Diante da escassez de terras no Sul, as grandes cooperativas do Paraná avançam com suas operações para outras regiões do Brasil, acompanhando cooperados em busca de novos pólos agrícolas no País.

Não por acaso, a Castrolanda, cooperativa com sede em Castro (PR), participa desse movimento. Criada nos anos 1950 por imigrantes holandeses que se estabeleceram na região, a cooperativa surgiu a partir da produção de leite e da organização coletiva dos produtores. Ao longo das décadas, firmou-se como uma das mais fortes do Paraná tanto na cadeia do leite quanto na produção de grãos.

Depois de consolidar sua atuação nos Campos Gerais do Paraná, os holandeses da Castrolanda agora avançam sobre o Matopiba, a nova fronteira agrícola do País, formada por áreas dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

O movimento vem se materializando desde o ano passado com a instalação de um entreposto de recebimento de grãos em Colinas do Tocantins, na região de Araguaína, que começa a ganhar formas mais concretas no início deste ano.

As obras, que começaram em maio do ano passado, estão a pleno vapor e a expectativa, segundo Diego Van Helvoort Alves da Cruz, especialista em estratégia e projetos da Castrolanda, é de que parte da estrutura esteja operando a partir de julho deste ano, para que seja possível atender os cooperados já na safra 2026/2027.

“O fornecimento de insumos e sementes deve estar operando próximo a julho, para fornecer insumos e sementes aos produtores, e o recebimento de grãos deve estar funcionando a partir de janeiro de 2027”, diz Cruz, que conversou com o AgFeed por telefone, falando do canteiro de obras, que vêm avançando em várias frentes simultâneas.

Apesar da distância da sede da cooperativa – o município de Colinas está a 1868 km de Castro – a separação geográfica não foi um empecilho para o andamento das obras.

“A etapa de infraestrutura está mais adiantada, com cerca de 85% concluídos, incluindo terraplanagem e drenagem. As obras civis da área operacional seguem em andamento, assim como a parte civil dos prédios de insumos e sementes. Nesta semana, teve início a montagem dos equipamentos, com a instalação dos silos”, explica o executivo.

O projeto está recebendo um investimento de R$ 124 milhões e envolve a instalação de unidade com capacidade estática inicial de 44 mil toneladas de grãos, com operação voltada à recepção, secagem, armazenagem e comercialização de grãos, com dois fluxos simultâneos de recebimento, possibilitando uma capacidade operacional próxima de 5 mil toneladas por dia. No futuro, se a cooperativa desejar, a unidade poderá ser ampliada para ter capacidade de receber até 100 mil toneladas de grãos, ressalta Cruz.

A estrutura inclui ainda quatro silos pulmão de 1,3 mil toneladas cada e dois secadores, fabricados pela Kepler Weber, com capacidade de 240 toneladas por hora em cada um, projetados para atuar com a alta umidade da soja no período de safra.

Além da área de grãos, a unidade contará com um armazém de insumos de aproximadamente 600 metros quadrados, com capacidade estimada de atendimento a 18 mil hectares.

O projeto do entreposto prevê ainda um armazém de sementes, que terá cerca de 1 mil metros quadrados, estrutura refrigerada e com previsão de espaço para futura implantação de tratamento de sementes.

Também está projetada uma estrutura de pós-colheita para receber os grãos dos produtores e proceder com o beneficiamento e a armazenagem de futura expedição dos grãos.

A estrutura, segundo Cruz, é diferente de outros armazéns montados pela Castrolanda até então, e adota o modelo de “nível zero”.

A ideia é que poços, túneis e equipamentos como moegas, elevadores, secadores e silos sejam implantados acima do nível do solo, sendo acessados por meio de escadas. “Com isso, reduzimos drasticamente o número de espaços confinados na unidade e isso dá muito mais segurança para os colaboradores, além de facilidades na manutenção e limpeza da estrutura”, explica o executivo.

A intenção da Castrolanda é que o projeto sirva como “unidade-conceito” a ser aplicado em novas estruturas da cooperativa daqui em diante.

No atual estágio da obra trabalham 150 funcionários, contingente que deve ser ampliado em breve para 250 trabalhadores quando o projeto entrar nas fases de construção civil, terraplanagem e montagem das estruturas. Quando a unidade entrar em operação completa, a expectativa da Castrolanda é de que sejam gerados 34 empregos diretos.

O executivo afirma que a cooperativa chegou a avaliar a instalação da unidade em outros estados como Maranhão, Mato Grosso e Roraima, mas optou pelo Tocantins por fatores como aptidão agrícola, presença de cooperados, atuação da Fundação ABC – organização que pesquisa sementes mantida pela Castrolanda e também pelas cooperativas Capal e Frísia – além de custo da terra, segurança jurídica e logística. “Também avaliamos onde poderíamos ser protagonistas”, resume Cruz.

