O trimestre de outubro a dezembro é crucial para grande parte das empresas. É nesse período que o fechamento do ano é feito e, consequentemente, a pintura de um ano termina de ser desenhada. Na BrasilAgro, assim como em outras companhias do setor, é um período de poucas emoções, com as últimas vendas da safra passada acontecendo e o cultivo da temporada atual a todo vapor.
Quem olha o balanço do período, divulgado na noite da quinta-feira, 5 de fevereiro, vê de forma clara a estratégia de negócios de uma companhia que atua em dois ramos - produção agrícola e mercado imobiliário de terras. Sem movimentações no segundo, restou ao primeiro a missão de preencher as linhas de faturamento.
No período - o segundo trimestre do ano-safra 2025/2026 -, a BrasilAgro aproveitou para vender seus estoques carregados do ciclo 2024/2025 e viu seu faturamento crescer 25% em um ano, atingindo R$ 191 milhões.
“Esse trimestre é muito mais uma fotografia olhando para trás. A expectativa é o jogo daqui para frente”, afirmou Gustavo Lopez, CFO da companhia, em call com jornalistas para comentar os resultados.
O CEO, André Guillaumon, não participou da conversa porque está viajando pelas fazendas do grupo e acompanhando o andamento da safra em tempo real, segundo Lopez.
É justamente nessa safra em curso que a empresa concentra suas expectativas. De acordo com a administração, o ciclo 2025/2026 foi plantado, em linhas gerais, dentro das janelas ideais, com condições climáticas mais favoráveis do que em anos anteriores em algumas regiões do portfólio.
"A expectativa para a safra 2025/2026 permanece positiva, apesar da irregularidade das chuvas no início do ciclo, que se estabilizaram ao longo do período e têm contribuído para bons níveis de produção. A soja apresenta bom desenvolvimento, com baixo índice de pragas e doenças, chuvas bem distribuídas nas regiões do Matopiba e colheita em fase inicial no Mato Grosso", diz um trecho do balanço.
A BrasilAgro deve cultivar 169,85 mil hectares na temporada, levemente abaixo da temporada anterior, sendo 78 mil hectares de soja, 26 mil hectares de milho (sendo 16 mil na safrinha) e 27 mil hectares de cana.
A Head de RI da empresa, Ana Paula Zerbinati, destacou que a empresa diminui a área de algodão para dar preferência ao cultivo do milho, cultura que ela acredita que há um cenário mais otimista de preço, principalmente por conta das usinas de etanol de milho.
Na safra passada, foram 6,4 mil hectares com a pluma e cerca de 18 mil hectares com o milho nas duas safras. Na temporada 2025/2026, o algodão ocupará somente 2,1 mil hectares.
"Esperamos para essa safra ganhos de volume em relação à última, incluindo até mesmo a cana colhida a partir de abril. A projeção é mais toneladas produzidas, com uma área produtiva muito semelhante, e esperamos que os dois próximos trimestres reflitam essa colheita de maior volume", disse Zerbinati aos jornalistas.
Ao mesmo tempo, a empresa aposta em menos custos para compensar preços baixos dos grãos e um dólar igualmente menor em um ano. O CFO Gustavo Lopez disse que a empresa aproveitou o preço baixo da moeda americana para antecipar a compra de insumos, o que fez a perspectiva de custo por hectare recuar em algumas culturas.
“No caso da soja, estamos estimando um custo direto em torno de R$ 4,1 mil por hectare, algo entre 6% e 7% abaixo do que víamos anteriormente”, disse Lopez. Segundo ele, a combinação de fertilizantes, defensivos e sementes adquiridos de forma antecipada foi determinante para esse ajuste.
Ao mesmo tempo, a empresa já travou quase 60% da comercialização da oleaginosa da temporada em um câmbio próximo aos R$ 6 por dólar, acima da cotação atual.
Do lado comercial, a empresa também se antecipou. Cerca de 60% da produção de soja da safra 2025/2026 já foi comercializada, a um câmbio médio próximo de R$ 6 por dólar, patamar superior ao observado atualmente. Os preços da commodity também ficaram acima das expectativas de mercado no momento das vendas, segundo a companhia.
