Depois de safras consecutivas com perdas de produtividade, o Rio Grande do Sul deve finalizar o ciclo produtivo de soja com números melhores do que na temporada anterior, mas ainda aquém do esperado.

De acordo com dados divulgados nesta semana pela Emater-RS, os produtores gaúchos devem produzir 32,8 milhões de toneladas de grãos nesta safra, 7,1% abaixo da estimativa inicial divulgada no começo do ciclo.

Na soja, principal cultura local, a produção deve atingir 19 milhões de toneladas, 11,3% a menos do que a projeção inicial de 21 milhões de toneladas, mas 46% superior às 13 milhões de toneladas colhidas na safra 2024/2025. A estiagem é a principal causa apontada pela Emater-RS para as revisões nas projeções.

Com dificuldades no campo e enfrentando dívidas que, no somatório geral, chegavam a R$ 27,5 bilhões em outubro do ano passado, de acordo com dados da Farsul, produtores gaúchos que compareceram à Expodireto Cotrijal, feira de tecnologia agrícola realizada em Não-Me-Toque (RS), estão nitidamente mais cautelosos, na avaliação de diferentes fontes ouvidas pelo AgFeed ao longo do evento.

A organização da Expodireto não divulga mais desde o ano passado os dados de movimentação ou compromissos de negócios da feira, mas a seletividade ficou perceptível para quem passou por lá.

Para Cássio Kirchner, diretor de Negócios Sul da multinacional alemã Basf, esse sentimento de cautela aparece principalmente na aquisição de novas máquinas, fazendo com que o setor de insumos seja menos afetado.

"Vejo que o pessoal está com cautela total de investir nas máquinas, pois o agricultor tem a possibilidade de postergar o investimento esperando um momento melhor. Já os insumos fazem parte de um fator produtivo: o produtor tem de ter insumos para produzir", analisa Kirchner.

O executivo destaca também que o comportamento do produtor também mudou na adoção de novas tecnologias, com o agricultor mais seletivo antes de testar novos produtos. “Está mais criterioso do que antes. Mas isso não quer dizer que não esteja adotando novas tecnologias”, diz.

No caso específico do Rio Grande do Sul, as negociações para a próxima safra 2026/2027 praticamente ainda não começaram. Isso porque, segundo Kirchner, o produtor costuma esperar o fim da colheita para fechar novas compras. “Enquanto ele não colher e não fizer o balanço da safra, não dá o próximo passo.”

A situação é diferente em outros estados da região Sul, diz Kirchner. No Paraná, por exemplo, cerca de 20% do mercado de defensivos para a safra 2026/2027 já estaria negociado, percentual considerado dentro da média histórica, segundo o executivo.

Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil, também concorda que o momento é de mais cautela por parte do produtor gaúcho. "Muitos produtores estão focados em recompor capacidade financeira, conduzir o planejamento agrícola e gestão de risco", diz.

No início da Expodireto, o movimento na feira foi mais fraco, o que Monteiro atribuiu a problemas climáticos. Ainda assim, o executivo ressaltou que o evento segue sendo um espaço relevante de diálogo com o setor e de apresentação de novidades tecnológicas e comerciais aos produtores.

"Os produtores estão atentos ao cenário econômico-climático, mas também interessados em novas tecnologias que ajudem na previsibilidade e produtividade da produção", avalia Monteiro.

No segmento de máquinas, a vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), Carolina Rossato, teve percepção semelhante.

Apesar de reconhecer que, nesta Expodireto, a quantidade de público foi menor, se comparada à última edição , a representante do Simers destacou que os produtores rurais tiveram acesso à tecnologia de ponta.

“O agricultor precisa de tecnologia. E a gente conseguiu mostrar para os agricultores gaúchos e para quem veio de fora que o melhor de máquinas agrícolas no mundo está aqui”, afirma.

Nacionalmente, o setor de máquinas agrícolas deve enfrentar novos tempos bicudos ao longo do ano de 2026, a julgar por estimativas trazidas pela Câmara de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq em reunião durante a Expodireto.

De acordo com a Abimaq, nos últimos seis meses o faturamento do setor caiu 7% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Só em janeiro de 2026 o faturamento caiu 15,6%.

Assim, para 2026, a projeção da Abimaq é de uma queda de 8% no faturamento do segmento, com forte viés baixista. No ano passado, a receita líquida total aferida pelo setor de máquinas agrícolas havia crescido 7,4% na comparação com 2024, após dois anos consecutivos de contração nas vendas das máquinas.

A alta inadimplência, o rigor para concessão de créditos, juros altos e preços das commodities em queda são os fatores que explicam a retração, segundo a associação dos fabricantes de máquinas.

Em um momento de margens mais reduzidas e alta imprevisibilidade, os produtores tendem a priorizar a compra de insumos, enquanto que os investimentos em renovação de frota ficam em segundo plano, avalia a Abimaq.

Colaborou Alessandra Mello, de Não-Me-Toque (RS)

Resumo

  • Produtores rurais gaúchos mostraram cautela na Expodireto, feira agro de Não-Me-Toque (RS) após anos de perdas de produtividade no campo e alto endividamento
  • Com safra de soja melhor no RS, mas ainda aquém do esperado, agricultores têm priorizado a compra de insumos essenciais para a produção
  • Os agricultores acabam adiando investimentos em máquinas e outras tecnologias mais caras, ainda que não deixem de investir totalmente em tecnologias