Após mais de 25 anos de negociações, a União Europeia aprovou o acordo comercial com o Mercosul. O momento não é coincidência. O acordo chega em um momento de profunda inflexão na ordem econômica e geopolítica global — e é exatamente isso que lhe dá relevância.
O comércio internacional não é mais apenas um instrumento de eficiência econômica. Tornou-se um vetor de segurança, poder e posicionamento estratégico.
O mundo que habitamos hoje é marcado por fragmentação, rivalidade tecnológica e crescente tensão geopolítica. Nesse contexto, um acordo que conecta Mercosul e a União Europeia cria um dos maiores e relativamente desimpedidos espaços econômicos do planeta, abrangendo mais de 750 milhões de pessoas.
Escala, previsibilidade e integração produtiva tornaram-se ativos escassos — e este acordo entrega os três.
Por isso, o acordo Mercosul–UE não deve ser visto apenas como um exercício de corte tarifário ou um conjunto de cotas. É, na verdade, um projeto de arquitetura econômica.
Ao estabelecer regras, disciplinas e mecanismos de resolução de disputas compartilhados, cria-se previsibilidade — possivelmente a moeda mais valiosa na volátil economia global de hoje.
A previsibilidade é decisiva para decisões de investimento de longo prazo. O comércio gera fluxos. O investimento gera transformação estrutural.
O impacto mais consequente desse acordo, portanto, estará não apenas na redução das tarifas, mas nos incentivos que ele cria para investimentos, integração da cadeia de valor e modernização do ambiente de negócios.
Estive diretamente envolvido nas negociações quando o acordo foi tecnicamente concluído em 2019. Na época, esperava-se que a ratificação viesse rapidamente. Isso não aconteceu.
Mudanças políticas na Argentina, uma fase mais protecionista em partes da América do Sul, resistência interna dentro da Europa e, logo depois, a pandemia de Covid-19 contribuíram para atrasos. Mas a variável decisiva tem sido a geopolítica.
Desde 2019, a intensificação da rivalidade EUA-China transformou fundamentalmente as cadeias de suprimentos globais. Mais recentemente, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA — com uma agenda explícita orientada por tarifas — acelerou a tomada de decisões estratégicas na Europa.
O que antes era desejável tornou-se necessário. Negociadores europeus há muito expressaram preocupação em serem reféns de decisões unilaterais de uma única potência.
A resposta foi clara: aprofundar acordos robustos e baseados em regras entre as regiões. O acordo com o Mercosul foi transferido da gaveta para a mesa porque se tornou um imperativo estratégico.
Não há vácuos na geopolítica. Se o Mercosul não conseguir se integrar aos mercados premium por meio de acordos abrangentes, outros ocuparão esse espaço — muitas vezes em termos menos favoráveis em áreas como propriedade intelectual, disciplina regulatória, concorrência e compras governamentais.
O risco de inação era o isolamento gradual do Mercosul das cadeias globais de maior valor agregado. Esse acordo mitiga esse risco e reposiciona a região em um nível mais sofisticado de inserção econômica internacional.
Dito isso, o texto final não é idêntico à versão acordada em 2019. A reabertura das negociações resultou em reveses significativos. A extinção gradual das tarifas no setor automotivo foi estendida para até 25 anos, diluindo os ganhos de eficiência. O capítulo de compras governamentais perdeu ambição, apesar do potencial de aumentar a transparência, reduzir custos e aumentar a concorrência.
Essas concessões tornam o acordo menos ambicioso do que poderia ter sido.
Mesmo assim, os ganhos econômicos continuam significativos. O acordo representa um avanço estrutural para a economia do Brasil, especialmente para consumidores, exportadores e para a modernização produtiva de longo prazo do País.
Também é provável que isso gere um viés positivo nos fluxos de investimento estrangeiro direto europeu para o Mercosul.
Na agricultura, apesar da ambição limitada das cotas de carne, o acordo proporciona uma abertura substancial de mercado. A UE reduzirá tarifas para zero em aproximadamente 80% das linhas tarifárias agrícolas brasileiras ao longo de até dez anos.
Isso não é pouca coisa em um dos mercados agrícolas mais protegidos do mundo. Para o agronegócio brasileiro, isso significa maior previsibilidade, acesso mais amplo e melhores condições de planejamento de longo prazo.
Para a indústria, o design é equilibrado. Uma grande parcela das exportações industriais brasileiras verá as tarifas eliminadas no curto prazo, aumentando a competitividade externa.
