Enquanto grandes grupos do setor sucroenergético encolhem e revisam suas estratégias — como a Raízen, que se desfez de diversos ativos e entrou com pedido de recuperação extrajudicial no mês passado, e a Tereos, que vendeu uma de suas sete usinas no início do ano —, empresas de menor porte seguem na direção oposta.
Essas companhias apostam no ganho de produtividade e, quando possível, na retomada de investimentos, mesmo diante de um cenário de forte queda nos preços do açúcar.
É o caso da Da Mata Açúcar e Álcool, usina com sede em Valparaíso, no noroeste do Estado de São Paulo, que completa 20 anos em 2026.
Criada a partir de uma joint venture entre o Grupo Brasif, do empresário e pecuarista Jonas Barcellos, e a AGP Investimentos, holding de Alexandre Grendene – fundador da Grendene, maior fabricante de sandálias do mundo –, a companhia vive hoje duas frentes estratégicas.
De um lado, no médio e longo prazo, mantém o foco no crescimento operacional, com planos de expandir a produção por meio do aumento da capacidade industrial e de ganhos de produtividade nos canaviais, sem necessidade de abertura de novas áreas. Com isso, projeta atingir recorde de moagem de cana já neste ano.
De outro, no curto prazo, prioriza o equilíbrio financeiro, preservando rentabilidade e geração de caixa em um ambiente de preços pressionados.
“Nossa estratégia ao longo desses 20 anos passa por isso: crescimento sólido e contínuo, combinado com uma política financeira robusta, com atenção especial à alavancagem. É um setor muito sensível a preços, e acreditamos que esse é o caminho mais assertivo”, afirma Luiz Augusto Rezende Nascimento, diretor executivo da usina, em entrevista ao AgFeed.
Com passagens por companhias de grande porte como Votorantim e Cerradinho Bio, Nascimento chegou à Da Mata no início de 2025 e, já nos primeiros meses, teve de lidar com a forte queda nos preços do açúcar.
No ano passado, a cotação da commodity em Nova York recuou 22,1%, encerrando 2025 a US$ 15 por libra-peso – a maior queda desde 2017, segundo a consultoria StoneX.
O movimento se refletiu no balanço da companhia. Apesar de uma moagem recorde de 4,4 milhões de toneladas e produtividade de 71 toneladas por hectare, a receita líquida da usina caiu 18% no ano passado, passando de R$ 1,5 bilhão em 2024 para R$ 1,2 bilhão em 2025.
Acompanhando a queda de faturamento, o lucro líquido da DaMata recuou 33% no ano passado, passando de R$ 287 milhões para R$ 192 milhões. Já o Ebtida da companhia ficou em R$ 646 milhões no ano passado, com 51% de margem.
Para Nascimento, os números refletem a disciplina financeira adotada pelos acionistas. "Tanto o Ebitda como a margem Ebitda refletem a estratégia, a assertividade da estratégia de investir em o que a gente chama de austeridade de custos e da inserção operacional", explica o executivo. "Você perde receita, perde faturamento, mas em compensação, você mantém a geração de caixa operacional."
Para este ano, a expectativa é de novo recorde operacional, com moagem de 5 milhões de toneladas. O avanço deve vir principalmente do aumento da produtividade agrícola, sem expansão de área.
Ao todo, a empresa opera 76 mil hectares. Desses, a maior parte (83%) corresponde a áreas próprias e o resto a parceiros. A renovação dos canaviais é de cerca de 13 mil hectares a cada safra. "Grande parte do nosso salto é pela melhora da produtividade agrícola", resume Nascimento.
Com maior volume previsto, a usina tenta compensar o efeito dos preços mais baixos. Cerca de 50% das vendas já foram travadas. Apesar disso, a tendência é de que a receita de novo possa recuar outra vez ao longo de 2026, adianta Nascimento. "O que a gente está tentando compensar é justamente com esse aumento de produção", diz.
Hoje, o mix de produção está mais voltado à produção de etanol que açúcar, em função dos preços mais baixos do adoçante. “A gente está focando mais etanol dentro da arbitragem que a gente tem condição, até em função dos contratos que a gente já tem firmados com os nossos clientes”, afirma o executivo.
Mas esse não é o padrão habitual da usina. “Se a gente for olhar o mercado ao longo do tempo, em poucos anos você tem o etanol dando maior rentabilidade que o açúcar. Na nossa estratégia, faz mais sentido ter uma operação mais açucareira que de etanol”, diz. “Mas para a gente é importante ter essa flexibilidade, até pensando no faturamento e na gestão de risco.”
Não à toa, a Da Mata fez expansões nos últimos cinco anos para ampliar sua capacidade de produção de açúcar, a partir de um direcionamento dos próprios acionistas da usina.
“Visando dar suporte à estratégia de crescimento contínuo, os acionistas tomaram a decisão de entrar no negócio de açúcar, instalando a fábrica de açúcar, e nos últimos cinco anos, houve uma consolidação”, diz.
No ano passado, após um investimento de R$ 33 milhões, a usina ampliou sua capacidade de produção de 40 mil sacas de açúcar por dia para 50 mil sacas ao dia, adicionando, portanto, 10 mil sacas a mais em capacidade.
No futuro, a ideia da usina é de fazer um novo aporte, de cerca de R$ 15 milhões, para ampliar a produção em mais 15 mil sacas, somando 65 mil sacas. Mas, em função do preços baixos da commodity, a empresa resolveu esperar para fazer o investimento. “A gente colocou em on-hold, esperando a melhora do mercado”, explica Nascimento.
A empresa também avançou na irrigação, ampliando a área de 28 mil para 60 mil hectares, como forma de mitigar riscos climáticos, especialmente após a seca de 2024, que arrasou os canaviais paulistas. “É óbvio que a gente nunca vai ser imune ao clima, mas pelo menos se defender um pouco dessa volatilidade do clima que existe”, avalia o diretor-executivo da Da Mata.
Em paralelo, a usina continua indo ao mercado de capitais para financiar sua produção. Recentemente, a Da Mata fez sua terceira emissão de debêntures, no valor de R$ 125 milhões, a serem aportados no custeio da produção de etanol anidro e hidratado entre as futuras safras de 2028 e 2032.
Há dois anos, em 2024, a usina já havia feito outras duas emissões, nos valores de R$ 299 milhões e R$ 200 milhões.
A emissão atual, explica Nascimento, contribui para que a Da Mata possa alongar sua dívida.
“A emissão também dá mais robustez, especialmente nesse período mais turbulento da economia, seja pela taxa de juros, seja também pela questão do mercado”, diz. “O objetivo é termos um reforço da caixa da companhia, estando preparado para qualquer movimento futuro.”
Resumo
- Usina Da Mata, de Alexandre Grendene e Jonas Barcellos, projeta atingir recorde de moagem de cana-de-açúcar em 2026
- Empresa emitiu debênture de R$ 125 milhões para operações de custeio
- Saúde financeira positiva é essencial para empresa em momento de queda dos preços do açúcar