Ribeirão Preto (SP) – Uma caminhonete toda envelopada com uma fita em tom preto-fosco chamava a atenção de quem entrava no amplo estande da montadora chinesa BYD na Agrishow, a maior feira de máquinas agrícolas da América Latina, realizada em Ribeirão Preto (SP) na semana passada.
Fãs da marca e aficionados já estão em polvorosa nas redes sociais especulando detalhes do modelo e buscando informações sobre a picape, que seria do modelo Mako – o nome do tubarão mais rápido do mundo.
A ideia da BYD é competir, com essa nova picape, que tem porte intermediário, com concorrentes como a Toro, caminhonete da montadora italiana Fiat, e Maverick, da americana Ford. O lançamento, segundo a imprensa automotiva, deve acontecer no segundo semestre.
O lançamento representa também um passo a mais da companhia chinesa em acelerar – rapidamente – sua presença no agro, mirando vender para o público do interior do Brasil, um movimento relevante para cumprir o compromisso público de ser a maior montadora do País até 2030.
Presente no país desde 2022, quando seus primeiros carros chegaram inicialmente no meio urbano, a BYD “calçou as botinas” em sua primeira inserção no agro em outubro de 2024, quando trouxe a picape BYD Shark para o Brasil.
“Trata-se de uma picape que atende bem o produtor rural e atende bem também o público que quer fazer o trajeto fazenda-cidade no interior do Brasil”, explica explica Victor François, supervisor da comunicação da marca, em entrevista ao AgFeed (a montadora chinesa costuma destacar executivos de comunicação – e não gerentes ou diretores – para conversar com a imprensa).
O objetivo da montadora, com esse lançamento, era – e ainda é – concorrer diretamente com modelos bastante conhecidos dos produtores rurais como a Hilux, da japonesa Toyota, e a Ranger, da americana Ford.
Por ora, a julgar pelos dados de emplacamento da Fenabrave, as vendas ainda patinam: ao todo, em 2025, foram emplacadas apenas 1.130 unidades do modelo Shark, volume ínfimo se comparado aos 49,7 mil unidades de Hilux emplacadas no decorrer do ano e 34 mil de Ford Ranger.
Não à toa, de acordo com várias publicações da imprensa automotiva, a BYD contratou os serviços do cantor sertanejo Gusttavo Lima para atuar como garoto-propaganda da picape desde o início de 2025 justamente para tentar alavancar as vendas. Agora, a nova picape Mako se soma nessa estratégia de dar impulso maior à comercialização.
Na mesma toada de eletrificação já conhecida quando se fala nos veículos da montadora chinesa, a picape da BYD é do sistema híbrido plug-in, que combina motor a combustão e um motor elétrico. Dessa forma, se o motorista desejar, é possível conectar o automóvel a uma tomada.
Assim, é possível rodar com o motor elétrico em pequenas distâncias e, quando o carregamento da bateria desse motor chega ao fim, o carro passa a ser movido pelo motor a combustão.
A picape Shark, lançada inicialmente no México em 2024 e trazida na sequência para o Brasil, foi projetada pensando no contexto da América Latina.
"Foi desenvolvida com foco no México e no Brasil, onde estão os grandes produtores rurais e fazendas maiores do que até alguns países", explica Victor François. "A Shark é o nosso showcase do que a BYD tem de máximo de potência, tecnologia, conforto e robustez."
A estratégia comercial da companhia, daqui em diante, é trazer novos modelos e, com isso, chegar a diferentes públicos, explica François. "A ideia é atacar em vários segmentos: o lojista, o cerealista que tem um distribuidor de grãos, o grande fazendeiro, o transportador de frutas", diz.
Hoje já é possível ver veículos da BYD rodando em pequenas cidades do interior do Brasil e também em municípios polo do agronegócio brasileiro, caso de Sorriso (MT), Sinop (MT), Rio Verde (GO) e Luis Eduardo Magalhães (BA), onde a montadora possui concessionárias.
A rede da BYD ganhou rapidamente capilaridade nacional: de 100 concessionárias em maio de 2024 a montadora passou para 200 pontos de vendas pouco mais de um ano depois, em outubro. A expectativa é encerrar 2026 com 300 pontos.
Produção tropical e híbridos flex no radar
Na linha de montagem, além da picape Mako — apresentada de forma “camuflada” durante a Agrishow — outras caminhonetes devem chegar ao mercado nos próximos anos, embora ainda sem cronograma definido, segundo Victor François.
Inicialmente, a BYD deve importar da China a nova picape que pretende lançar em breve no mercado brasileiro. A companhia, porém, não descarta nacionalizar a produção do modelo em sua fábrica de Camaçari (BA).
A chegada da BYD em Camaçari, município da região metropolitana de Salvador, foi marcante pelo fato de a companhia ocupar o mesmo espaço que antes hospedava uma fábrica da Ford, que deixou de produzir veículos no Brasil em 2021.
A BYD investiu R$ 5,5 bilhões para erguer, entre 2024 e 2025, um novo complexo industrial, que foi inaugurado oficialmente em outubro do ano passado com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A planta, que é a maior da montadora fora da China, nasceu com uma capacidade de produção de 150 mil veículos em um primeiro momento, podendo chegar a 300 mil automóveis em uma segunda fase. Ao todo, a unidade emprega cerca de 3,5 mil pessoas.
Por ora, estão sendo produzidos em Camaçari veículos urbanos como o carro elétrico Dolphin Mini e os híbridos plug-in King e Song Pro. A BYD não descarta, no futuro, produzir suas picapes também no Brasil, mas por ora a Shark está sendo importada da China – assim como sua futura companheira de catálogo, a Mako.
