Dentro de poucos meses, ainda em meados de 2026, uma nova movimentação começará em uma das fazendas da Luxor Agro no município de Pontes de Lacerda, no Oeste do Mato Grosso.
Será a hora de plantar as primeiras mudas de um projeto piloto, parte de um ambicioso e inédito plano da empresa: colher o primeiro café do tipo robusta produzido em sistema agroflorestal no Mato Grosso, uma região sem tradição na cultura.
O primeiro plantio ocupará uma área pequena. Nos próximos dois anos, ela será avaliada e, se os resultados forem positivos, ampliada escala progessiva, até ocupar a extensão de 500 hectares.
“A gente entende essa região como capaz e o produto como super vanguardista, super interessante para o futuro dentro da ideia de criar um sistema resiliente produtivo no longo prazo”, afirma Eduardo Ferreira, sócio da Luxor Agro responsável pelo projeto, ao AgFeed.
O café agroflorestal é uma das principais apostas da companhia criada por Eduardo Grabowsky, membro da terceira geração da família que ficou conhecida por comandar uma das maiores redes hoteleiras do País, vendida em 2007 para a GP Investimentos.
Hoje, ele dedica-se aos investimentos em seu family office, entre eles a Luxor Agro, dona de mais de 14 mil hectares de terra no Mato Grosso e no Sul de Minas. A proposta da empresa é se tornar referência internacional em agropecuária agroflorestal e, para isso, elaborou um projeto de R$ 120 milhões a ser realizado nos próximos anos, conforme mostrou o AgFeed em agosto de 2025.
A escolha do café para fazer parte desse projeto tem razões que combinam propósito e mercado – para a empresa, um não resiste sem o outro.
Ferreira e seus sócios acreditam que o atual sistema produtivo da cafeicultura é “incapaz de gerar respostas aos desafios provocados simultaneamente pela mudança de clima e pelo aumento de demanda por café”.
Se por um lado o consumo do fruto tem crescido consistentemente na ordem de 2% ao ano nas últimas duas décadas, de outro os problemas climáticos têm comprometido seguidas safras nas principais regiões cafeeiras.
“Temos visto isso de forma mais recorrente e profunda no café do que em outras commodities. E junto com isso, a gente vê uma oportunidade muito interessante, que é essa específica de produzir o primeiro robusta no oeste do Mato Grosso”.
O principal estado produtor hoje dessa variedade é o Espírito Santo, onde ela é mais conhecida como conilon. E a região que mais tem crescido é a de Rondônia. Ambas, portanto, em biomas diferentes do encontrado no Oeste do MT – Mata Atlântica no primeiro, Amazônia no segundo.
“Por uma condição até de característica regional, a gente está exatamente na transição entre o bioma amazônico e o Cerrado”, aponta Ferreira.
“Então, a gente bebe um pouco das duas fontes, com duas condições de chuva, de temperatura e o diferencial sempre do Mato Grosso, que é a infraestrutura”, diz, referindo-se a fornecimento de energia, escoamento da produção e também a possibilidade de captação de água para irrigaç]ap.
Com isso, a Luxor acredita ter encontrado uma localização ideal para testar e depois escalar sua tese, que vai, segundo o executivo, além de encontrar uma nova fronteira e produzir, mas sobretudo como encaixar ali um sistema resiliente de produção.
Com a experiência desenvolvida em outras culturas e regiões, Ferreira está convicto que a solução está na adoção de um modelo regenerativo e agroflorestal.
A escolha da variedade robusta se deve não apenas ao aumento da demanda, até superior hoje à do café do tipo arábica, mas à sua capacidade de resistir às condições geográficas e climáticas do Mato Grosso, de maior calor e menores altitudes, em que a variedade tida como “mais nobre” não prospera.
Modelo mineiro
Mas é da experiência com o arábica em Minas Gerais que a Luxor Agro tirou a expertise que vai agora levar para o Centro-Oeste. Foi na fazenda modelo que mantem lá que a empresa iniciou, há dois anos, a produção de café em sistema agroflorestal.
Em uma área de 40 hectares ela iniciou a substituição de antigos cafezais pelo novo modelo, em que a cultura é consorciada com outras oito espécies nativas da Mata Atlântica e de transição para o Cerrado.
Ali, a Luxor já vinha há cinco anos testando e validando uma série de desenhos agroflorestais, com diferentes formas de manejo e combinações de produção até chegar em um que, na visão da empresa, se mostrou capaz de ser escalável.
