O mercado das agtechs entrou em 2026 com uma perspectiva de retomar dias de bonança nas captações, mas se deparou com os já conhecidos juros altos e crédito seletivo e uma nova guerra no radar, que tem mexido ainda mais com o bolso do produtor.
Na missão de entender como manter a competitividade nesse cenário global mais instável que a Rural realiza, no próximo dia 21 de maio, a quarta edição do Rural Summit, evento que deve reunir entre 800 e mil pessoas numa mistura inovação, geopolítica, inteligência artificial, crédito rural e conexão entre startups e investidores.
Depois de duas edições em Ribeirão Preto durante a semana da Agrishow, o evento migra neste ano para Piracicaba, em parceria com o Pecege, numa tentativa de recolocar o chamado AgTech Valley no centro das discussões sobre inovação no setor agro.
A mudança acontece num momento em que o ecossistema local passa por reorganização, com o Pecege assumindo a gestão do Parque Tecnológico de Piracicaba e também a articulação do Corredor Agro, estrutura que conecta instituições como USP/Esalq, Unicamp, Embrapa, Fatec e Instituto Federal.
“Existe um sentimento das startups de que faltava um evento do ecossistema para o ecossistema, e não apenas um evento de uma empresa para o mercado”, afirmou ao AgFeed Fernando Rodrigues, CEO e cofundador da Rural.
Segundo ele, a edição deste ano tenta refletir uma mudança no próprio momento vivido pelo agro. “Estamos em momento de guerra. Não adianta falar de ESG ou falar de tecnologia sem tocar nesse ponto fundamental", acrescentou.
Por isso, o painel de abertura abandona parte do discurso tradicional sobre ESG (ambiental, social e governança) para discutir Economia, Segurança e Geopolítica - o que Rodrigues chama de “o novo ESG”.
A proposta é debater como guerra, tensões comerciais, fertilizantes, crédito e segurança alimentar passaram a influenciar diretamente decisões dentro do agro brasileiro.
O painel contará com Cristiano Correia, vice-presidente global da John Deere, Felipe Pecci, vice-presidente comercial da Mosaic e Priscila Trigo, economista especializada em agronegócio do Bradesco.
Segundo Rodrigues, enquanto a Mosaic entra na conversa falando da dependência brasileira de fertilizantes externos, a John Deere complementa com a visão de uma empresa com penetração global na agricultura.
"A ideia é que os dois falem como enxergam o futuro dado o cenário de insegurança geopolítica. Para arrematar a parte econômica entra a Priscila Trigo para ponderar como economista", disse o CEO da Rural.
“O ESG que olhávamos alguns anos atrás era muito focado em futuro. Agora existe uma urgência ligada à segurança alimentar, geopolítica e competitividade”, afirmou Rodrigues.
No decorrer do dia, temas como IA, transição energética, conectividade, crédito inteligente e validação de tecnologias toma conta da programação.
Rodrigues destaca que, no debate sobre bioenergia, os painelistas falarão sobre os impactos do etanol de milho sobre a reorganização da cadeia produtiva brasileira.
A avaliação da Rural é que o crescimento acelerado do setor nos últimos anos começa a alterar fluxos de proteína animal, logística e até dinâmica regional do agro.
“Em nove anos, o etanol de milho construiu quase 30% do tamanho do Pró-Álcool, que tem 50 anos. Isso muda a cadeia inteira”, afirmou Rodrigues.
A programação também mantém espaço para o tema que deu origem ao evento: tecnologia. Um dos painéis mais aguardados discutirá inteligência artificial no agro e contará com representantes da Nvidia, do Mercado Livre e da John Deere.
A ideia é comparar como setores fora do agro já utilizam IA em logística, distribuição e tomada de decisão, e entender em que estágio o agronegócio brasileiro está nessa corrida.
“O Mercado Livre opera logística em tempo real, frota, entrega no mesmo dia. Existe muita correlação com os desafios do agro. Vamos ver como outros setores usam a IA e como nós estamos usando”, afirmou Rodrigues.
Outro tema recorrente será conectividade rural, com participação de empresas como TIM e usinas ligadas à expansão da infraestrutura digital no campo. O evento também deve abordar crédito rural baseado em dados, discutindo como ferramentas digitais e inteligência artificial podem mudar modelos tradicionais de análise de risco no setor.
“Ainda existe muito crédito concedido olhando produtor como massa e não como indivíduo”, disse Rodrigues.
Segundo ele, o avanço de dados e monitoramento tende a tornar as análises mais individualizadas ao longo dos próximos anos.
