De olho na demanda reprimida do mercado do Cerrado brasileiro por fertilizantes especiais, duas empresas do Sul do Brasil estão se unindo em uma joint venture para levar os produtos aos agricultores de soja, milho e algodão do maior pólo agrícola do Brasil.

Trata-se da Alvotech, uma empresa formada a partir da união de Fertalvo, que presta serviços de mistura de fertilizantes para grandes companhias do setor, e a Novatech, focada em fertilizantes especiais, que vem sendo formada desde agosto do ano passado.

A parceria nasceu da complementaridade entre as empresas. A Fertalvo já produz fertilizantes convencionais em Mato Grosso, mas queria entrar também no mercado de fertilizantes especiais. Já a Novatech, especializada nesse segmento, buscava crescer em Mato Grosso após firmar presença no Sul do Brasil.

“Foi a união de dois interesses. Nós queríamos entrar nesse mercado de especialidades sem concorrer com nossos clientes do fertilizante convencional radicular, enquanto a Novatech precisava ampliar sua presença no Centro-Oeste. Veio, então, a ideia desse negócio complementar”, afirma Aluísio Mambrini, sócio-diretor da Fertalvo e da Alvotech.

Criada por Mambrini, ex-executivo da Bunge, e Carlos Alberto Sacon, ex-Yara, em 2023, a Fertalvo atua na industrialização de fertilizantes radiculares e presta serviços para grandes empresas do agronegócio como Yara, Cibra, Amaggi, LDC e 3tentos – essa última apenas em Mato Grosso.

A companhia possui duas unidades em operação no Mato Grosso, em Rondonópolis e Alto Araguaia, e possui um projeto em desenvolvimento no Pará para uma planta de fertilizantes greenfield, que deve começar a operar no ano que vem.

Já a Novatech, fundada em 2008 por Carlos Alberto Scapini e Fábio Montagner, construiu sua trajetória focada em fertilizantes especiais, adjuvantes e tecnologias voltadas ao aumento de produtividade dos produtores rurais.

"Nosso DNA sempre foi muito forte em inovação, com produtos diferentes e que entregam valor na cadeia toda", diz Scapini, profissional com mais de 25 anos de experiência no mercado de fertilizantes e passagens por Bunge e outras várias empresas do segmento.

"O produtor antigamente não enxergava valor no fertilizante especial, chamava de 'água de batata', de 'perfumaria'. É por isso que precisamos fazer um produto diferente, com um posicionamento diferente e fomos crescendo no nosso tempo, ao nosso tamanho."

Com uma fábrica em Ijuí (RS), capaz de produzir 5 milhões de litros de produto, a empresa hoje atende principalmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com presença também no Mato Grosso do Sul e exportações para Paraguai e Uruguai.

Scapini destaca que a expansão para o Mato Grosso sempre esbarrou em desafios logísticos e operacionais.

“Estávamos com um pezinho em Mato Grosso, mas o custo de transporte e os acessos dificultavam muito a expansão. O tamanho dos módulos, das propriedades, das estruturas produtoras e dos distribuidores são fatores que dificultam”, relata Scapini.

“A Fertalvo já estava num ponto pulsante de Mato Grosso, que é Rondonópolis, e com uma estrutura no Vale do Araguaia também. Foi aí que a gente começou a amadurecer a ideia.”

“Veio a minha ideia de entrar no negócio de fertilizantes especiais e a ideia deles, da Novatech, de crescer na geografia”, complementa Aluísio Mambrini. “E daí nós falamos: ‘Por que não?’”, emenda Carlos Scapini. Negócio fechado.

Fábrica em Rondonópolis

Com sede em Rondonópolis (MT), onde a Fertalvo já possui uma unidade industrial em operação, a Alvotech está implantando uma fábrica de fertilizantes especiais que deve entrar em funcionamento no segundo semestre deste ano, em setembro.

A planta deverá iniciar as atividades com capacidade produtiva entre 3 milhões e 5 milhões de litros por ano. O investimento estimado no projeto varia entre R$ 12 milhões e R$ 14 milhões.

