O mercado brasileiro de sementes de soja chega à safra 2026/2027 em um cenário contraditório. Depois de anos de expansão acelerada da capacidade produtiva por parte das grandes empresas e da entrada de novos competidores - além do aumento da pirataria -, o setor convive com excesso de oferta.
Ao mesmo tempo, o excesso de chuva em algumas regiões de Mato Grosso durante o cultivo da soja no início deste ano comprometeu a qualidade de parte da produção e deve provocar restrições na disponibilidade de algumas variedades de sementes para a próxima temporada.
Tudo isso sem contar o aumento da inadimplência, recuperações judiciais - que inclusive chegou no setor por meio do processo da Uniggel - margens espremidas e juros elevados.
Nesse ambiente difícil de prever, algumas das principais sementeiras do País começam a recalibrar suas estratégias.
A Jotabasso, uma das maiores empresas do setor, com faturamento próximo de R$ 1 bilhão por ano, decidiu manter inalterado seu plano de produção para a próxima safra, em vez de seguir ampliando capacidade.
"Não faremos crescimento. Vamos manter nosso objetivo de produção porque o mercado está muito instável e com margens apertadas", disse ao AgFeed o CEO da companhia, Tages Martinelli.
A empresa projeta comercializar cerca de 1,5 milhão de sacas de sementes de soja na safra 2026/2027, em linha com a temporada anterior, apesar de possuir capacidade instalada superior, próxima de 2 milhões de sacas.
"Nosso negócio é entregar qualidade. Nós não queremos ser a maior sementeira do Brasil, mas queremos ser reconhecidos como a sementeira que entrega a melhor qualidade para o produtor. Temos um valor agregado maior, um custo maior e, portanto, neste momento, vamos nos manter no mesmo tamanho que estamos hoje", afirmou.
Dona de 50 mil hectares de produção própria, a operação de sementes de soja da Jotabasso está dividida praticamente em duas regionais. Cerca de metade da produção é destinada ao Sul do País, atendendo principalmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul. A outra metade é produzida no Cerrado, com base em Mato Grosso e foco nos diferentes mercados da região.
Embora a soja seja o principal negócio, a companhia também mantém uma operação diversificada em outras culturas. Aproximadamente 60% a 65% da área plantada com soja é utilizada em rotação com milho.
A empresa ainda cultiva entre 3 mil e 5 mil hectares de sorgo, cerca de 3 mil hectares de trigo em Mato Grosso do Sul e mantém atividades de pecuária em expansão. Segundo Martinelli, a diversificação faz parte da estratégia de redução de riscos da companhia.
Nos últimos anos, a expansão contínua da área de soja e anos com cotações da commodity lá no alto incentivaram novos investimentos no setor. As grandes sementeiras se profissionalizaram e aumentaram a capacidade produtiva e, ao mesmo tempo, ganharam mais concorrência, inclusive por players não tradicionais no setor.
Em evento realizado pela Bayer para discutir o papel da biotecnologia na agricultura brasileira, na manhã desta segunda-feira, 15 de junho, em São Paulo, o diretor de soja comercial da multinacional, Fábio Passos, ressaltou que esse movimento bagunçou a relação de oferta e demanda.
"Talvez lá atrás muita gente com uma qualidade média ainda estivesse no jogo. O que vemos hoje é diferente. Como aconteceu com os agricultores, ficam no mercado aqueles que conseguem entregar mais qualidade, tecnologia e valor", disse Passos.
Em meio a um ambiente de margens apertadas no campo e pressão sobre toda a cadeia de sementes, a multinacional aproveitou o evento para reforçar uma mensagem que interessa diretamente ao negócio de quem desenvolve a biotecnologia contida nas sementes: produtores não deveriam reduzir o investimento em tecnologia mesmo em um cenário mais desafiador.
Dados apresentados pela companhia mostram que as biotecnologias responderam por cerca de 3,7% do custo total de produção da soja na safra 2025/26, em um ano em que o Brasil deve colher mais de 180 milhões de toneladas do grão, alta de cerca de 6% na comparação anual.