“A margem está mais apertada, então a estratégia tem sido otimizar em todas as frentes”, afirmou o CFO.
Além da soja e do milho, a cana-de-açúcar segue como um dos pilares do portfólio agrícola da empresa, ainda que tenha sido afetada por eventos climáticos recentes.
A companhia já havia comunicado impactos de geadas em São Paulo e de queimadas em uma área no Maranhão, que reduziram a produtividade da cultura no ciclo atual. Mesmo assim, a avaliação é de que se trata de um evento pontual.
Se no campo o tom é de cauteloso otimismo, na outra vertical de negócios, o mercado imobiliário rural, o cenário segue mais desafiador.
Segundo Lopez, esse mercado vive um processo de ajuste, especialmente em regiões consideradas mais "marginais" do ponto de vista agrícola, como a região do Xingu, no Mato Grosso, e o Oeste da Bahia.
“Havia uma disparidade muito grande de preços entre regiões. Com margens mais apertadas nas últimas safras, esperávamos um ajuste e ele começou a acontecer”, disse.
Nessas regiões, Lopez cita que houve forte expansão agrícola nos últimos anos, principalmente por projetos de conversão de pecuária em lavoura, o que acabou pressionando os preços de arrendamento. Acontece que o cultivo de gado passa por um momento de margens melhores, o que acabou freando o movimento.
"Nessas regiões marginais já percebemos uma diminuição de preço e de liquidez. E na pecuária, falávamos em uma margem de R$ 600 por hectare que agora chega a R$ 2 mil. Isso tirou o pé do acelerador de quem queria transformar a fazenda", contou o CFO.
Na Bahia, ainda há uma demanda elevada em áreas com potencial para irrigação, que, segundo o CFO, contam com uma "demanda firme".
Do ponto de vista estratégico, a BrasilAgro afirma que continua seletiva tanto na compra quanto na venda de propriedades, aproveitando a diversificação geográfica do portfólio para capturar oportunidades pontuais.
Um trimestre fraco, dentro da lógica do negócio
O resultado do segundo trimestre do ano-safra 2025/26 refletiu essa combinação de sazonalidade e eventos pontuais. Além do avanço da receita líquida, a companhia registrou um lucro líquido próximo de R$ 3 milhões no período, revertendo um prejuízo de R$ 19 milhões no mesmo período na safra passada.
O avanço nos resultados foi reflexo de uma venda de estoques de uma produção da temporada 2024/25 e que foram sendo vendidos ao longo dos seis primeiros meses da safra atual (de julho a dezembro do ano passado)
A empresa vendeu 97% da soja estocada nesse intervalo, além de 47% do milho e 33% do feijão que possuía ao final de junho de 2025. No acumulado da safra até agora, a receita líquida total soma R$ 470 milhões, 27% menor em um ano. Isso se deve a uma venda da Fazenda Alto Taquari, em MT e realizada ao final de 2024.
No acumulado de seis meses, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) somou cerca de R$ 70 milhões, abaixo dos R$ 90 milhões registrados no mesmo intervalo do ano anterior.
“Operacionalmente, esperávamos um Ebitda maior neste semestre. Isso só não aconteceu por causa do impacto inesperado na cana”, afirmou Lopez. Segundo ele, sem os efeitos da geada e do incêndio, o desempenho operacional teria superado o do ano anterior.
Resumo
- Com 169,8 mil hectares plantados em 2025/26, a companhia reduziu a área de algodão e ampliou o foco no milho, além de já ter comercializado cerca de 60% da soja a um câmbio próximo de R$ 6 por dólar
- Com 169,8 mil hectares plantados em 2025/26, a companhia reduziu a área de algodão e ampliou o foco no milho, além de já ter comercializado cerca de 60% da soja a um câmbio próximo de R$ 6 por dólar
- A BrasilAgro elevou a receita em 25% entre outubro e dezembro, para R$ 191 milhões, puxada pela venda de estoques da safra 2024/25, em um trimestre tradicionalmente fraco do ponto de vista operacional