Segundo os sócios da Alvotech, a fábrica já foi concebida com possibilidade de ampliação futura, permitindo expansão rápida da capacidade instalada conforme o avanço da demanda.

“Para aumentar a capacidade de 3 milhões para 6 milhões de litros, por exemplo, é só eu dobrar o número de reatores”, explica Carlos Scapini.

Não está descartada a possibilidade também de, mais adiante, uma segunda fábrica no Vale do Araguaia. “Vai depender da necessidade”, avalia Scapini.

A expectativa da Alvotech é de encerrar o ano de 2026 com um faturamento de cerca de R$ 30 milhões.

A empresa faz essa estimativa avaliando que o mercado potencial dos fertilizantes especiais é de aproximadamente R$ 3,4 bilhões e que a Alvotech já poderia abocanhar 1% desse valor total de mercado.

De acordo com os executivos da Alvotech, a escolha por Mato Grosso para sediar a empresa e a primeira fábrica está diretamente ligada à pequena quantidade de indústrias locais voltadas ao segmento de fertilizantes especiais, apesar do tamanho do mercado consumidor mato-grossense.

“As indústrias que hoje atendem Mato Grosso estão concentradas em Minas Gerais e São Paulo. Em alguns casos, a distância é praticamente equivalente à de Ijuí, no Rio Grande do Sul”, compara Scapini.

De acordo com o sócio da Alvotech, a logística tem peso decisivo no segmento, especialmente em produtos de menor valor agregado e maior sensibilidade ao custo de transporte.

A partir da planta no Centro-Oeste, a Alvotech conseguirá atender produtores de soja, milho e algodão de Mato Grosso e também outros estados como Goiás, Tocantins, Pará, Rondônia e Bahia.

E, mesmo antes da conclusão da fábrica em Rondonópolis, a Alvotech já iniciou suas operações comerciais. Nesta fase inicial, os produtos estão sendo fabricados na unidade da Novatech no Rio Grande do Sul e enviados para um centro de distribuição que também fica em Rondonópolis, de onde seguem para atendimento aos clientes da região.

O modelo de atuação da empresa é voltado ao B2C, com vendas diretas ao produtor rural e também por meio de distribuidores e revendas agrícolas.

A Alvotech já garantiu um importante parceiro comercial para a distribuição de seus produtos: a Agrícola Alvorada, uma das principais redes de revenda de insumos e comercialização de grãos de Mato Grosso, com forte presença no Vale do Araguaia.

Além dos fertilizantes especiais, a Alvotech também pretende avançar no segmento de tratamento industrial de sementes (TSI), especialmente no mercado de soja.

A estratégia da nova companhia é aproveitar a expertise já consolidada da Novatech nessa área para chegar às grandes sementeiras do Centro-Oeste. A empresa gaúcha atua há anos junto a unidades de beneficiamento de sementes, desenvolvendo soluções voltadas ao tratamento industrial dos grãos.

"Vimos um potencial muito grande em Mato Grosso pelo tamanho do mercado produtor de sementes, principalmente na Serra da Petrovina, que está a cerca de 150 quilômetros de Rondonópolis", diz Aluísio Mambrini.

Além da nova fábrica em Rondonópolis, a Alvotech também acaba de inaugurar uma estrutura comercial em Rio Verde (GO), município que lidera a produção de milho no Brasil.

A unidade servirá como base para ampliar o atendimento aos produtores goianos e acelerar a expansão da empresa no Cerrado.

A criação da joint venture ocorre em um momento de forte crescimento do mercado de fertilizantes especiais, enquanto o segmento de adubos tradicionais enfrenta um cenário de acomodação – e possível retração em 2026 –, influenciado pelas incertezas geopolíticas e pelos impactos da guerra no Oriente Médio sobre custos e demanda.

Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) mostram que o mercado brasileiro de fertilizantes especiais cresceu 18,9% em 2024, alcançando faturamento de R$ 26,9 bilhões.

Resumo

  • Fertalvo e Novatech se unem na joint venture Alvotech
  • Empresa produz e comercializa fertilizantes especiais
  • Nova companhia está implantando fábrica em Mato Grosso