Além dos painéis, o Rural Summit terá uma área de exposição com 26 startups e empresas do setor, incluindo nomes como Bayer, Atvos, Koppert, John Deere, BRF, TIM e E-agro, do Bradesco.
Mais uma edição do Agrimatching
Mas um dos principais focos segue sendo o Agrimatching, uma espécie de competição entre startups do agro.
A ideia do Agrimatching é levar fundadores e executivos de agtechs para apresentarem suas soluções presencialmente a um grupo seleto de cerca de 30 convidados, entre investidores, corporações e potenciais parceiros comerciais, que também atuarão como jurados da premiação.
A expectativa é alta: além da visibilidade, a premiação abre portas para conexões estratégicas, oportunidades comerciais e investimentos reais no setor.
Na primeira edição do evento, ocorrida em 2024, o Agrimatching era apenas um momento de conversas entre startups do agro e investidores interessados em conhecer mais de cada negócio e dos executivos.
Já em 2025, foram 45 startups participantes que foram divididas em três estágios de maturação diferentes (pré-seed, seed e Série A) e apresentaram o negócio para investidores e especialistas no setor.
Neste ano, 90 startups se inscreveram no programa e novamente 45 foram selecionadas para a fase final, divididas entre as mesmas categorias.
As apresentações ocorrerão no dia 20 de maio, um dia antes da abertura principal do evento, diante de um grupo de cerca de 35 investidores, executivos e representantes de corporações do setor.
Na categoria Pre-Seed, as startups são: Agrare, AgroSkills, Carbonova, Gestor Rural, Gôndola Segura, LandPrint, NanoBoost, Neosilos, Nutralis, Plano Agro, Small Nanotechnology, Synkka, Terrarossa, Venture Carbon e XplorAll.
Na Categoria Seed, participam a Agrovisia, Herdian, Biome4All Agro, Beam CropTech, Cadoma Aquicultura Inteligente, Hural, Loog, Move Agro, ManejeBem, SciCrop, TerraNova, Thymox Brazil, UBI Meat, inLida e Já Entendi Agro.
Por fim, as startups que competirão na categoria Série A são a BemAgro, BioPulse, Cropman, Earthoptics Brasil, Elytron, GeoApis, iBoi, InPlanet, Perfect Flight, Revella Tech, SOU AgroSoluções, Solusolo, TruckMe, goFlux e Umgraeuemeio.
Os vencedores receberão benefícios como US$ 150 mil em créditos da Microsoft, participação em eventos do setor e acesso a redes de relacionamento e potenciais parceiros comerciais.
"O que a gente pode prover para eles que pode gerar negócio é esse acesso. Vamos abrir a porta pra ter acesso a locais que não teriam usualmente", disse Rodrigues, da Rural.
Na edição de 2025, os vencedores foram Natu Seguros, de seguro paramétrico, na categoria pré-seed; Certificafé, que atua como uma espécie de consultoria para sustentabilidade no setor cafeeiro, na categoria seed; e BemAgro, de agricultura digital, na categoria Serie A.
A competição surge em um momento em que as captações de recursos por parte de agtechs voltam a esfriar. Depois de um início de ano movimentado, o segundo trimestre começou sem grandes novidades e rodadas de investimento.
Rodrigues avalia que os aportes divulgados no começo do ano foram resultado de um acúmulo de avaliações que foram postergadas nos últimos anos. "Os investidores seguraram o recurso e avaliarem melhor as startups. Fazer essa avaliação em um momento de dificuldade mostra resiliência para sobreviver, pivotar, ou se mostrar diferente para o mercado", disse.
A própria Rural tem avaliado investir em algumas startups por enquanto, e o foco da análise está em funcionalidade do produto. "Existe um hype que não estamos participando. Empresas de IA estão captando muito dinheiro em detrimento de outras rentáveis, com Ebitda", disse, se referindo à rodada de mais de US$ 100 bilhões feita no início do ano pela OpenIA, dona do ChatGPT.
No agro, ele cita que vê que algumas empresas estão "implementando tecnologias novas (como IA) em processos antigos". "Ela nasceu para cortar etapas", diz.
Resumo
- Rural Summit 2026 espera reunir entre 800 e mil pessoas em Piracicaba, no Pecege, dia 21 de maio, após duas edições realizadas em Ribeirão Preto
- Programação reúne empresas como John Deere, Mosaic, Nvidia, Mercado Livre, Bayer, TIM e Bradesco para discutir inovação, crédito e conectividade
- Agrimatching recebeu 90 inscrições de startups e selecionou 45 finalistas divididas entre categorias pre-seed, seed e Série A