Os números trazem um retrato positivo, mas frio, do setor de saúde animal. Olhando para os resultados do segmento em 2025, divulgados esta semana pelo Sindicato da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), vê-se cifras bilionárias (R$ 12,8 bilhões em receita anual) e em curva ascendente (crescimento de 7,9% no ano e uma média de 9% desde 2015).

Os dados, evidentemente, agradam a Emílio Salani, vice-presidente executivo e principal porta-voz do Sindan. Mas ele olha muito além deles. E enxerga potencial de crescimento ainda maior no futuro e oportunidades perdidas no passado.

O cenário favorável da pecuária brasileira, por exemplo, com preços firmes da arroba do boi oferecendo boas margens aos produtores rurais, é animador. “Se as condições se mantiverem, a gente pode crescer um ou dois pontos acima do ano passado. Talvez até chegar a dois dígitos”, afirma Salani.

Mas não apaga desafios estruturais que, segundo ele, reduziram ganhos de toda a cadeia no passado e podem continuar impactando o setor nos próximos anos se não forem enfrentados.

Os mais relevantes deles foram tratados por Salani em entrevista ao AgFeed, em que ele defende, por exemplo, a especialização de pecuaristas para produzir um “Boi Europa”, rastreado e submetido a protocolos sanitários mais rigorosos para atender às demandas da União Europeia.

Do lado positivo, o dirigente atribui o bom momento do setor a uma maior estabilidade de preços do boi gordo, por um lado, e à maior adoção de tecnologia.

A venda de produtos para a criação de bovinos representa 47% da receita da indústria, à frente dos animais de companhia (25%), aves (15%) e suínos (10%). Assim, foi esse segmento que puxou o resultado do ano passado, quando o mercado pet, que vinha apresentando aumentos expressivos, reduziu a velocidade.

Segundo Salani, esse crescimento recente reflete um movimento consistente de modernização na pecuária. Mais da metade da expansão do setor, diz, já é explicada pela introdução de novas tecnologias, indicando maior abertura do produtor à inovação.

Oportunidades perdidas e instabilidade no campo

Apesar do avanço, Salani aponta que o setor poderia estar em um patamar ainda mais elevado, não fosse a instabilidade econômica e regulatória que ronda o produtor rural.

Para o executivo, o Brasil está "perdendo uma bela chance de um novo patamar do preço da arroba" devido a incertezas que afetam o ânimo de investimento no campo.

"Se nós não tivéssemos tantos senões, tantas incertezas com essa estabilidade do homem do campo, eu acho que esse resultado poderia ter sido muito melhor", avalia Salani.

Ele destaca que questionamentos sobre produtividade, leis ambientais e a possibilidade de sobretaxação criam um ambiente de insegurança.

"O produtor pensa: 'Por que vou investir se amanhã não sei se continuo com essa propriedade, se vou ser sobretaxado, se vão me considerar produtivo ou não produtivo'. Se fosse mais claro e dissesse que as correções seriam gradativas, o cenário seria outro."

Custo baixo, impacto alto

Apesar da relevância estratégica, a saúde animal ainda tem peso reduzido dentro da estrutura de custos da pecuária bovina. Segundo cálculos feitos internamente no Sindan, com base em dados do mercado, o investimento médio nessa área representa cerca de 0,5% do valor final de um boi gordo.

Na prática, isso equivale a aproximadamente R$ 30 por cabeça ao ano — ou cerca de R$ 2,50 por mês. “É um custo muito baixo diante do impacto que a sanidade tem na produtividade, no ganho de peso e no acesso a mercados”, destacou Salani.

Esse dado revela uma espécie de contradição. Embora seja essencial para garantir desempenho produtivo, bem-estar animal e conformidade sanitária, hoje vistos como fatores críticos para exportação, a saúde animal ainda é pouco valorizada economicamente dentro da cadeia.

Ao mesmo tempo, diz Salani, esse baixo custo abre espaço para ganhos relevantes. Pequenos avanços em manejo sanitário podem gerar aumentos significativos de produtividade, como maior ganho de peso, melhor rendimento de carcaça e redução de perdas.