Entre as variáveis buscadas, estava a condição de o sistema receber mecanização, algo que, no relevo acidentado do Sul de Minas não é tão aplicável, mas que seria necessário para que o sistema fosse replicado em maior escala em outras regiões, como no MT.
espécies diferentes que a gente utiliza, principalmente com o intuito de gerar o que a gente chama de serviços ecossistêmicos para o café.
Na definição de cada design produtivo, as variáveis são muitas, do espaçamento entre as plantas às espécies que irão “conviver” com a cultura principal, favorecendo sua produção, seja melhorando o microclima, gerando sombra, por exemplo, seja atraindo inimigos naturais, seja captando água de uma profundidade bem além do que o sistema radicular do café consegue.
“A gente combina diferentes espécies, desde árvores a arbustos, para combinar esses diferentes outputs que a gente quer no sistema regenerativo e agroflorestal para gerar resiliência climática, que no final do dia é o que a gente quer criar”, explica Ferreira.
Os resultados, ao fim da segunda safra efetiva, são animadores. Segundo a empresa, a produtividade no último ciclo foi de 45 sacas por hectare no sequeiro, bem acima da média do Sul de Minas, que foi de 25 sacas.
Ferreira observa que esse resultado computa uma área ainda não homogênea. Em quarto dela era a primeira safra a ser colhida, em que os cafeeiros ainda não atingiram sua plenitude. Outros 15% eram de áreas antigas, menos produtivas.
Ele também ressalta que a safra foi desafiadora na região, com severas perdas geradas por eventos climáticos. Assim, ao produzir quase o dobro da média local, o sistema teria comprovado a tese da resiliência.
Mais do que a produtividade, entretanto, Ferreira prefere destacar outros indicadores desenvolvidos pela empresa para avaliar o sucesso da empreitada agroflorestal e que constam do relatório socioambiental produzido anualmente pela Luxor Agro.
Seu favorito é o de bioacústica, que, na sua visão, ajuda a avaliar se o projeto se está gerando biodiversidade e se está mudando a paisagem daquela área positiva ou negativamente.
Para chegar a esse indicador, a companhia instalou gravadores e câmeras em diferentes locais da fazenda – além da área de agrofloresta, em trechos de reserva permanente e talhões de monocultura, que ainda existem por lá.
De acordo com ele, em apenas dois anos de cultivo foi possível observar, na área agroflorestal, um aumento de mais de 30% na presença de aves na comparação com a monocultura. Onde há mata nativa, a presença é 30% superior à da agrofloresta.
Isso mostra, segundo ele, uma tendência clara de recuperação da biodiversidade. “Aves são bioindicadores importantes, são as primeiras a mudar”, afirma.
Na aferição da pegada de carbono da cultura, o sistema já teria atingido a neutralidade, embora ainda haja áreas sendo renovadas, o que sempre gera mais emissões.
A favor da neutralidade, nessa conta, está a redução, de até quatro vezes ao longo do ano, do uso de herbicidas. Isso foi obtido através da manutenção de plantas de cobertura nos espaços entre as linhas dos cafezais durante todo o ciclo da cultura.
Essa plantas concorrem com as daninhas, evitando a sua proliferação. Com isso, são necessárias menos entradas para pulverização na lavoura, diminuindo o volume aplicado por hectare. O uso de herbicidas, assim, fica cada vez mais específico, para controlar apenas o que a cobertura não controlou.
“O meio da rua antes era custo, agora gera vantagens”, analisa. Isso porque, além de ajudar no controle das daninhas, as plantas de cobertura, se bem escolhidas, ajudam a atrair insetos que atuam como agentes polinizadores e como inimigos naturais de pragas que podem afetar os cafezais.
“Isso muda tudo na tendência de uso de insumos. Ao invés de progressiva, com aumento de resistência das pragas, ela se torna regressiva, com a utilização de métodos naturais de controle”, diz Ferreira.

Rumo ao MT
Antes mesmo de iniciar o plantio no Mato Grosso, a Luxor Agro criou, na fazenda modelo de Minas, um pequeno espaço simulando as condições que serão encontradas lá. A intenção era fazer um piloto antes do piloto, um teste para entender como clones, espaçamentos e outras variáveis se comportariam nas condições climáticas e de solo da propriedade do grupo no Centro-Oeste.
As primeiras questões a responder, segundo Ferreira, é se o modelo desenvolvido para o arábica em Minas pode ser “potente” na versão mato-grossense com o robusta.
A primeira impressão é que sim. Isso porque, entre outras coisas, a variedade que será plantada no norte precisa de polinização cruzada, diferentemente do arábica.
