Com meus 60+, como poderia imaginar que, no escuro aconchegante do ventre da minha mãe, eu já era um consumidor
Parece até estranho pensar nisso. Lá estava eu, naquele ambiente protegido, escurinho, agradável, com temperatura constante, recebendo nutrientes, crescendo em segurança. E, ainda assim, antes mesmo de nascer, eu já consumia. Ou melhor: já consumiam em meu nome.
Meus pais, com todo o carinho de quem esperava a chegada de um filho, já haviam comprado berço, roupinhas, itens para o quarto, talvez os primeiros brinquedos. Minha mãe se alimentava por mim e para mim. Havia exames, cuidados, transporte, medicamentos, preparativos. Eu ainda nem tinha chegado ao mundo e o consumo já estava acontecendo ao meu redor, por minha causa, em meu nome.
Isso me leva a uma constatação importante: ninguém escapa do consumo. Nós já nascemos dentro dele. Antes mesmo de fazermos nossa primeira escolha, alguém já escolheu por nós. E isso não quer dizer que o consumo seja ruim. Quer dizer apenas que ele é inevitável.
O consumo não é um desvio da vida moderna. Ele é parte da própria vida.
O problema, portanto, não é consumir. O problema é quando o consumo deixa de responder às nossas necessidades e passa a obedecer a outros impulsos.
Consumimos por influência, por propaganda, por status, por conforto, por carência, por uma ideia de felicidade que foi sendo empacotada em bens materiais.
E talvez aí esteja uma das distorções mais profundas do nosso tempo: quando transformamos sentimentos em consumo.
A Revolução Industrial ampliou de forma extraordinária a nossa capacidade de produzir bens e serviços. Isso foi impressionante.
Nossa capacidade de produzir passou a ultrapassar em muito a nossa necessidade real de consumir. Passamos a viver em um mundo com uma oferta imensa de itens, muitos deles absolutamente dispensáveis para a vida.
E, para que esse sistema continue girando, não basta atender necessidades reais. É preciso criar novas necessidades, novos desejos, novas urgências.
O mais duro é que essa lógica convive com uma contradição dolorosa: enquanto uma parte da humanidade consome em excesso, muito além do necessário, outra parte ainda não consegue consumir o básico para viver com dignidade.
Uns consomem demais. Outros consomem de menos. Produzimos em abundância, mas distribuímos de forma profundamente desigual.
A conta do planeta não fecha e eu vejo isso também como químico
A matemática não fecha.
Se, por um lado, passamos a produzir e ofertar uma quantidade imensa de bens e serviços, por outro seguimos vivendo em um planeta de recursos limitados. Nossa inteligência nos deu uma capacidade extraordinária de extrair, transformar, manufaturar e industrializar.
Isso trouxe conforto, tecnologia e avanços reais. Mas o planeta não se regenera na mesma velocidade em que nós o consumimos.
Como químico de profissão, isso para mim é muito evidente. Todos os dias promovemos grandes transformações da matéria. Pegamos elementos e compostos existentes na natureza e, por meio da nossa inteligência, criamos materiais e combinações de longa duração, de alta complexidade e de descarte rápido.
Em muitos casos, transformamos aquilo que o planeta levou milhões de anos para formar em resíduos que descartamos em minutos, dias ou poucos anos.
Esse é um dos grandes paradoxos do nosso tempo: consumimos rapidamente aquilo que a Terra levou eras para produzir.
E ainda existe uma ilusão perigosa: a de que o impacto individual é pequeno demais para importar. Mas pessoas como nós não são uma ou duas. Somos bilhões.
O consumo é individual no gesto, mas coletivo no efeito.
A água desperdiçada parece pouca. O alimento jogado fora parece pouco. A embalagem descartada parece pouca. Mas, quando esse padrão se repete em bilhões de vidas, o efeito deixa de ser pequeno e passa a ser planetário.
O dia em que refleti que quase tudo é consumo
No Dia do Consumidor, decidi observar com atenção como seria o meu dia. O que, afinal, eu consumo em um dia normal da minha vida?
A reflexão foi muito mais poderosa do que eu imaginava. Ao longo do dia, percebi que praticamente não houve nada que eu fizesse sem apertar, de alguma forma, um botão de consumo.
Quando fui abrir a pasta de dentes, por exemplo, eu não vi apenas uma embalagem e um creme dental. Vi quase como um filme tudo o que existia por trás daquele gesto simples: matéria-prima, indústria, embalagem, transporte, energia, água, trabalho humano, logística, descarte. Como se o planeta inteiro estivesse se movimentando para que eu tivesse acesso àquele pequeno ato de consumo logo no início da manhã.
E aí me veio uma pergunta incômoda: isso sempre esteve ali e eu nunca percebi? Ou naquele dia eu estava apenas mais consciente?
Talvez as duas coisas.
Ao final do dia, fiquei com a sensação de que, talvez, a única coisa que ainda fazemos sem pagar diretamente seja respirar. Todo o resto passa, de alguma forma, por algum tipo de consumo.
Por minha natureza e também por toda a minha trajetória profissional ligada à indústria de alimentos, um dos meus “passeios” favoritos sempre foi ir ao supermercado. Eu gosto de supermercado. Gosto de conversar com as pessoas, de observar o ambiente, de falar com gerentes, atendentes, operadores, gente da limpeza. Sempre enxerguei o supermercado quase como um pequeno retrato da sociedade em movimento.
