hoje: falta de subsídios para crédito e seguro rural, juros altos e instabilidades de toda ordem no campo.
Com o agro vivendo problemas semelhantes hoje, ao mesmo tempo em que a produção de soja se consolidou no Centro-Oeste, se espraiou para outras regiões do Brasil como Norte e Nordeste – quase sempre com a presença de algum gaúcho – haveria espaço para uma continuação de “Murmúrios da terra”?
“Já pensou? Agora sim, com tantas polêmicas, é que não me publicam!”, brinca Anna Mariano, com um fundo de verdade.
Isso porque o livro, antes de ser aceito pela Globo Livros, foi rejeitado por vários editores justamente por contar parte da história do agronegócio brasileiro.
“Senti na pele o que é o preconceito contra o agro. Parece que tinha uma parede na minha frente. Mesmo com o livro praticamente pronto, demorei alguns anos para conseguir encontrar quem não tivesse preconceito com o agronegócio”, conta.
O livro originalmente era para se chamar “A Eternidade dos Caramujos”, conta a escritora. “E por que caramujo? Porque ele vai devagarinho, andando, como foram nossos gaúchos."
Mas, de olho na possibilidade de vender o livro para o mercado internacional e com uma tradução literal – snail – que não soava bem aos ouvidos dos falantes de inglês, a editora sugeriu que o título fosse alterado.
Mariano lembrou, então, do nome de um poema que tinha escrito no passado chamado “Murmúrios da terra” e, além disso, viu algo metafísico nesse nome.
"Murmúrio é uma palavra muito sonora. É quase como o som de murmúrio, o U, o R... no fim, é a terra conversando contigo. E acho que foi o que a terra fez comigo. Quase murmurando, disse para mim: ‘Escreve essa história porque ela merece’”.
Resumo
- Romance de Anna Mariano resgata a migração de milhares de gaúchos que ajudaram a transformar o Cerrado em uma potência agrícola
- Após cinco anos de pesquisa, "Murmúrios da terra" mistura ficção e fatos históricos para contar a expansão da soja no Brasil
- Autora ouviu pioneiros da ocupação do Centro-Oeste e transformou suas memórias em uma narrativa sobre a origem do agro moderno