O sobrenome Paolinelli é sinônimo de inovação no agronegócio brasileiro. Alysson Paolinelli, ex-ministro da Agricultura, foi um dos principais responsáveis pela consolidação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), liderando a criação de centros especializados em diferentes culturas agrícolas.

Sob sua gestão, a estatal tornou viável o cultivo no Cerrado brasileiro, convertendo uma região antes considerada infértil em uma das principais áreas produtivas do mundo.

Em Minas Gerais, um primo seguiu caminho semelhante. Engenheiro agrônomo, Marco Túlio Paolinelli atuava na Fosfértil – antiga estatal de fertilizantes fosfatados – nos anos 1980, quando identificou o potencial de um insumo que não era difundido no campo: o gesso.

Na época, o insumo era considerado um subproduto da produção de ácido fosfórico, matéria-prima que dá origem aos fertilizantes fosfatados, pouco nobre e que só trazia problemas para as companhias do setor, que não tinham o que fazer com as montanhas de gesso que se acumulavam nas jazidas.

À época, o material era inclusive entregue de graça aos produtores rurais interessados – e muitos deles nem de graça queriam o produto, por não entenderem como aplicá-lo no campo. O que parecia um passivo, no entanto, escondia oportunidades.

Isso porque, derivado do sulfato de cálcio, o gesso atua como condicionador de solo, fornecendo cálcio e enxofre à terra, reduzindo a toxicidade do alumínio e favorecendo o enraizamento profundo das culturas.

Paolinelli viu nesse gesso parado uma oportunidade de negócio. E não teve muitas dúvidas quando percebeu a viabilidade do gesso agrícola na agricultura.

"Ele apostou tanto nesse projeto que pediu as contas da Fosfértil para desenvolver toda a logística e aplicação técnica e agronômica do gesso no mercado", conta Renato Costa, diretor comercial e de operações do Grupo Agronelli, em entrevista ao AgFeed.

A visão empreendedora de Paolinelli deu origem ao Grupo Agronelli, que tem sede em Uberaba (MG), faturou R$ 630 milhões no ano passado e projeta alcançar R$ 720 milhões neste ano. Se o número se confirmar, representaria um avanço de 14,2%.

Hoje, o grupo possui três unidades de negócio: Agronelli Soluções, que fabrica corretivos, a Agronelli Fazendas, do segmento produtivo, e a indústria de bebidas Porto Real.

O carro-chefe é a Agronelli Soluções, responsável por cerca de 75% da receita. O principal produto dessa unidade é o gesso agrícola, produzido em misturadoras em Uberaba a partir de matéria-prima enviada pela Mosaic.

O grupo comercializa 2,7 milhões de toneladas por ano e se posiciona como líder no segmento no Brasil. “O gesso agrícola ganhou uma dimensão tão grande no mercado que hoje é um produto com valor consolidado e uso intensivo”, diz Costa.

Os principais clientes estão nas cadeias de soja, milho e cana-de-açúcar, com foco em estados como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, além de presença em Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, Paraná.

Outro item relevante no portfólio do grupo é o AgroSilício, produto fabricado pela multinacional americana Harsco Environmental, que presta serviços de gestão ambiental como o tratamento de rejeitos da produção siderúrgica para empresas do setor.

A Harsco produz os corretivos e fertilizantes minerais a partir da escória siderúrgica, subproduto da produção de aço inoxidável, rico em substâncias como silicato de cálcio e magnésio. A Agronelli é o distribuidor exclusivo desse produto no Brasil e tem conseguido bons resultados, segundo Costa.

"O AgroSilício vem num crescimento bastante exponencial no mercado, principalmente para quem busca por redução de químicos, pesticidas e inseticidas. Não é que o AgroSilício substitua, mas dá uma janela de aplicação melhor aos produtores, dado a sanidade que ele traz na planta", avalia o executivo.

O crescimento da Agronelli Soluções representa os primeiros sinais mais visíveis de uma reestruturação organizacional que o grupo passou a fazer nos últimos anos.

O ponto de partida veio no fim de 2024, quando a Agronelli contratou a consultoria Markestrat, do professor Marcos Fava Neves, para estruturar um plano de crescimento de longo prazo.

E uma das metas desse plano é triplicar o volume de gesso comercializado até 2034 – chegando, portanto, a mais de 8 milhões de toneladas vendidas.

O projeto de crescimento tem dois pilares básicos, conta Renato Costa. "Um deles é a promoção do gesso agrícola para clientes que ainda não o utilizam, demonstrando a possibilidade de ganho de produção, e outro é a utilização correta para quem usa em doses agronomicamente viáveis para o produto conseguir o efeito necessário", diz.

A expansão demandará novos aportes financeiros, reconhece César Pezzotti, CFO do grupo. Nesse contexto, a Agronelli decidiu dar um primeiro passo no mercado de capitais do agronegócio. No fim de 2025, a companhia emitiu R$ 180 milhões em notas comerciais, em operação estruturada com Itaú BBA, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

As notas comerciais são instrumentos de crédito que permitem às empresas captar recursos diretamente junto a instituições financeiras, com menor complexidade em relação a outros títulos tradicionais do mercado de capitais.

