A chuva atrasou o plantio de soja no início da safra ainda no passado. Agora, a SLC Agrícola vê a receita de janeiro a março "escorregar" para o próximo trimestre.
O balanço da empresa referente ao primeiro trimestre de 2026, divulgado há pouco ao mercado, ilustra um trimestre que poderia ser melhor. Nas contas de Ivo Brum, CFO da companhia, esse "melhor" pode estar por volta de R$ 150 milhões extras em receitas.
Isso porque a companhia encerrou o período de janeiro a março deste ano - onde se concentra a comercialização da soja - com uma receita líquida de vendas da oleaginosa de R$ 1,11 bilhão. Ano passado, essas vendas somaram R$ 1,25 bilhão, mostrando uma queda de 11,7%, ou cerca de R$ 147 milhões.
"As áreas adicionais da da safra, devido à compra da Sierentz, acrescentaram 50 mil hectares no Maranhão e Pará, ou seja, não são áreas de grande volume de vendas no primeiro trimestre. O grande peso vem do Mato Grosso e acho que teríamos capacidade de repetir o faturamento do ano anterior", disse Brum em conversa com jornalistas após a divulgação dos resultados.
A receita líquida total da SLC no período foi de R$ 2,26 bilhões, queda de pouco mais de 2% em relação aos R$ 2,33 bilhões do primeiro trimestre do ano passado.
"A redução da receita se dá pois houve também redução de volume. A companhia atrasou o plantio da soja por um calendário com chuvas oscilando muito, e isso acabou atrasando a colheita, que também foi numa época com excesso de chuva no Mato Grosso. Consequentemente atrasamos os embarques para as tradings", prosseguiu a explicação.
"Mas esse é um embarque contratado que aparecerá nos próximos trimestres. Até pq produzimos duas sacas a mais de soja e isso se reverte em faturamento mais para frente", disse, se referindo à produtividade média da SLC para a soja na temporada 2025/26, que ficou em 69 sacas por hectare, duas a mais que o orçado inicialmente.
Em volumes, a SLC vendeu 646,4 mil toneladas de soja, número 2,7% menor em um ano. Ao todo, foram cultivados 427 mil hectares de soja na safra, já incorporando as áreas adquiridas da Sierentz.
O impacto do atraso da safra apareceu diretamente nas margens. O resultado bruto caiu 12% no trimestre, enquanto a margem bruta ficou em 41% (queda de mais de 4 pontos percentuais). O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) ajustado recuou 26,3% frente ao ano passado, chegando a R$ 695,2 milhões.
Na linha final, o lucro líquido foi de R$ 236 milhões, uma baixa de 53% frente aos R$ 510 milhões do primeiro trimestre do ano passado.
Para além da soja, a receita do algodão - tanto em pluma quanto em caroço - recuou. Na pluma, a receita caiu 20% para R$ 760 milhões, e no caroço, baixa de 35% para R$ 60 milhões. Respectivamente, o volume baixou 4,6% na pluma, para 92,4 mil toneladas, e 35% no caroço, para 61 mil toneladas.
Em relação ao hedge da safra 2025/26, a SLC já comercializou parte relevante da produção de soja - 75% com um preço travado num dólar a R$ 5,68 - aproveitando a alta recente das commodities após o agravamento das tensões geopolíticas globais. Segundo Brum, a guerra ajudou a elevar os preços internacionais da oleaginosa em cerca de US$ 2 por bushel.
No algodão, a companhia já fixou 74% da exposição cambial a um dólar médio de R$ 6,03. Em volume, já fechou o comércio de 84,6% da commodity. “O preço também aumentou pela guerra. O poliéster disparou e isso ajudou a conseguir preços melhores do que no trimestre anterior”, disse o CFO.
Já no milho, 66% da exposição cambial está travada a R$ 5,71, enquanto 31% da commodity foi comercializada em dólar.
O trimestre também foi marcado por forte consumo de caixa, movimento considerado sazonal pela administração. O fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 1,3 bilhão, embora tenha melhorado em relação ao mesmo período do ano passado.
Segundo Brum, o período concentra os pagamentos de fertilizantes, defensivos e desembolsos relacionados às aquisições de terras realizadas recentemente, incluindo os ativos da Paladino e Unaí.
A dívida líquida da companhia aumentou no trimestre para R$ 6,6 bilhões, um avanço de R$ 1,3 bilhão em um ano, elevando a alavancagem para 2,72 vezes dívida líquida sobre Ebitda, ante cerca de 2,25 vezes no encerramento do ano passado.
“Ao longo do ano isso naturalmente volta para um status mais normal, mais próximo de 2 vezes do que de 2,7 vezes”, afirmou o CFO.
De olho já na safra que vem
A companhia também começou a avançar nas travas para a safra 2026/2027, diante da expectativa de aumento dos custos agrícolas. Segundo Brum, fertilizantes fosfatados e e o potássio já apresentam alta relevante de preços.
“A combinação de potássio e fosfato representa aumento de 4% nos insumos, e os nitrogenados ainda não compramos”, afirmou. A SLC informou que já adquiriu 100% dos fosfatados e 85% do potássio.
No caso do segundo, ele cita que a empresa vai avaliar os solos das fazendas para verificar resíduos de potássio, a fim de evitar novas compras desnecessárias. Com isso, o patamar atual pode, no fim das contas, ser o final.
Apesar da pressão inflacionária nos fertilizantes, a empresa afirma que parte desse impacto foi mitigado por compras antecipadas nos defensivos, que reduziram em cerca de 6% o custo médio de aquisição.
O hedge ainda é incipiente, mas já começa a entrar no balanço.
Na soja da próxima safra, a companhia já travou parte do câmbio a R$ 5,47 e comercializou 18,4% da produção a US$ 11,82 por bushel, preço acima do registrado na safra atual.
No algodão da safra 2026/27, a companhia também acelerou as vendas aproveitando o movimento de alta do poliéster na China. “Precisamos capturar esse ganho no preço porque os insumos aumentam”, afirmou Brum. O milho safrinha 26/27 ainda não teve nenhuma trava.
Além do cenário de custos, a companhia acompanha de perto os possíveis impactos climáticos do El Niño para a próxima temporada agrícola.
Segundo Brum, os modelos climáticos indicam aquecimento do Oceano Pacífico e maior probabilidade de formação do fenômeno de intensidade alta ao longo do segundo semestre.
Segundo ele, as áreas de maior impacto seriam na Bahia, mas por lá a empresa tem crescido na área irrigada. A SLC também avalia ajustes no mix agrícola caso o calendário da próxima safra volte a sofrer atrasos.
Brum admitiu que, se o plantio da soja se postergar e a janela do milho safrinha ficar inviável, parte da área poderá ser direcionada para sorgo.
Resumo
- Atraso no plantio e na colheita da soja reduziu receita da SLC Agrícola no primeiro trimestre trimestre
- Lucro líquido caiu 53%, para R$ 236 milhões, enquanto o Ebitda ajustado recuou 26,3% no período
- SLC já travou 75% da soja 2025/26 e acelera hedge da próxima safra diante da alta dos fertilizantes