O primeiro balanço da Raízen a ser divulgado após a aprovação do plano de recuperação extrajudicial mostra uma companhia ainda em processo de reorganização profunda.
Segundo o documento referente à safra 2025/2026 e arquivado na CVM no início da noite da segunda-feira, 29 de junho, o prejuízo do período foi de R$ 27,1 bilhões, uma forte disparada frente ao prejuízo de R$ 4,2 bilhões do ciclo anterior. Tudo isso, é claro, em meio a uma série de baixas contábeis, desinvestimentos e revisões de ativos.
No balanço, a companhia cita que reconheceu R$ 22,5 bilhões em provisões sem efeito caixa após revisar as premissas utilizadas nos testes de recuperabilidade de determinados ativos.
Desse total, R$ 12,5 bilhões foram registrados em função da "incerteza significativa quanto à continuidade operacional", enquanto outros R$ 10 bilhões estão relacionados à expectativa de não realização de determinados ativos.
Um número chamativo do balanço é o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) consolidado: o indicador reportado caiu 92%, para apenas R$ 1,1 bilhão, ante R$ 13,7 bilhões na safra 2024/2025. A diferença está nos ajustes feitos pela companhia.
Segundo a Raízen, o resultado foi impactado por R$ 11,9 bilhões em efeitos não recorrentes, ligados principalmente à simplificação do portfólio, impairments, baixa de ágio e ativos intangíveis, venda de ativos, redução da participação no Paraguai e provisões extraordinárias em operações de trading de açúcar.
Ao excluir esses efeitos, o Ebitda ajustado da safra ficou em R$ 11,3 bilhões, praticamente estável na comparação anual pelo critério reportado.
A receita líquida da empresa foi de R$ 225,6 bilhões, uma baixa de 11,5% em relação ao ano anterior. Olhando para o aspecto operacional, a maior pressão veio da divisão de etanol, açúcar e bioenergia (EAB), responsável pela maior parte do negócio da companhia.
O Ebitda ajustado da operação caiu 23,9%, para R$ 4,54 bilhões, refletindo uma combinação de menor produtividade agrícola, moagem reduzida e preços menos favoráveis para o açúcar.
A moagem consolidada recuou 9,8%, para 70,5 milhões de toneladas de cana.
Além de processar menos cana, a companhia ainda produziu menos cana por hectare, com o TCH caindo 5,2%, para 72,9 toneladas por hectare.
A companhia atribuiu o desempenho aos efeitos climáticos acumulados desde a entressafra anterior, incluindo restrições hídricas, altas temperaturas e incêndios.
A produção de açúcar recuou 5,5%, para 4,824 milhões de toneladas, enquanto o etanol caiu 17,9%, para 2,576 milhões de metros cúbicos. Mesmo com a menor disponibilidade de matéria-prima, a companhia direcionou uma parcela maior do ATR para o açúcar: o mix passou de 50% para 53% açúcar e de 50% para 47% etanol, estratégia sustentada pela política de comercialização e fixação de preços.
Se a bioenergia pressionou os números, a distribuição de combustíveis no Brasil ajudou a amortecer parte do impacto. O Ebitda ajustado da divisão avançou 35,5%, para R$ 5,72 bilhões, sustentado pela recuperação das margens de comercialização.
A operação argentina, vendida para o grupo suíço Mercuria, teve queda de 14,2% no Ebitda para US$ 2,15 bilhões, pressionado principalmente pelos impactos da desvalorização do peso argentino e pelo atraso no repasse de preços ao consumidor ao longo do primeiro semestre do ano.
O principal ponto de atenção do balanço continua sendo a estrutura financeira. A dívida líquida encerrou março e a safra em R$ 58,2 bilhões, alta de 69,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A alavancagem subiu de 3,2 vezes para 5,2 vezes dívida líquida sobre Ebitda ajustado.
Segundo a companhia, o aumento reflete principalmente a substituição de operações de capital de giro por dívida de prazo mais longo, no montante de R$ 13,6 bilhões e o pagamento e apropriação de juros sobre as dívidas, de R$ 10,7 bilhões.
O resultado financeiro líquido total atingiu R$ 11,9 bilhões negativos, alta de 59,7% na comparação anual.
Entre os fatores apontados pela empresa estão: o maior saldo de dívida líquida, a elevação da taxa média do CDI de 11,2% para 14,8%, o reconhecimento de R$ 796 milhões em custos de emissão e estruturação das dívidas abrangidas pela recuperação extrajudicial e por perdas cambiais após a reversão de parte das estruturas de hedge que protegiam as dívidas em moeda estrangeira.
No recorte de janeiro a março, último trimestre da safra, a receita líquida recuou 11,1%, para R$ 51,3 bilhões, com um prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões, quase três vezes maior que o visto no mesmo período da safra anterior.
Para a próxima safra, os olhares e atenções da Raízen se darão mais para a fotografia contábil. A companhia relembrou, no balanço, que terá 180 dias de suspensão de juros e encargos relacionados aos créditos do plano.
Na prática, durante os 180 dias de standstill, os juros das dívidas continuarão sendo reconhecidos no resultado, mas sem saída de caixa, enquanto os passivos abrangidos pelo plano permanecem classificados no curto prazo até a implementação definitiva das novas condições negociadas com os credores - onde conseguiu mais de 80% das aprovações.
Resumo
- Raízen registra prejuízo de R$ 27,1 bi na safra 25/26 após ajustes contábeis e reestruturação
- Bioenergia pressiona resultado com menor moagem, TCH em queda e retração na produção de açúcar e etanol
- Dívida líquida sobe 69,9% e alavancagem alcança 5,2x em meio ao plano de recuperação extrajudicial