“Então, a gente aumentaria a biodiversidade, atrairia mais inseto e isso ajudaria ainda a ter uma correlação ainda maior com a produtividade e com a capacidade de a gente controlar mais pragas e doenças, até pela planta permitir isso, ter menos fragilidade”, pondera.
Assim, há otimismo de que, com as adequações necessárias, como a adoção de espécies daquele bioma, o sistema trará os resultados desejados.
Mais do que encaixar o café robusta dentro de uma nova região, a ambição da Luxor Agro é fazer dele uma peça relevante do portfólio de uma fazenda padrão da região, dentro de um modelo que
maximize o retorno financeiro da propriedade no longo prazo.
“Aqui a gente está focado não em dois anos, mas em 20 anos”, afirma Daniel Baeta, CEO da Luxor Agro. “E a forma que a gente acredita que vai conseguir executar isso é criando sistemas produtivos mais resilientes às mudanças climáticas que estão aqui”.
A ideia é que as propriedades da companhia se tornem uma vitrine onde seja exposto um modelo de negócios que combine diferentes atividades agropecuárias, mas sempre no modelo regenerativo. E, no entender da empresa, o café pode cair como uma luva nesse conceito.
Baeta explica como isso funcionaria nas fazendas da empresa. Dos quase 14 mil hectares de área total, 8 mil hectares estão consolidados e 6 mil hectares são de reservas.
Há alguns anos atrás, toda a área consilidada era destinada à pecuária extensiva, com pastagens degradadas. “Tinha 10 funcionários e dava mil reais por hectare ano de resultado, como uma pecuária extensiva convencional”, diz.
Agora, segundo ele, tudo está sendo transformado em um sistema produtivo integrado. Uma vez implementado, segundo Baeta, serão 500 hectares de café robusto irrigado, 4 mil hectares de lavoura-pecuária integrada, 2,5 mil hectares de pecuária agroflorestal e 1 mil hectares de silvicultura para produção de madeiras.
Além disso, grande parte dos 6 mil hectares de reserva, em processo de degradação, serão restaurados. “A gente vai gerar carbono e serviços ecossistêmicos para todos esses outros hectares”, afirma.
“Estamos criando um portfólio de sistemas produtivos, que ao invés de gerar mil reais por hectare ano, vai gerar 9 mil reais por hectare ao ano, num sistema muito mais diversificado, com muito menos risco operacional e muito mais resiliente a essas mudanças climáticas”.
Uma premissa relevante para que o modelo seja rentável é a possibilidade de mecanização, que reduz a necessidade de mão-de-obra, hoje escassa no campo. Nos cafezais que serão implementados no MT, isso também deve acontecer.
“Esse foi o maior desafio que a gente enfrentou”, afirma Ferreira. “Nos últimos cinco anos a gente se dedicou a criar esse modelo que é mecanizável e possível de ser escalado em realmente larga escala”.
Outra diferença entre as duas lavouras de café da companhia é a irrigação. Em Minas, ainda estão sendo feitos estudos para definir qual o modelo mais eficiente, embora o pivô já tenha sido descartado em função da topografia.
No MT, a opção já foi definida, com a conclusão de que o sistema por gotejamento é o que permitirá melhor aproveitamento da água.
A empresa aproveitará, no Centro-Oeste, parte da estrutura já utilizada para os grãos, para a secagem do café. A ideia é formar um complexo que tenha, de um lado, a secagem e a armazenagem de grãos e, ao lado, secagem e processamento de café.
Baeta acredita que, com o projeto, estará na vanguarda de um movimento que gera dois impactos. “Tem uma parte que a gente acredita que é a melhor alocação de capital para o nosso próprio dinheiro, que a melhor forma de maximizar o retorno dessas fazendas é criando esse sistema mais resiliente às mudanças climáticas”, diz.
“Esse é o resultado para a gente. E a gente espera que isso tenha um impacto sistêmico no meio, que mais pessoas olhando os resultados que a gente tem e adotando a mesma ideia vai causar um impacto ainda maior nesse Brasilzão aí afora”.
Resumo
- Luxor Agro iniciará em 2026 o plantio piloto de café robusta em sistema agroflorestal no Mato Grosso, região sem tradição na cultura
- Projeto combina café com espécies nativas para melhorar microclima, biodiversidade e resiliência climática, inspirado em experiência com arábica em Minas
- Se os testes forem bem-sucedidos, a área pode chegar a 500 hectares dentro de um sistema integrado que inclui lavoura, pecuária e silvicultura.