A Bayer também destacou a crescente sofisticação do mercado brasileiro, onde o número de cultivares registradas saltou de cerca de 450 na safra 2005/06 para aproximadamente 2,7 mil atualmente.
Para Passos, o próprio avanço tecnológico e a atratividade do mercado acabaram elevando o nível de competição entre as sementeiras.
"Vimos muitas empresas se profissionalizando, trazendo mais investimentos e mais capacidade. Isso culmina justamente numa questão de oferta e demanda", afirmou.
Para Luciano Pompilio, produtor rural e membro da Fundação MS, o setor de sementes passou por uma expansão acelerada nos últimos anos, atraindo participantes que nem sempre possuíam tradição na atividade.
"Nos últimos 20 anos, muitos produtores de grãos resolveram fazer sementes. Só que fazer semente é completamente diferente de produzir grãos. Você tem custos maiores e precisa ter qualidade em todos os processos", afirmou, também durante o evento.
Na avaliação de Pompilio, a entrada de novos competidores elevou a oferta, mas também contribuiu para uma maior heterogeneidade na qualidade dos materiais disponíveis no mercado. "O produtor normalmente compra semente de quem ele conhece. E ele conhece porque aquela empresa entrega qualidade", disse.
O fato é que o balanço entre oferta e demanda de sementes para a safra 2026/2027 continua longe de um consenso.
Se, de um lado, a capacidade produtiva instalada segue elevada e o setor ainda convive com o legado de anos de expansão acelerada, de outro, os problemas climáticos registrados no início deste ano reduziram a disponibilidade de sementes aptas para comercialização em algumas variedades.
A Boa Safra, líder nacional em sementes de soja, já afirmou ao mercado que espera restrições de oferta em determinados materiais para a próxima temporada. Ao divulgar os resultados do primeiro trimestre deste ano, executivos da companhia da família Colpo destacaram que o excesso de chuvas durante a colheita da soja no Centro-Oeste comprometeu a qualidade de parte dos grãos destinados à multiplicação de sementes.
"Nunca vivemos um ano com restrição de oferta tão forte como vimos na nossa história pós-IPO", disse Felipe Marques, diretor financeiro da empresa, em conversa com jornalistas há cerca de um mês.
Ele ressaltou que, diferentemente de fertilizantes ou defensivos agrícolas, cuja oferta global pode sofrer atrasos ou encarecimento, mas eventualmente chega ao produtor, a disponibilidade de sementes depende exclusivamente do que foi produzido e aprovado no ciclo atual.
A própria Boa Safra ampliou sua estrutura nos últimos anos justamente para ganhar flexibilidade operacional em cenários climáticos mais desafiadores. Na safra mais recente, a companhia elevou sua área de produção de sementes de soja de 275 mil para 320 mil hectares e atingiu capacidade instalada de 280 mil big bags.
Ainda assim, a empresa admite que a visibilidade sobre a próxima temporada permanece reduzida. Do lado da demanda, as margens mais apertadas do produtor, juros elevados e um ambiente de crédito mais seletivo tornam mais difícil antecipar o comportamento do mercado.
Apesar desse cenário nebuloso, a Boa Safra informou ter encerrado o primeiro trimestre com uma carteira de pedidos de R$ 1,5 bilhão, cerca de R$ 100 milhões superior à registrada no mesmo período do ano passado.
Tradicionalmente, é entre janeiro e junho que as sementeiras concentram a tomada de pedidos para a próxima safra, o que faz desse indicador uma das poucas sinalizações disponíveis sobre o humor do mercado.
Resumo
- Excesso de oferta, margens apertadas e inadimplência levam sementeiras a rever planos para a safra 2026/27
- A Jotabasso manterá a produção em 1,5 milhão de sacas, apesar de ter capacidade para chegar a 2 milhões
- Chuvas em Mato Grosso comprometeram parte da produção e podem limitar a oferta de algumas variedades de sementes