A Medida Provisória que criou linhas especiais de crédito para renegociação de dívidas rurais é um passo "direcionalmente positivo" para o Banco do Brasil, mas o impacto concreto sobre os resultados da instituição ainda depende de regulamentação complementar e do volume efetivamente renegociado — e o alívio mais material deve vir apenas a partir do quarto trimestre.
A avaliação é do BTG Pactual, que distribuiu aos seus clientes na manhã desta quinta-feira, 23 de julho, relatório sobre o BB, em que reiterou recomendação neutra para as ações do banco estatal, com preço-alvo de R$ 25,00.
Na noite anterior, o BB havia protocolado comunicado ao mercado em que anuncia que está tomando as providências necessárias para operacionalizar as linhas de renegociação previstas na MP 1.376/2026, publicada no dia 15 de julho.
A medida autoriza a criação de linhas de crédito para liquidação ou amortização de dívidas de produtores rurais e cooperativas afetados por eventos climáticos adversos ou problemas de comercialização.
A gerente geral de Relações com Investidores do BB, Janaina Storti, afirmou em nota que a MP é "positiva para o setor produtivo" e que as condições previstas — taxas de juros entre 5% e 12% ao ano, prazos de até dez anos e carência de dois anos — "permitem que a maioria dos produtores impactados readequem seus compromissos e se mantenham na atividade produtiva".
Storti ressaltou, no entanto, que "neste momento, não é possível estimar os impactos da Medida Provisória sobre os indicadores financeiros, patrimoniais e de resultado do Banco, uma vez que tais efeitos dependem, entre outros fatores, das condições definitivas a serem estabelecidas na regulamentação aplicável e do volume efetivamente renegociado com produtores rurais elegíveis".
A operacionalização das linhas, segundo o BB, aguarda a edição de regulamentação complementar pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e de ato normativo do Ministério da Fazenda, que estabelecerá as condições de equalização dos encargos financeiros — ou seja, o subsídio do governo para viabilizar as taxas.
O governo estima que a MP 1.376 possa alcançar até R$ 100 bilhões em dívidas renegociadas, com a União podendo aportar até R$ 2 bilhões em um fundo garantidor.
Segundo o relatório do BTG Pactual, o Banco do Brasil tinha aproximadamente R$ 100 bilhões em operações rurais alongadas — cerca de R$ 62 bilhões na carteira de prorrogações e R$ 38 bilhões originados sob a MP 1.314/2025 —, além de aproximadamente R$ 30 bilhões em exposições inadimplentes.
Os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale destacam que a medida cria "uma ponte para uma recuperação gradual, não uma melhora imediata" para a carteira de crédito rural do banco estatal.
Para eles, o segundo trimestre de 2026 deve seguir desafiador, com provisões possivelmente tão elevadas quanto as do primeiro trimestre e perdas de crédito caminhando para o limite superior do guidance. O alívio mais significativo no resultado, avaliam, deve ocorrer apenas a partir do 4º trimestre.
O relatório do BTG, divulgado na quarta-feira (22), também traz os principais pontos discutidos com a administração do BB durante a Rio Financials Conference, realizada na semana anterior, onde o tema central foi justamente o agronegócio e os desdobramentos da MP 1.376.
Entre os sinais positivos, os analistas apontam que as primeiras melhorias devem aparecer na redução da inadimplência. As renegociações elegíveis, apontam, também podem permitir a retomada da apropriação de juros e, dependendo das garantias e da classificação de risco, sustentar reversões de provisões.
Do lado da originação de novos financiamentos, o BB informou no evento que está refinando seus modelos de risco, reforçando exigências de garantias e ampliando o uso de alienação fiduciária em novas operações de crédito rural.
A prioridade, segundo a administração, segue sendo a reconstrução de capital por meio de geração orgânica de resultados e crescimento disciplinado em produtos de menor consumo de capital.
Resumo
- BTG avalia que a MP da renegociação do crédito rural é positiva, mas o impacto no Banco do Brasil será gradual
- Banco estatal possui cerca de R4 30 bilhões em crédito rural inadimplente, mas aguarda regulamentação para operacionalizar as novas linhas
- Analistas projetam melhora mais relevante na inadimplência e nos resultados apenas a partir do 4º trimestre