No curto prazo, o ciclo pecuário positivo tende a sustentar os investimentos. Mas o setor ainda convive, de acordo com Salani, com incertezas regulatórias, ambientais e econômicas, que limitam decisões de longo prazo no campo.

A bovinocultura, em especial, segue altamente dependente da confiança do produtor. Em momentos de arroba valorizada, os investimentos avançam; em cenários adversos, há retração imediata.

O desafio dos antimicrobianos e o "Boi Europa"

Um dos temas mais sensíveis da pauta do setor momento, o uso de antimicrobianos, foi abordado por Salani como uma questão de sobrevivência comercial e posicionamento de mercado.

O dirigente defende que a pecuária brasileira precisa deixar de ser tratada como uma "sapataria" — onde se vende apenas volume a baixo custo — para se tornar uma vitrine de produtos de alto valor agregado.

Sobre as restrições europeias ao uso de antimicrobianos como melhoradores de desempenho, Salani é enfático: "O dia que a pecuária deixar de ser uma sapataria não sofreremos reveses como esse europeu”.

“Se o francês quer um animal que não teve nenhum contato com antimicrobiano durante toda a sua vida, paga a quem? Vai ver aparecer o 'Boi Europa', igual apareceu o 'Boi China'", diz, referindo-se ao padrão de idade e peso exigido pelo mercado chinês que ajudou a moldar o manejo da pecuária de corte no Brasil nos últimos anos.

Assim, Salani define o conceito do “Boi Europa”: um animal produzido sob critérios rigorosos, com rastreabilidade total, controle alimentar e restrições específicas ao uso de antimicrobianos. Dentro da mesma lógica do “Boi China”, o pecuarista que seguisse esse padrão receberia de prêmios na comercialização do seu gado.

Salani ressalta que o Sindan está trabalhando a em conjunto com entidades como CNA, Abiec e ABPA para garantir protocolos de segregação e rastreabilidade que atendam às exigências específicas dos europeus, sem prejudicar o arsenal terapêutico necessário para o bem-estar animal.

O dirigente lembra que os antimicrobianos são amplamente utilizados no Brasil e em outros mercados relevantes. A Europa, no entanto, restringe seu uso como promotor de crescimento, o que exige adaptação da produção brasileira.

“Não é uma questão de banir, mas de segregar os animais destinados a esse mercado e garantir que eles sigam o protocolo”, explica Salani.

Isso implica criar cadeias específicas, com controle desde o nascimento até o abate, incluindo registro detalhado de manejo e tratamentos. O desafio, diz ele, é operacional: exige rastreabilidade eficiente, integração entre os elos da cadeia e maior nível de gestão dentro das propriedades.

Há, contudo, uma linha delicada a ser administrada. Restrições amplas ou mal calibradas podem comprometer o bem-estar animal e a produtividade. “O animal doente precisa ser tratado. Caso contrário, você cria um problema maior”, afirma.

Para ele, mais do que o uso em si, o risco está justamente na presença de resíduos na carne exportada, o que pode gerar barreiras comerciais. Isso exige rigor no cumprimento dos períodos de carência e maior conscientização ao longo da cadeia.

"Se o animal está com pneumonia, ele tem que tomar um antimicrobiano, senão ele vai morrer. Uma coisa é o uso terapêutico, outra é a detecção de resíduo no contêiner, que depende da conscientização e do respeito ao período de carência."

Assim, na prática, na visão de Salani, o avanço do “Boi Europa” deve acelerar a segmentação da pecuária brasileira, em que diferentes mercados demandarão diferentes padrões produtivos, com níveis distintos de exigência e remuneração.

Para que essa transição ocorra, o incentivo econômico será determinante. “O mercado precisa pagar por isso”, ressalta Salani. Sem prêmio, a adesão tende a ser limitada, dado o custo e a complexidade adicionais.

Resumo

  • Indústria de saúde animal faturou R$ 12,8 bilhões em 2025 e pode crescer dois dígitos em 2026
  • Setor aponta insegurança regulatória e econômica como freio para novos investimentos no campo
  • Dirigente do Sindan defende o “Boi Europa”, com rastreabilidade e protocolos sanitários para acessar mercados premium