Na prática, funcionam como uma alternativa para reestruturar passivos, alongar prazos de pagamento e fortalecer a estrutura financeira da companhia.

“Nós precisávamos fazer um alongamento, um reperfilamento do nosso endividamento, trabalhando questões de taxas mais prazo, e optamos por essa emissão de notas comerciais”, conta Pezzotti.

O CFO do Agronelli não descarta que a empresa entre em novas operações no futuro. “Vai depender muito das condições do mercado, se uma operação bilateral vai fazer sentido ou se faremos uma operação estruturada novamente”, diz.

“Mas, sem dúvida nenhuma, o fato de termos ido já em uma operação estruturada no mercado nos abre uma porta para que a gente conheça esse mercado de perto e o mercado também nos conheça”, avalia.

Planeta água

Mas a Agronelli vai além do gesso agrícola. Em paralelo ao negócio de insumos para o solo, Marco Túlio Paolinelli também diversificou a atuação do grupo ao investir, ao longo das décadas, no segmento de água – com uma abordagem sustentável, muito antes de o tema ganhar protagonismo no setor.

O início de tudo foi recheado de desafios. Literalmente. Isso porque, em 1980, Paolinelli adquiriu uma fazenda em estágio de degradação, com voçorocas, grandes crateras formadas pela ação da água da chuva em áreas desprovidas de vegetação.

O engenheiro agrônomo iniciou, então, um longo de processo de recuperação ambiental com construção de bolsões, plantio de árvores e uso de espécies como o jambolão para recompor o solo.

Após três décadas, a área foi revitalizada: as voçorocas foram controladas, nascentes perenizadas e a biodiversidade restabelecida, transformando a propriedade em referência.

Paolinelli resolveu também replicar o projeto em uma de suas propriedades, a Fazenda São Francisco, que está inserida em uma unidade de conservação de uso sustentável, a APA Rio Uberaba.

A fazenda abriga parte relevante dos córregos Borá e Borazinho, com cerca de 40% de suas extensões situadas dentro da propriedade.

Juntos, esses cursos d’água respondem por aproximadamente 16% da vazão do Rio Uberaba, que abastece o município de nome e outros do entorno.

Na prática, isso significa que cerca de 9% da água captada no rio tem origem na Fazenda São Francisco, o que amplia a responsabilidade do proprietário na adoção de medidas de preservação ambiental.

Mais recentemente, em 2014, o grupo ingressou no segmento de bebidas, com uma operação dedicada ao envase de água mineral natural e água adicionada de sais, sob as marcas Porto Real e Nobre. A Porto Real já estava presente no mercado desde a década passada, enquanto a Nobre foi incorporada ao portfólio no último ano.

Hoje, a divisão de bebidas já se consolidou como a segunda maior fonte de receita do grupo e continua a receber novos investimentos.

O grupo se prepara para lançar, nos próximos meses, refrigerantes de baixa caloria na marca Porto Real, nos sabores limão e limoneto, mirando um mercado semelhante ao do H2OH!, da PepsiCo.

"O refrigerante de baixa caloria nos traz uma margem bastante interessante. É inviável entregar água mineral em grandes distâncias. Mas, com o refrigerante, conseguimos chegar a Belo Horizonte ou São Paulo com margens saudáveis", avalia Renato Costa.

O grupo também mantém produção agropecuária em nove fazendas, que somam 3 mil hectares. O destaque é a pecuária leiteira, com cerca de 1,6 mil animais e produção diária de 20 mil litros. O grupo tem como meta alcançar, nos próximos anos, 100 mil litros por dia.

A Agronelli já operou um laticínio próprio, que processava leite, queijos e outros derivados nas marcas Porto Real e Legado, mas decidiu descontinuar a atividade temporariamente.

“A capacidade de expansão era limitada. Hoje, vendemos leite para outros laticínios”, afirma Costa. “Deixamos o plano do laticínio para um segundo momento, em função da taxa de juros e possibilidades de investimento nesse momento.”

Além disso, o grupo também mantém produção de gado de corte em suas propriedades, com 2,5 mil cabeças, e cultivo de milho para silagem, abastecendo a própria operação leiteira. “É um modelo de economia circular”, resume o executivo.

No passado, a Agronelli também atuava com genética animal, mas deixou o negócio de lado. Mas o grupo não descarta voltar com essa atividade no futuro, segundo Costa.

Outros negócios do grupo, como Lucanelli Móveis, focada na produção de móveis a partir de madeira reflorestada, e a Nelltech, voltada à tecnologia da informação, também estão em stand-by. “Deixamos parados para repensar os modelos de negócio. Nosso foco é mesmo o agro”, resume Costa.

Resumo

  • O Grupo Agronelli, de Uberaba (MG), transformou um subproduto da produção de fertilizantes, o gesso, em negócio líder no país, com 2,7 milhões de toneladas vendidas por ano
  • Companhia, que faturou mais de R$ 600 milhões em 2025, passa por reestruturação e traça plano para triplicar vendas até 2034, apoiado em expansão de mercado, uso técnico do produto e acesso ao mercado de capitais
  • Estratégia inclui diversificação com bebidas e produção agropecuária, combinando crescimento com agenda de sustentabilidade e economia circular