Ao mesmo tempo, as próprias reduções tarifárias do Brasil seguirão um longo e generoso cronograma de transição, permitindo que as empresas tenham tempo para se adaptar, investir e aumentar a produtividade.
Evitar choques abruptos é essencial para que a liberalização comercial se traduza em ganhos sustentáveis.
Um dos elementos menos discutidos — porém mais estratégicos — do acordo está em suas regras de origem. As regras flexíveis negociadas em 2019 têm o potencial de aumentar significativamente a competitividade da indústria brasileira, que continua entre as mais protegidas do mundo.
Ao permitir maior uso de insumos de múltiplas origens sem perda de acesso preferencial, essas regras facilitam a integração nas cadeias de valor europeias, atraem investimentos e apoiam a produção de bens de maior valor agregado.
Padrões ambientais são frequentemente citados como uma possível barreira na Europa. Eles podem realmente ser — mas também podem se tornar uma vantagem competitiva.
O Brasil, por exemplo, é uma potência ambiental e agroindustrial. Em muitos aspectos, é um grande exportador de sustentabilidade.
O que tem faltado não é desempenho, mas comunicação. À medida que o acordo entra em vigor, o Brasil deve intensificar seu engajamento com parceiros europeus para transmitir suas credenciais ambientais.
Em áreas como agricultura sustentável, biocombustíveis, hidrogênio verde, energia renovável e minerais críticos, o Brasil está bem posicionado para sair mais forte.
Persistem preocupações de que a indústria brasileira possa enfrentar dificuldades com a concorrência europeia. A competição exerce pressão. A proteção permanente anestesia.
O acordo prevê longas transições e liberalização gradual. Mais importante ainda, cria condições para que o capital europeu invista no Brasil e produza para os mercados globais a partir do solo brasileiro.
O verdadeiro ganho não está em uma disputa de soma zero entre importações e produtores nacionais, mas sim na integração produtiva, tecnológica e financeira.
A oposição francesa ao acordo chamou atenção, mas está em grande parte enraizada na política interna. A agricultura europeia — especialmente na França — é altamente especializada, e a concorrência direta com o Mercosul é limitada.
Enquanto isso, empresas industriais francesas, bancos, empresas de energia e consultorias receberam bem o acordo. A oposição é mais simbólica do que estrutural.
Isso me leva ao que chamo de "ESG 2.0". Hoje, ESG significa Economia, Segurança e Geopolítica. Um acordo que expande mercados e investimentos, reduz vulnerabilidades no fornecimento de alimentos e energia e fortalece alianças baseadas em regras está praticando o novo ESG.
O acordo Mercosul–UE é um dos poucos no mundo que aborda as três dimensões simultaneamente. Funciona como uma forma de seguro contra a incerteza sistêmica.
No entanto, acordos comerciais não geram benefícios por si só. Os países precisam se adaptar a eles.
A preparação do setor produtivo brasileiro continua desigual. A mobilização do setor privado — especialmente organizações que apoiam pequenas e médias empresas — será decisiva. Sem ela, o país corre o risco de ver a oportunidade passar.
Em última análise, o maior valor do acordo está em seu potencial de catalisar a reforma interna. Maior exposição à concorrência internacional intensifica a pressão por reforma tributária, previsibilidade fiscal, melhoria da logística, certeza regulatória e inovação.
O acordo abre portas, mas não substitui as reformas. O acordo comercial mais importante que o Brasil precisa assinar é consigo mesmo.
Se o Brasil fizer sua parte, o resultado será uma economia mais produtiva, integrada e resiliente. Se não o fizer, o país apenas terá assinado um bom acordo, sem colher seus benefícios.
Acordos comerciais não são panaceias. Eles amplificam a reforma — não a substituem.
Em uma frase, o acordo Mercosul–UE é o projeto mais ambicioso de integração competitiva do Brasil em uma geração — e uma aposta rara em cooperação, comércio e investimento em um mundo cada vez mais fragmentado.
Marcos Troyjo é Pesquisador Distinto no Instituto Insead Hoffmann e Bolsista de Liderança Transformacional na Universidade de Oxford. Ex-enviado de Comércio Exterior do Brasil e chefe de banco multilateral, foi negociador do Acordo UE-Mercosul. Atua como Consultor Global do Banco Europeu de Investimento (EIB) e integra o Conselho Consultivo da Global Neighbours.
O artigo foi publicado originalmente pela Global Neighbours.