Mas existe algo que eu precisei admitir para mim mesmo: praticamente 100% das vezes, eu não compro apenas o que estava na minha lista.
Sou atraído por outros itens. Promoções me chamam. Novidades me chamam. O ambiente me convida a consumir mais. E esse é um ponto sobre o qual tenho procurado refletir profundamente, porque mostra o quanto é fácil sair do consumo necessário e entrar no consumo induzido, no consumo que pode acabar em desperdício.
E quando um alimento vai para o lixo, não se perde apenas o alimento. Perde-se tudo o que veio antes dele. Perde-se natureza. Perde-se trabalho. Perde-se energia. Perde-se dinheiro. Perde-se tempo. Perde-se sentido.
Toda compra financia alguma coisa, mesmo quando não percebemos
Há outro ponto que raramente percebemos: mesmo nas pequenas compras do dia a dia, também somos investidores.
Toda vez que compramos um produto ou contratamos um serviço, estamos transferindo recursos para alguém. Estamos mantendo empresas de pé, sustentando cadeias produtivas, fortalecendo modelos de negócio, premiando certas práticas e permitindo que determinadas atividades continuem existindo. Em outras palavras: quando consumimos, também investimos.
O problema é que, na maioria das vezes, vemos apenas o que está na frente. Quase nunca enxergamos o que existe por trás daquilo que escolhemos.
O que sabemos, de fato, sobre as empresas e os produtos que compramos?
Será que, sem perceber, não estamos ajudando a sustentar desmatamento, maus-tratos, trabalho infantil, trabalho análogo ao escravo, exploração humana, irresponsabilidade ambiental? Talvez financiemos, sem saber, aquilo que combateríamos com convicção se tivéssemos mais informação.
Ao mesmo tempo, ser um consumidor consciente é muito difícil. Não temos informação suficiente. Saímos de casa para comprar com uma lista de produtos, mas quase nunca com uma lista de fornecedores. Sabemos, no máximo, em que supermercado estamos entrando. Mas será que ele é, de fato, a minha melhor escolha? Ou será apenas o mais próximo, o mais cômodo, o mais habitual?
E há ainda uma limitação real: nem tudo eu posso escolher. Liguei a luz e pensei: será que eu realmente posso escolher de quem quero comprar essa energia? Abri a torneira e me veio outra pergunta: será que posso decidir de qual empresa quero receber a água que chega à minha casa? Em muitos casos, estamos atados ao fornecedor disponível.
Não escolhemos tudo. Não controlamos tudo.
Mas essa constatação não deve nos paralisar. Porque, por outro lado, há uma parcela enorme do nosso consumo em que a escolha continua existindo. E é justamente aí que podemos agir de forma diferente.
O 15 de março precisa mudar de nome
Chegamos a um ponto da nossa trajetória como humanidade em que já não basta sermos apenas consumidores.
Consumir, da forma como temos consumido, pode significar comprometer o nosso próprio futuro.
E, ao mesmo tempo, sabemos que não há vida sem consumo. Essa é justamente a tensão do nosso tempo: não podemos deixar de consumir, mas já não podemos continuar consumindo como se nada estivesse em jogo.
Quando se fala em consumo consciente, quase sempre pensamos em um outro consumidor. Raramente pensamos em nós mesmos.
É como se o problema estivesse sempre no carrinho de compras do outro. Mas a mudança não pode ser delegada.
A meu ver, um consumidor consciente não é alguém perfeito, nem alguém que acerta sempre. É alguém que começa a criar pequenas pausas entre o impulso e a compra. Alguém que aprende, pouco a pouco, a comprar mais o que realmente precisa e menos o que apenas apareceu como tentação do momento.
Alguém que olha com mais cuidado para aquilo que desperdiça, que desenvolve curiosidade sobre a origem do que compra, que valoriza mais empresas éticas e transparentes e que entende que conveniência sozinha não pode ser o único critério de decisão.
No fundo, ser um consumidor consciente talvez seja isso: entender que consumir não é apenas um ato econômico. É também um ato social, ambiental e político.
Foi por isso que, para mim, ficou muito claro que eu precisava tomar uma atitude. E a atitude que decidi tomar é simbólica, mas carrega uma intenção profunda: rebatizar o Dia do Consumidor como Dia do Consumidor Consciente.
Pode parecer apenas uma mudança de nome. Mas, para mim, não é. É uma mudança de olhar. De perspectiva. De compromisso.
A partir dessa data, decido transformar o dia 15 em um marco de comunicação e educação contínua. Quero produzir, por meio da Dreams & Purpose Consulting e com parceiros, materiais cada vez mais didáticos, acessíveis e provocadores sobre o que significa ser um consumidor consciente. Quero contribuir para que mais pessoas tenham acesso à informação necessária para decidir melhor.
Se o consumo faz parte da vida, então que a consciência passe a fazer parte do consumo.
E, se esta data ainda precisa existir, que ela exista não apenas para vender mais, mas para nos lembrar de que cada escolha carrega impactos, responsabilidades e possibilidades de futuro.
Por isso, para mim, o 15 de março deixa de ser apenas o Dia do Consumidor.
Passa a ser, com toda convicção, o Dia do Consumidor Consciente.
Leonardo Lima é socio da Dreams & Purpose Consulting