A nova estrutura, conta o executivo, veio também para atender a um pedido dos associados, que pretendem seguir expandindo sua produção, mas já não encontram terras disponíveis no Paraná – por isso, então, a ideia de “subir o mapa” e avançar sobre novas fronteiras agrícolas.

“Os cooperados buscavam maior disponibilidade de terra, preços mais acessíveis, fora das áreas que já atuavam, que eram Paraná e São Paulo”, diz. “Alguns cooperados, inclusive, já estavam expandindo de maneira independente.”

Cruz diz que já há cooperados da Castrolanda no entorno do município de Colinas, atuando de maneira isolada ou em condomínios rurais, mas que a cooperativa busca novos associados.

“Estamos num movimento forte de prospecção de novos cooperados na região e também de trazer os nossos cooperados em grupos de visita para mostrar como é a região e o seu potencial, para que eles tenham oportunidade de expandir suas áreas para cá”, afirma.

Até aqui, alguns associados que já se instalaram na região têm tido resultados positivos no campo. Cruz cita o caso de um produtor que colheu 82,4 sacas de soja por hectare na safra 2024/2025, acima de uma meta prevista de 68 sacas por hectare.

“Isso mostra um potencial bastante grande na área, mesmo com condições distintas do Sul e um solo bastante diversificado, às vezes com cascalho, outras vezes com areia e, às vezes, mais argiloso. Mas, ainda assim, com um manejo bem adequado, e uma assistência técnica muito boa, é possível recolher bastante volume de produção”, assegura.

Além da produção de grãos, a Castrolanda avalia também entrar na produção de cacau na região de Colinas, segundo Cruz.

Por ora, diz o executivo, estão sendo feitos apenas estudos de viabilidade, para entender o mercado. “A gente primeiro tem que entrar e conhecer melhor o mercado e a região para pensarmos em projetos futuros”, salienta o executivo.

Receita recorde

A Castrolanda atravessa um momento positivo. Depois de faturar R$ 5,4 bilhões em 2024, deve encerrar o ano de 2025 com "números recordes" em seus resultados, segundo Cruz, que salienta que os dados finais serão divulgados nas próximas semanas.

Paralelamente ao avanço das obras para o entreposto no Tocantins, a companhia vai iniciar, no próximo dia 2 de fevereiro, um sistema de intercooperação no setor de sementes em parceria com a cooperativa Frísia, de Carambeí (PR). O projeto já havia sido antecipado por Willem Bouwman, presidente da Castrolanda, em entrevista ao AgFeed em 2024.

A ideia é unir esforços e a tradição das marcas Sementes Batavo, da Frísia, e Sementes Castrolanda, além de ativos como um laboratório de sementes e uma unidade de beneficiamento da Frísia localizados em Ponta Grossa (PR), além de outra unidade localizada em Tibagi, também no Paraná, às estruturas da Castrolanda, que possui unidades de beneficiamento em Castro e Itaberá (PR).

Somando as duas operações, serão mais 2 milhões de sacas comercializadas de sementes de soja, trigo, feijão e cevada.

A Castrolanda já tem know-how no sistema de intercooperação, em que várias cooperativas se unem para somar esforços e operações.

Com a Frísia, a cooperativa criou em 2017 a Unium, sistema de intercooperação que também conta com a parceria da Capal, de Palotina (PR).

Somente em 2024, segundo dados mais recentes divulgados pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), a Unium recebeu 1,4 bilhão de litros de leite, figurando como terceiro maior receptor de leite do Brasil, à frente, portanto, de grandes nomes do mercado como as companhias Nestlé e Tirolez e a cooperativa CCPR, entre outros.

A Unium também participou da construção da Maltaria Campos Gerais, inaugurada em junho de 2024, projeto que contou também com a participação de Frísia, Capal, Agrária, Bom Jesus e Coopagrícola e recebeu investimentos de R$ 1,6 bilhão para sua criação.

A fábrica tem capacidade de produção de 240 mil toneladas de malte por ano e fornece produto para grandes indústrias de bebidas como Ambev e Heineken. Além das estruturas de leite e cevada, a Unium também opera um moinho de trigo, o Herança Holandesa.

Resumo

  • Diante da escassez de terras no Sul, cooperativas do Paraná avançam para novas fronteiras agrícolas, acompanhando associados que buscam áreas mais disponíveis e competitivas
  • Castrolanda lidera esse movimento rumo ao Matopiba e investe R$ 124 milhões na construção de um entreposto de grãos em Colinas do Tocantins
  • As obras, iniciadas em maio de 2025, estão avançadas, com as operações previstas para começar entre julho deste ano e janeiro de 2027; unidade tem capacidade inicial de 44 mil toneladas, podendo chegar a 100 mil toneladas