O Brasil consome 13,5 milhões de toneladas de potássio por ano, um dos nutrientes fundamentais que a indústria de fertilizantes fornece aos agricultores.

O problema é que a produção nacional está restrita a uma única mina de potássio hoje ativa, pertencente a uma empresa da família dos irmãos Batista, a Stratos, como já mostrou o AgFeed, capaz de produzir somente 500 mil toneladas.

É por isso que no cloreto de potássio está o mais alto nível de dependência das importações. O Brasil traz de outros países 96% do que consome.

Uma gigante global da mineração está de olho neste mercado. A australiana BHP é a maior mineradora do mundo e sabe bem que o Brasil é o segundo maior consumidor de potássio do planeta, perdendo apenas para a China.

Desde o ano passado, executivos da BHP têm mantido conversas com empresários do agro brasileiro, mas ainda no modelo low profile.

O objetivo é mostrar que a mineradora – presente no Brasil desde a década de 1970, em Minas Gerais, com foco absoluto do minério do ferro – está pronta para ofertar em breve um volume gigantesco de potássio para o mercado brasileiro, marcando a sua estreia global no segmento de fertilizantes.

O projeto chamado Jansen prevê nada menos que US$ 15,3 bilhões de investimentos (o equivalente a cerca de R$ 76,5 bilhões pela cotação atual) na exploração de uma mina de potássio que fica em Saskatchewan, no Canadá.

Segundo a empresa, a mina está projetada para alcançar capacidade de produção anual de 8,5 milhões de toneladas por ano até 2035.

A primeira fase está 84% concluída e tem previsão de iniciar a produção na metade de 2027, provavelmente com 3,5 milhões de toneladas. A estimativa de investimento, somente nesta etapa, é US$ 8,4 bilhões

Já a segunda fase, com 16% de conclusão, tem a primeira produção esperada até o final de 2031.

A expectativa é de que também seja a “maior mina de potássio do mundo”, capaz de atender cerca de 10% do mercado global quando atingir sua capacidade total de produção.

É consenso na empresa que o Brasil será um dos principais clientes, não apenas pelo que já consome em fertilizantes, mas principalmente pelo potencial de crescimento na produção agrícola por aqui, nos próximos anos.

A companhia não fará venda direta aos agricultores. O modelo é B2B, ou seja, a chegada do produto será via importadores e grandes empresas do setor de fertilizantes.

“O nosso principal fornecedor de potássio hoje é justamente o Canadá”, explicou Cleber Vieira, sócio da Agroconsult e especialista em fertilizantes.

A estimativa é de que pelo menos a metade do que chega atualmente ao Brasil seja produto canadense, uma vez que só existem outros dois grandes fornecedores de potássio no mundo – Bielorrúsia, que é alvo de sanções internacionais, e a própria Rússia, que enfrenta desafios logísticos em meio à guerra com a Ucrânia.

Com a chegada da BHP ao mercado, a expectativa é de um maior consumo do produto canadense, em função do aumento na oferta.

Em tese, segundo Cleber Vieira, poderia haver redução de preço ou mesmo as cotações “pararem de subir” quando a oferta da BHP virar realidade, mas é algo difícil de afirmar com tanta antecedência em função das constantes surpresas no cenário geopolítico, que interferem no fluxo global dos fertilizantes.

Os nutrientes mais importantes para a agricultura são o famoso NPK – Nitrogênio, Fósforo e Potássio. Dos três, o que menos foi impactado pela guerra no Irã foi o cloreto de potássio. Ainda assim, houve alta de preços.

Há um ano o cloreto de potássio chegava no Brasil a cerca de US$ 300 por tonelada. Agora, está mais próximo dos US$ 400.

Ao contrário dos fertilizantes nitrogenados e dos fosfatados, ele não depende das matérias-primas que passam pelo Estreito de Ormuz, por isso não houve uma disparada tão expressiva nas cotações.

