As nuvens que formaram a tempestade no mercado de Fiagros nos últimos anos começam a se dissipar.
Depois de a XP sinalizar uma retomada no mercado na metade de 2025, alguns players começaram a testar o bom humor dos investidores no segundo semestre. A Riza Asset captou R$ 400 milhões em um fundo de terras, a Suno levantou quase R$ 60 milhões em um follow-on do seu Fiagro de fazendas e a própria XP colocou de pé um Fiagro de R$ 150 milhões.
Agora é a vez da gestora Valora ir ao mercado. A empresa divulgou prospectos da primeira emissão de um novo Fiagro, que tem como objetivo captar R$ 450 milhões, com um lote adicional, caso haja demanda, de mais 25%, fazendo o fundo chegar a cerca de R$ 562,5 milhões.
Batizado de Valora Agro Pré I, o fundo é estruturado em um modelo master-feeder, no qual esse Fiagro (feeder) atua como veículo de captação para um fundo master. A oferta é coordenada pela XP e conta com administração do Banco Daycoval. A Cescon Barrieu assessora juridicamente a XP e a Madrona Advogados, a gestora Valora.
O fundo deverá alocar os recursos captados em títulos do agro como CRAs, CRIs lastreadas em imóveis rurais, CPRs, LCAs e cotas de outros fundos dedicados ao setor.
Como referência inicial, a gestora apresentou um pipeline possível de investimentos que soma cerca de R$ 560 milhões distribuídos em cerca de 20 operações.
As transações em análise envolvem diferentes perfis de tomadores, mas indicam uma preferência por um portfólio composto por títulos de produtores de grãos. Além disso, o fundo sinaliza que deve comprar dívidas de cooperativas, indústrias de insumos, frigoríficos e usinas sucroenergéticas. Diferente de outros fundos da casa, o veículo não deve investir em distribuidoras de insumos.
As operações mapeadas no pipeline indicativo têm, em sua maioria, remuneração atrelada ao CDI, com spreads adicionais que variam, em média, entre 3,35% e 5,20% ao ano, e prazos que vão de 24 a 60 meses (dois a cinco anos). A oferta é destinada ao público em geral.
Com cerca de R$ 20 bi sob gestão, a mais notória atuação da Valora no agro se dá pelo seu Fiagro listado, o VGIA11. Assim como foi com o restante do mercado de fundos listados, o veículo também viu suas cotas se recuperarem em 2025, e fechou o ano com uma valorização de cerca de 20%.
Dono de um patrimônio líquido de mais de R$ 840 milhões, aloca principalmente em cooperativas como Cotribá e em distribuidoras de insumos como a Fiagril. O portfólio ainda conta com CRAs da Ubyfol, Languiru e Belagrícola.
Nos últimos anos, parte desse portfólio foi alvo de problemas financeiros. A primeira empresa desse rol foi a Languiru em 2023, que repentinamente pediu uma carência aos credores. Depois de muita negociação, a Valora fechou acordo sem deságio sobre valor da dívida.
Já no final de 2025, empresas que continham dívidas dentro do fundo começaram a ter problemas, ou pelo menos foram alvo de boatos.
A primeira foi a Belagrícola, que protocolou seu plano de recuperação extrajudicial no início de dezembro. No último relatório gerencial do VGIA11, referente à novembro, a Valora cita que negociou nos últimos meses com a companhia novas condições, mencionando que a Belagrícola sofreu "desafios econômicos nos últimos dois exercícios por fatores micro e macroeconômicos".
"Uma das vantagens de controlarmos operações estruturadas como esta é exatamente a capacidade de adaptá-las a novas condições que se façam necessárias em situações como a presente", cita a Valora no relatório de novembro.
A empresa tem como principal acionista a chinesa Pengdu, controladora da Fiagril, também envolvida em rumores de dificuldades financeiras no final do ano passado. A Fiagril, enretanto, negou publicamente esses rumores e e citou que "as obrigações vinculadas aos CRAs lastreados em direitos creditórios da companhia permanecem vigentes e integralmente adimplentes".
A cooperativa gaúcha Cotribá é outra que não vive seus melhores dias. Entre o final de novembro e o início de dezembro do ano passado, a empresa viveu um cenário de crise financeira, atraso nos pagamentos e pressão nos produtores, que culminou em uma tutela cautelar.
Procurada pela reportagem, a Valora não comentou. A gestora está em período de silêncio devido ao início da oferta do novo fundo.
Resumo
- Valora lança FIagro mirando captar R$ 450 milhões, com lote adicional de 25% que pode levar a oferta a R$ 562,5 milhões, em um modelo master-feeder coordenado pela XP
- Pipeline indicativo soma cerca 20 operações, majoritariamente em CRAs, CPRs e LCAs de produtores de grãos, cooperativas, indústrias de insumos, frigoríficos e usinas
- Gestoras voltam a testar o apetite do investidor após um período de retração, com novas emissões de Fiagros ganhando tração desde o segundo semestre de 2025