Buscando financiar suas "atividades como produtora rural no agronegócio", a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, voltou ao mercado financeiro brasileiro.
A companhia está em busca de até R$ 1,5 bilhões em CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), segundo informações da oferta divulgadas ao mercado. A oferta inicial é de R$ 1,25 bilhão, mas com a possibilidade de aumentar em 25% a emissão, caso haja demanda.
A empresa escreve que os recursos captados serão utilizados no "curso ordinário dos seus negócios rurais, em investimentos, custos e despesas relacionados à sua cadeia de produção e exploração de animais em geral".
A BRF cita desde manutenção de granjas, aquisição de matrizes, genética, ovos, criação, engorda e abate, bem como a compra de insumos para alimentação e medicação dos animais como parte do escopo a ser contemplado pelos recursos.
A emissão será dividida em quatro séries, com remunerações distintas ao investidor que adquirir os papéis. Na primeira série, com vencimento em outubro de 2030, a remuneração, ainda a ser definida, corresponderá a um percentual do CDI, limitado a até 101,50% ao ano.
Já na segunda série, com vencimento em abril de 2033, a remuneração será prefixada, também definida em bookbuilding, limitada ao maior valor entre a taxa DI futura acrescida de 0,25% ao ano ou 14,10% ao ano.
Na terceira série, com vencimento em abril de 2036, a remuneração será atrelada a títulos públicos indexados à inflação (NTN-B 2035), acrescida de spread de 0,35% ao ano, ou, no mínimo, 7,95% ao ano.
Por fim, a quarta série, com vencimento mais longo, em abril de 2056 (cerca de 30 anos daqui), também será indexada à NTN-B, mas com um título que vence em 2055, com spread de 1,10% ao ano ou taxa mínima de 8,38% ao ano.
O modelo da emissão é o de "CRAbêntures", no qual a empresa emite a debênture em nome da securitizadora - nesse caso, a Ecoagro -, que, por sua vez, as distribui em forma de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) para agentes de mercado.
Os "CRAbêntures" são uma estratégia já tradicional adotada pelas empresas do setor como forma de manter a operação rodando. A própria BRF emitiu, no ano passado, cerca de R$ 5,6 bilhões em três emissões do tipo.
Para uma empresa que faturou R$ 65 bilhões em 2025 - quase 40% de toda a receita da MBRF - esse tipo de emissão é trivial para manter a operação rodando. Na prática, a empresa se aproveita do seu porte e reputação no mercado para se financiar com recursos de investidores.
Tanto que o rating dessa emissão, atribuído pela Fitch, foi AAA, considerando uma perspectiva estável em um rating nacional de longo prazo.
"Os ratings refletem a expectativa de pagamento pontual e integral do principal investido, acrescido de remuneração, até o vencimento final legal de cada série: outubro de 2030 para a primeira, abril de 2033 para a segunda, abril de 2036 para a terceira e abril de 2056 para a quarta série", diz a agência de risco.
Nos últimos meses, concorrentes seguiram passos parecidos. Há poucos dias a Minerva anunciou que buscaria R$ 165 milhões em CRAs, e mais cedo neste ano, a Frigol emitiu R$ 400 milhões em certificados. No final de 2025, a Seara emitiu mais de R$ 3 bilhões em títulos do tipo.
Somado a isso, na semana passada, a JBS levantou US$ 500 milhões (R$ 2,5 bi pela cotação atual) com a reabertura de bonds (um outro tipo de título de dívida) emitidos no fim de março, segundo informações do jornal Valor Econômico. Os títulos vencem em 2037 e 2057.
MBRF com os olhares no Oriente Médio
Enquanto acessa o mercado de capitais nacional, a MBRF, controladora da BRF, anunciou que ampliou sua parceria com a Salic (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company), empresa de investimentos que pertence ao fundo soberano da Arábia Saudita.
O novo contrato prevê que a empresa de Marcos Molina dobre o volume fornecido de carne de frango anualmente para o país, e também ampliou o escopo para o envio de carne bovina para a região.
Nas aves, o fornecimento passou de 300 mil toneladas para 600 mil toneladas anuais. Na carne bovina, o volume previsto é de 270 mil toneladas por ano. As empresas argumentam que o avanço ajuda a manter "segurança alimentar" na região.
"A criação da MBRF resultou numa plataforma multiproteína que nos permitiu incluir bovinos no acordo com a Salic", afirmou Molina, em nota. O contrato original havia sido firmado com a BRF, mas com a junção da empresa com a Marfrig, a possibilidade de levar outros tipos de produto cresceu no horizonte.
A Salic era acionista da BRF, mas com a fusão, entre um imbróglio de acionistas e uma pressão da Minerva envolvendo conflito de interesse nos órgãos antitruste, o fundo saudita - que também é acionista da Minerva - trocou sua participação acionária por derivativos.
Na prática, o Salic não está mais autorizado a exercer qualquer direito politico, em qualquer grau, na empresa resultante da operação.
A operação foi feita junto ao banco Citi, que hoje é, oficialmente, o dono dos papéis que representam 15% do capital da MBRF. A transação foi justificada por oferecer ganhos tributários ao fundo.
O movimento no Oriente Médio se dá em meio à guerra que acontece na região. No início do conflito, há um mês atrás, a companhia citou que não havia sentido nenhum impacto na sua operação.
Miguel Gularte, CEO da MBRF, frisou na ocasião que, em 2024, a BRF moveu seus estoques de distribuição para lá, na intenção de driblar novos casos - se houvesse da doença de Newcastle, que atingiu o Sul do País naquele ano com um caso em uma granja comercial.
"Caso existisse um novo episódio, ou até mesmo de gripe aviária, que aconteceu em 2025, estariamos com estoque disponível. E agora com o caso da guerra entre EUA e Irã, já estamos com estoque posicionado e sem problemas, manejando a situação com tranquilidade", disse o CEO.
Leonardo Dall'Orto, vice-presidente de mercado internacional na empresa, pontuou que a MBRF encontrou rotas alternativas, como portos e fretes terrestres para driblar possíveis pontos bloqueados com o conflito.
Resumo
- BRF lança emissão de até R$ 1,5 bi em CRAs para financiar cadeia produtiva e atividades rurais
- Recursos vão para granjas, insumos, genética, alimentação e custos operacionais da produção
- Emissão reforça estratégia recorrente e acompanha movimento recente de concorrentes no mercado