Além da produção nacional, um passo a mais dado pela montadora chinesa para "tropicalizar" seus produtos foi dado desde o ano passado, quando anunciou que estava desenvolvendo um motor híbrido plug-in flex, que pode utilizar tanto etanol quanto gasolina.
De acordo com informações do portal japonês Nikkei Asia, a ideia de criar um motor plug-in flex teria partido do próprio fundador e CEO da BYD, Wang Chuanfu, em visita ao Brasil há dois anos.
Ao longo de 18 meses, mais de 100 engenheiros passaram a trabalhar na solução, desenvolvida na fábrica de Camaçari.
A montadora está apostando em modelos híbridos justamente para convencer os consumidores de que é possível eletrificar as picapes.
“Os híbridos serão fundamentais para essa transição. Eles ajudam a trazer o consumidor dos carros a combustão para a eletrificação antes da adoção total dos elétricos”, disse Stella Li, vice-presidente executiva global da marca, em entrevista ao site Motor1 durante o Salão de Pequim, o maior autoshow do mundo.
Denza, a “marca premium” que chega ao interior
Um deck de madeira separava os estandes da BYD e de outra marca, de nome e logotipo pouco conhecidos, na Agrishow. Para um visitante menos familiarizado com o mercado automotivo – caso deste repórter – a impressão era de que se tratava de espaços totalmente independentes.
Na prática, porém, o estande vizinho à BYD também era de uma marca da montadora chinesa: a Denza, categoria de luxo da empresa, criada para disputar mercado com fabricantes tradicionais do segmento premium como Land Rover e Porsche.
A Denza participou da Agrishow pela primeira vez neste ano. A marca está no Brasil desde o ano passado, quando a BYD trouxe um veículo SUV híbrido, o Denza B5. As vendas começaram no início de 2026.
“A Denza chega a oferecer para um público de maior poder aquisitivo, soluções elétricas, e híbridas também, de carros que entregam o máximo que a BYD consegue demonstrar e fabricar”, explica Victor François.
Por mais que não seja uma picape como o Shark, o executivo da BYD diz que a SUV da Denza também pode ser utilizada pelos produtores rurais – não à toa estava sendo exibida, com destaque, logo na entrada do estande da marca de luxo.
“A gente está falando de um SUV off-road com toda a capacidade de ir fora de estrada que a Shark tem. Trata-se de um carro realmente muito robusto, muito parrudo para enfrentar esses desafios”, explica François.
É nesse contexto que a Denza resolveu inaugurar, durante a Agrishow, as operações da primeira concessionária da marca no interior do País, em Ribeirão Preto.
Até então, as outras lojas da marca, que opera de forma independente da BYD, estavam situadas apenas nos grandes centros urbanos do País: São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF).
Mesmo com pouco tempo de mercado, a BYD diz que as vendas do novo automóvel tem sido expressivas dentro do segmento premium, um indício de que Ribeirão Preto pode repetir o fenômeno visto em outros centros urbanos.
“Em Brasília, por exemplo, a Denza foi líder de mercado no começo do ano, desbancando marcas que estão há décadas trabalhando carros premium. Em São Paulo e em outras regiões, a gente conseguiu ficar acima de marcas como Land Rover”, diz François.
Do desdém ao sucesso
Nada mal para uma empresa que começou suas operações de forma modesta, nos anos 1990, com apenas 20 funcionários, bem distante dos carros.
A BYD foi criada pelo químico chinês Wang Chuanfu em 1995, iniciou fabricando baterias de lítio para celulares, bem distante dos carros, numa história que lembra a da japonesa Toyota, que começou sua trajetória no fim do século XIX produzindo máquinas automáticas de tear e só foi montar carros a partir dos anos 1930.
Entre o fim dos anos 1990 e o começo dos anos 2000, a BYD se tornou uma das maiores fabricantes de baterias do mundo e, com o crescimento, conseguiu listagem na Bolsa de Hong Kong em 2002.
A chegada à indústria automobilística viria a partir da compra da empresa estatal Xian Qinchuan Automobile, em 2003, que fabricava o automóvel Flyer, primeiro carro da BYD.
A operação automotiva corresponde à subsidiária BYD Auto, mas a companhia chinesa possui outras empresas que produzem empilhadeiras, painéis solares e baterias.
Nos automóveis, a BYD inicialmente seguiu uma tendência do mercado chinês, que ainda focava em oferecer aos consumidores cópias de modelos famosos no Ocidente. A BYD trouxe ao mercado, em um primeiro momento, veículos muito similares a automóveis como o Corolla, da Toyota.
Em 2008, a Berkshire Hathaway, firma de investimentos do megainvestidor Warren Buffett, investiu cerca de US$ 230 milhões em ações da BYD, adquirindo 10% da companhia chinesa, fato que chamou a atenção pela primeira vez do mercado automotivo mundial.
Dali em diante, a montadora chinesa foi ficando mais conhecida e expandiu suas operações, passando a concorrer, em meados da década passada, com a Tesla, montadora americana de carros elétricos chefiada pelo bilionário Elon Musk.
O mesmo Musk havia desdenhado da BYD em uma entrevista à Bloomberg em 2011. Questionado sobre a possibilidade de concorrência da montadora chinesa frente à sua Tesla, ele riu.
Mais de dez anos depois, em 2024, os chineses da BYD devolveram as gargalhadas ao conseguiram superar, pela primeira vez, a receita da Tesla naquele ano: US$ 107 bilhões contra US$ 97,7 bilhões da empresa de Elon Musk.
Resumo
- Chinesa BYD vai lançar nos próximos meses nova caminhonete
- Montadora planeja acelerar presença no agro com nova picape
- Empresa está no Brasil desde 2022, e, no agro, desde 2024