Os números cada vez maiores do famoso déficit de armazenagem no Brasil – que estaria acima de 130 milhões de toneladas em 2026 – seriam motivos de sobra para que qualquer investidor apostasse suas fichas nas empresas que fabricam este tipo de equipamento.

A lógica é de que uma hora o produtor vai precisar investir em silos e armazéns para guardar pelo menos uma parte da produção. A realidade, porém, tem se mostrado um pouco diferente.

O setor até viveu um boom de investimentos no período em que os preços das commodities estavam elevados e as margens mais folgadas. Desde 2023, no entanto, com as cotações dos grãos em queda e os custos em alta, além do aperto no crédito e dos juros mais caros, a capacidade de investimento foi ficando mais escassa.

Seria então o fim de uma “tese” baseada no déficit de armazenagem? Não, exatamente. Quem responde bem a essa pergunta é o diretor de operações na América Latina de uma das maiores empresas globais de equipamentos para armazenagem e processamento de grãos.

“O déficit, hoje, não quer dizer que vai ter necessidade da estocagem. O que faz a estocagem ser mais atrativa no Brasil? É a industrialização. O déficit, somente, não justifica”, afirmou Robson Engers, da AGI (Ag Growth International), empresa listada no Canadá que está presente no mercado brasileiro há 10 anos.

O executivo argumenta que a commodity, para o produtor brasileiro, é como se fosse “o dinheiro” que ele tem para negociar com cooperativas e tradings. E nem sempre está barato “investir em ter um cofre para guardar o dinheiro”, na ótica do produtor.

O cenário ideal, os especialistas defendem, é que o produtor tenha a opção de armazenar e escolher o melhor momento de vender o seu produto. Mas para isso é necessário investimento e acesso ao crédito, para a grande maioria.

“Hoje essa visão desse interesse por negociar a commodity, acondicioná-la para um melhor momento, ainda não está tão atrativa. Então eu acho que vai ser a industrialização que vai puxar a frente. Países desenvolvidos têm um nível de industrialização muito alto. Espero que a gente vá por esse caminho”, disse Engers.

Os resultados recentes da AGI mostram um pouco deste cenário. A receita da empresa no Brasil aumentou 20% em 2025, na comparação com o ano anterior.

O avanço ocorreu em função das fortes vendas para projetos industriais, como usinas de etanol e esmagadoras de soja, que cresceram 34%.

Segundo Engers, nos últimos anos o Brasil representou entre 30% e 40% do faturamento global da AGI.

No balanço divulgado pela empresa, o faturamento de 2025 em nível mundial ficou pouco acima de US$ 1 bilhão, ou cerca de R$ 5 bilhões pela cotação atual. O aumento foi de apenas 1% em relação a 2024. “O Brasil foi quem contribuiu mais para a AGI globalmente”.

“A nossa estratégia de posicionamento é bem agressiva e, felizmente, a gente conseguiu se posicionar nos últimos anos em grandes players do mercado, o que contribui para esse crescimento”, acrescentou.

O diferencial em relação aos concorrentes tradicionais do setor de armazenagem, de acordo com o executivo, é o portifólio mais abrangente.

“A gente atende não só o segmento do manuseio do grão, mas também o beneficiamento, a parte de indústrias esmagadoras, etanol, portfólio para ração, inclusive até misturadoras de fertilizantes, linha pet food, é um portfólio um pouco mais amplo”.

A empresa também atua em tecnologias específicas para as diferentes etapas de manuseio e transporte de grãos. A AGI é resultado de diversas aquisições feitas nas últimas décadas, englobando 40 marcas diferentes, incluindo empresas de tecnologia digital para o controle do acondicionamento do grão. Um dos produtos é o chamado SureTrack, para monitoramento do grão além da temperatura e umidade.

“O mercado já tem tecnologias similares, só que a AGI traz também com uma plataforma maior isso. É um diferencial nosso, consolidando tudo numa estrutura só”. pontuou.

Desafios em 2026

O desempenho do primeiro trimestre deste ano foi positivo para a empresa, segundo o diretor, principalmente pela execução de projetos que já estavam planejados pelos clientes.

A partir de agora, porém, a expectativa é de um cenário mais incerto.

“A gente vê o mercado que chamamos de fazenda, a parte de cerealistas e silos para os fazendeiros, com uma retração um pouco maior comparada com anos anteriores. Isso reflete também na AGI Global, ocorre também no mercado norte-americano, então não é uma particularidade só do Brasil, é mundial”, admitiu.

No ano passado já estava fraco o mercado para fazendas, mas ainda foi “dentro do esperado”, segundo ele. Já em 2026, a companhia acredita em número “abaixo do esperado” neste segmento.

