Depois de fechar 2025 navegando em águas mais tranquilas e vendo sua dívida reduzir e a receita aumentar, a Hidrovias do Brasil começou 2026 com uma certa tormenta.

A empresa, pertencente ao Grupo Ultra, diminuiu seu volume transportado, faturou menos e ampliou seu prejuízo no primeiro trimestre do ano frente ao mesmo período no ano anterior.

No balanço do período divulgado há pouco ao mercado, na noite desta segunda-feira, 4 de maio, a Hidrovias registrou prejuízo líquido de R$ 34 milhões. De janeiro a março de 2025, o resultado havia sido negativo em R$ 2 milhões.

O resultado ruim é sazonal na empresa. O primeiro trimestre costuma ser mais fraco por conta da dinâmica de escoamento de grãos, mas, desta vez, fatores adicionais pesaram sobre o desempenho, incluindo a redução de volume nas principais rotas e a mudança no perímetro operacional após a venda da navegação costeira.

A receita líquida da companhia somou R$ 445 milhões entre janeiro e março, uma queda de 20% na comparação anual. A venda da operação de navegação costeira, concluída em novembro de 2025, retirou R$ 66 milhões que apareciam no balanço do primeiro trimestre do ano passado. Excluindo esse efeito, a queda de receita teria sido de 8%, mais alinhada ao desempenho operacional.

No trimestre, a Hidrovias movimentou 3,2 milhões de toneladas, uma retração de 23% frente ao mesmo período de 2025. Desconsiderando a operação descontinuada, a queda é de 6%.

No Brasil, o volume totalizou 2,1 milhões de toneladas, queda de 8%. O principal impacto veio do Corredor Norte (que envolve os portos do Arco Norte), que respondeu por 1,65 milhão de toneladas, uma retração de 12% em um ano.

Dentro desse corredor, o transporte de grãos somou 1,2 milhão de toneladas, queda de 10%, refletindo menor entrada de carga no sistema. Já o fluxo de grãos via transporte rodoviário direto cresceu 3%, para 423 mil toneladas, funcionando como alternativa logística diante das restrições na hidrovia.

O maior impacto, porém, veio dos fertilizantes: o volume despencou 81%, para apenas 23 mil toneladas.

No corredor de Santos, que reflete a operação Sul, o desempenho foi mais positivo, com volume de 474 mil toneladas, alta de 8% na comparação anual. O avanço foi puxado principalmente por fertilizantes, que cresceram 24%, para 373 mil toneladas. Por outro lado, o transporte de sal caiu 28%, para 101 mil toneladas.

No Paraguai, a operação ficou praticamente estável em volume, com 1,07 milhão de toneladas (-1%), mas com mudanças relevantes no mix.

O transporte de minério de ferro por lá cresceu 3%, para 875 mil toneladas, enquanto o de grãos avançou 8%, para 201 mil toneladas. Em contrapartida, a operação deixou de transportar fertilizantes, que haviam somado 46 mil toneladas no primeiro trimestre de 2025.

Mesmo com volumes resilientes, a Hidrovias do Brasil cita, no balanço, que a operação foi pressionada por condições hidrológicas mais adversas, com menor calado dos rios. Isso obrigou a companhia a operar comboios com menos barcaças, elevando o número de viagens e, consequentemente, os custos.

Esse conjunto de fatores se refletiu na rentabilidade. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação)  ajustado recorrente da companhia somou R$ 182 milhões no trimestre, queda de 29% na comparação anual. Excluindo a contribuição da navegação costeira no ano passado, a retração teria sido de 23%.

O Ebitda recorrente no Brasil caiu 22%, para R$ 111 milhões, pressionado principalmente pelos custos mais altos no Corredor Norte. A empresa cita que "adotou medidas para mitigar os gargalos operacionais" na região.

No Paraguai, o Ebitda também recuou 23%, para R$ 71 milhões, impactado pelo aumento de custos logísticos e pela desvalorização do dólar frente ao real, que reduziu a receita quando convertida para a moeda brasileira.

Apesar da pressão operacional, a companhia conseguiu reduzir despesas. As despesas operacionais caíram 30% no período, para R$ 38 milhões, refletindo menor provisão para contingências, com "desdobramentos jurídicos favoráveis", além de um corte de gastos com consultorias e projetos.

Ainda assim, o resultado financeiro seguiu como um dos principais vetores de pressão. A despesa líquida foi de R$ 119 milhões, alta de 49% em um ano, refletindo o maior custo da dívida em um ambiente de juros elevados, além de uma base de comparação beneficiada no ano passado por efeitos cambiais positivos.

Capitalizada com R$ 1,2 bilhão desde 2024, a empresa seguiu avançando na desalavancagem após a venda de ativos. A dívida líquida encerrou março em R$ 2,4 bilhões, queda de 38% em relação a um ano antes. A alavancagem caiu de 5,8 vezes para 2,7 vezes o Ebitda.

Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, porém, houve leve piora, com a alavancagem subindo 0,4 vez, reflexo da redução de caixa no período.

A Hidrovias tem plano de investir até R$ 270 milhões neste ano, sendo R$ 79 milhões destinados para expansão e R$ 191 milhões para manutenção. No primeiro trimestre o desembolso somou R$ 37 milhões.

Resumo

  • Hidrovias transporta 3,2 milhões de toneladas, queda de 23%, com baixa em grãos e fertilizantes no Arco Norte
  • Receita cai 20% com menor volume e saída da navegação costeira da base de comparação
  • Ebitda recua 29% e prejuízo vai a R$ 34 milhões, pressionado por custos e despesas financeiras