Após uma primeira fase liderada por grandes players, grupos especializados no segmento e plantas com alta capacidade de produção, o novo cluster industrial brasileiro - formado por usinas de etanol à base de milho - entra agora em uma segunda etapa.

Projetos regionais de menor porte, idealizados por produtores rurais, começam a sair do papel e ganhar visibilidade no setor, em projeto como o da família Priori, de Jataí, em Goiás.

Nas terras do clã, empresarialmente identificado como Grupo Paraíso, são produzidas aproximadamente 400 mil toneladas de milho por ano - volume próximo do que a companhia agrícola deve processar na usina que tomará forma neste ano.

Com investimento de cerca de R$ 780 milhões, os Priori ingressarão no circuito industrial com capacidade para transformar em etanol 1.200 toneladas de milho por dia. A usina será operada pela Paraíso Biocombustível, com início de operação previsto entre 24 e 36 meses, e ficará ao lado dos armazéns do seu braço comercial, com o qual já opera no mercado de grãos.

Entre 70% e 80% do milho beneficiado deverá vir da produção familiar. Ainda assim, o cereal será contabilizado a preço de mercado, já que agricultura e indústria funcionarão como empresas distintas.

"O ganho não é comprar milho barato de nós mesmos. O ganho é ter segurança de abastecimento e equilíbrio entre as margens", explica Luiz Cesar Priori, coordenador do projeto, ao AgFeed.

Além de reduzir a exposição às oscilações do mercado, a integração entre plantio e indústria diminuirá riscos logísticos e garantirá maior previsibilidade ao novo negócio.

A decisão do Grupo Paraíso de investir em uma usina de etanol de milho nasceu de uma inquietação antiga da família: deixar de depender exclusivamente da venda do grão como matéria-prima e avançar para uma etapa de maior valor agregado dentro da cadeia do agronegócio.

Ampliar a atuação em toda a cadeia do agronegócio acompanha a trajetória da família há décadas. O grupo começou na agricultura e, ao longo do tempo, expandiu sua atuação para armazenagem, transporte, revenda de máquinas, insumos e comercialização de grãos.

A partir de 2018, porém, iniciou uma reorganização, reduzindo negócios considerados menos estratégicos para concentrar esforços fora da porteira.

“Em 2019 fizemos o último investimento relevante na compra de terras. Já existia essa vontade de beneficiar o milho, de não vender só matéria-prima. Chegamos a estudar alternativas como floculação e produção de farinha, até que veio o avanço do etanol de milho, opção economicamente mais interessante”, conta Priori.

A usina nasce com capacidade de 1.200 toneladas por dia, mas já foi projetada para futuras ampliações, podendo chegar a 2.400 e posteriormente 3.600 toneladas diárias. Priori ressalta, porém, que a prioridade é consolidar a primeira etapa. "Estamos fazendo um projeto que entendemos dar conta de fazer", ressalta Priori.

A integração entre agricultura e indústria funciona como uma proteção contra os ciclos do mercado. Se o preço do milho cai, a indústria tende a ganhar competitividade ao comprar matéria-prima mais barata; se o grão sobe, a produção agrícola compensa. Priori resume essa estratégia como um "hedge natural".

Embora menor que algumas das maiores unidades do país, a usina dos Priori está longe de ser pequena, segundo Hugo Morais, diretor de Desenvolvimento de Negócios da Katzen, empresa norte-americana especializada em tecnologias para o setor e responsável por projetos de 21 plantas de etanol combustível e oito em desenvolvimento no Brasil.

O diferencial, avalia o executivo, está menos no tamanho da planta e mais no perfil do investidor. "O que chama atenção não é a usina. É quem está construindo”, aponta.

“Ela é um pouco menor que a média nacional, mas não é pequena. É uma usina dimensionada para a produção agrícola do grupo. Essa é uma tendência, produtores buscarem a verticalização da cadeia. Apenas neste ano, já recebemos sete consultas para projetos de usinas ao redor de mil toneladas por dia", relata Morais.

O projeto dos Priori ilustra uma transformação mais ampla vivida pela indústria brasileira de etanol de milho. Depois de um primeiro ciclo de expansão liderado por grandes grupos, o setor atrai produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e empresas regionais interessadas em verticalizar a produção.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), ligado ao Banco do Nordeste (BNB), apontam que a indústria entra em uma segunda etapa de crescimento, marcada pela interiorização das plantas e pela diversificação dos modelos de negócio.

Ao transformar o cereal em combustível, proteína para nutrição animal, óleo e outros derivados, o produtor deixa de depender exclusivamente da venda do grão in natura e distribui melhor sua receita entre diferentes etapas da cadeia.

Segundo levantamento do ETENE/BNB, o Brasil possui atualmente 35 biorrefinarias autorizadas para produção de etanol de grãos, sendo 25 full grain e 10 flex, além de 19 novos projetos autorizados para construção.

Os dados indicam que a expansão deixou de seguir um único modelo de grandes usinas para incorporar empreendimentos de diferentes portes e características regionais.

Na avaliação de Priori, o principal risco do negócio não está na demanda por combustível, mas na insegurança regulatória. "O maior risco não é o mercado. É o governo mudar a regra no meio do caminho. Chegar e segurar artificialmente o preço do combustível, ou mudar a mistura obrigatória", avalia o administrador.

Foi uma mudança recente, por sinal, que estimulou diferentes projetos: a possibilidade de venda direta de etanol das usinas para os postos de combustíveis.

Em janeiro de 2022 entrou em vigor a Lei 14.292/2022, permitindo que o etanol seja vendido diretamente aos postos, sem obrigatoriedade de passar pelas distribuidoras. Antes, pelas regras da ANP, o produtor normalmente só podia vender para distribuidoras, outros produtores ou mercado externo.

Estudo divulgado neste ano pelo RaboBank, especializado em agronegócio, aponta que o setor pode estar chegando num ponto de inflexão no Brasil: a velocidade de expansão da capacidade começa a ficar maior que a expansão natural da demanda.

O mercado e os investidores, avaliam, porém, que o futuro das biorrefinarias será alimentado fortemente pela oferta de produtos como DDGS, óleo de milho e outros derivados, reduzindo a dependência do combustível.

No horizonte do setor também há perspectivas de avançar para mercados mais sofisticados, como combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e navegação, indústria farmacêutica e alimentícia.

Um dos grandes desafios, já na agenda dos Priori, será a disponibilidade de mão de obra especializada. A usina em construção, na primeira fase, deverá empregar cerca de 150 pessoas, mas o executivo não espera encontrar profissionais prontos.

"Falta mão de obra especializada. O grande desafio vai ser contratar, treinar e manter gente trabalhando com produtividade", antecipa o executivo.

A usina, em fase de aprovações legais para iniciar a obra, foi concebida para funcionar também como centro de treinamento, formando profissionais, com um espaço específico para aulas e treinamentos.

"Mesmo tendo longa trajetória no Brasil com as usinas de cana, uma usina de milho é outra realidade. Apesar de produzirem etanol no fim do processo, tudo é diferente", pondera Priori.

Resumo

  • Grupos familiares e produtores rurais lideram uma nova fase do etanol de milho, com projetos regionais voltados à verticalização da produção
  • Grupo Paraíso investirá R$ 780 milhões em usina em Goiás para processar milho próprio, agregar valor e reduzir a exposição aos ciclos do mercado
  • Expansão do setor avança com plantas de diferentes portes, mas enfrenta desafios como segurança regulatória, mão de obra e crescimento da demanda