“É um ano de eleição, a taxa de juros se manteve alta, o mercado ainda se ajustando com a questão da comodity, a incerteza da guerra e de como vão ficar as exportações, mercados que fecharam, então acho que esse contexto todo gera essa insegurança do investimento do pequeno médio e produtor ou cerealista”, explicou.

O portfólio mais amplo novamente deve ajudar a evitar um recuo no resultado total da empresa. A expectativa é de um faturamento estável no ano como um todo aqui no Brasil.

“A gente espera ser um ano parecido com 2025, nesse período de metade do ano se espera essa diminuição do segmento fazenda, mas a gente tem a esperança que tenha uma retomada para o final do ano. Vamos ter algumas iniciativas comerciais, na Agrishow, com promoções para justamente trazer quem está com a necessidade do investimento em silos, puxar essa demanda para dentro deste ano ainda”, ressaltou.

Expansão no crédito

Uma das estratégias da empresa para seguir sustentando as vendas é dar alternativas de financiamento aos clientes.

As linhas do plano Safra destinadas a armazenagem se esgotam rapidamente, por isso o setor tem buscado soluções via mercado de capitais.

Robson Engers disse ao AgFeed que há parcelamentos subsidiados pela própria AGI, em função de linhas de crédito diferenciadas com o Canadá.

Outra estratégia importante tem sido o uso dos FIDCS – Fundos de Direito Creditório. Segundo Engers, um deles, com foco em financiamento das fazendas, no valor R$ 250 milhões, já teve todos os recursos contratados. O fundo foi feito em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a gestora de capitais Opea.

Há uma outra iniciativa, anunciada em 2025, de R$ 1,2 bilhão, para projetos de maior porte. Nos dois casos, Engers diz que a AGI já está trabalhando para fazer uma possível expansão dos fundos.

Segundo o diretor, a maior parte das vendas ainda é feita com recursos próprios dos clientes ou com linhas do governo subsidiadas. Cerca de 20% estão sendo realizadas com os dois fundos.

Ele diz que há demanda para mais que dobrar os valores existentes, mas que “o time financeiro ainda está trabalhando na estruturação do próximo passo”. “Esperamos que seja este ano”.

Investimentos

A fábrica da AGI no Brasil fica em Cândido Mota, interior de São Paulo. O diretor diz que já houve uma expansão da capacidade e hoje a planta opera em um ou dois turnos.

Por isso, afirma ser possível ampliar em 30% a produção, caso o mercado volte a aquecer, sem a necessidade de novos investimentos.

Os últimos aportes da empresa no mercado brasileiro têm sido para viabilizar a chegada de novas tecnologias de fora para os grandes projetos industriais por aqui.

Um dos exemplos de projeto recente é a esmagadora da Cooperativa Tradição, de Pato Branco (PR), inaugurada em março deste ano, com R$ 770 milhões de investimento. Lá, a AGI trouxe uma tecnologia chamada Hi Roller, que reduz riscos de explosão.

“O grão gera muito particulado, o pó. E esse pó, dependendo da condição dele e do local, é altamente explosivo, então a AGI tem tecnologias certificadas globalmente para desclassificar essas áreas. Esse investimento no Brasil foi muito grande para migrar essas tecnologias e isso envolve desde recursos humanos como também a parte de infraestrutura. A mesma máquina laser que corta uma peça para um equipamento aeroespacial é um equipamento que corta hoje uma peça para um segmento agrícola de manuseio de grãos”, explicou.

Para seguir crescendo no mercado brasileiro, o executivo diz que o plano é avançar nos segmentos que já atua, mas também atuar mais em outras frentes, nas outras indústrias, como fertilizantes e pet food.

Em novembro do ano passado, a AGI adquiriu 60% da AC Grãos, empresa de Lucas do Rio Verde (MT) especializada na operação de silos e unidades de recebimento de grãos. O valor do negócio não foi revelado.

Na conversa com o AgFeed, o diretor da AGI confirmou que as etapas regulatórias (aprovação do Cade) já foram concluídas, mas não quis dar detalhes sobre qual a estratégia da empresa com essa aquisição.

A expectativa do mercado é de que a empresa passe a atuar também na prestação de serviços de armazenagem e não apenas na venda dos equipamentos.

“A gente está ainda estruturando como vai ser a ideia dos serviços, efetivamente ainda não começou a operação”, se limitou a dizer.

Resumo

  • A multinacional canadense AGI registrou aumento de 20% em receita no mercado brasileiro em 2025, na comparação com o ano anterior
  • Resultados do Brasil, impulsionados pelas vendas para projetos industriais, ajudaram a manter uma variação positiva de 1% no faturamento global da companhia
  • AGI está avaliando a possibilidade de ampliar fundos que vêm sendo utilizados nos últimos anos para financiar as vendas a produtores e empresas brasileiras