Porém, o potássio já sofria nos últimos anos com os problemas na Rússia e Bielorússia. Com o conflito entre Estados Unidos e Irã, houve um aumento no custo do frete internacional, o que acabou causando também a alta de preços neste produto.

A pretensão da BHP é se transformar em uma das principais produtoras de potássio do mundo até o final da década.

Com ações negociadas na bolsa australiana, a empresa lembra que a vida útil da mina está estimada em 60 anos. A previsão é que Jansen 1 e 2 ajudem a gerar cerca de US$ 1 bilhão por ano em EBITDA por fase (somando cerca de US$ 2 bilhões/ano na capacidade total), considerando o preço de consenso de longo prazo de US$ 330/t.

Desafios da empresa no Brasil

Com 140 anos de existência, globalmente, no Brasil a BHP se concentrou nas últimas décadas ao mercado de minério de ferro, onde enfrentou desafios importantes.

Na prática, a presença da australiana até hoje se deu por meio da Samarco, uma joint-venture que tem 50% da Vale e 50% da BHP.

Em 2015, houve o rompimento de uma barragem da Samarco em Mariana (MG), tragédia que causou 19 mortes e deixou centenas de famílias desabrigadas.

Desde lá a empresa fez aportes bilionários nas ações de reparação e compensação ambientais e sociais na região, após amplos acordos com governos e a população.

As atividades de mineração foram retomadas aos poucos nos últimos 5 anos e hoje a Samarco já opera com 60% da capacidade no local, porém não utiliza mais sistemas de barragens em sua produção. A tecnologia mais moderna estaria demandando investimentos de R$ 13 bilhões.

Executivos da empresa enxergam três grandes prioridades no Brasil, atualmente. A primeira é seguir 100% comprometidos com as ações de reparação. A segunda é avançar para que seja retomada e normalizada a produção de minério de ferro, que chegou a ficar totalmente paralisada entre 2015 e 2020.

O terceiro pilar é o que agora chama de “preparação da chegada do potássio do Canadá no Brasil”. A empresa vai operar com uma commodity que até então não fazia parte do negócio. Além do minério de ferro, a BHP também tem forte presença na produção de cobre, com uma grande mina no Chile.

É por isso que um time comercial da BHP desde o ano passado se dedica à abertura do mercado de fertilizantes no Brasil, em busca de contratos com empresas que precisam do potássio e também com potenciais distribuidores.

O AgFeed apurou as parcerias comerciais estão em fase de negociação e, até o momento, nenhum contrato foi assinado. A empresa não revela com quem estaria negociando, mas há grandes chances de que players importantes como Yara e Mosaic estejam entre os alvos.

Em janeiro de 2025, uma reportagem do jornal Valor Econômico sinalizou que o primeiro navio com potássio da BHP no Brasil chegaria até o início de 2027. Agora, segundo a apuração do AgFeed, o início da produção no Canadá está previsto 2027 e, por isso, as primeiras cargas nos portos brasileiros são viáveis apenas para 2028.

E o potássio brasileiro?

Ao contrário de outros países pelo mundo, o Brasil ainda seguirá ampliando a área plantada nos próximos anos e, consequentemente, demandando mais fertilizantes.

“A tendencia é que o Brasil se torne o principal mercado de cloreto de potássio em poucos anos, porque todas as culturas, incluindo soja, milho, algodão, utilizam esse produto”, lembrou Vieira, da Agroconsult.

Pelos cálculos do analista, o consumo brasileiro de potássio poderá subir dos atuais 13,5 milhões de toneladas para 16 milhões de toneladas no prazo de 3 anos.

“Todo grande investimento (como esse da BHP) tem como driver motivador o mercado brasileiro, já que o chines e o americano tendem a ficar estáveis”, pontuou.

Seria então a BHP uma candidata em potencial para explorar as reservas de potássio que o Brasil tem na Amazônia?

As fontes ouvidas pelo AgFeed acreditam que não, por vários motivos. Um deles é foco absoluto que a empresa australiana terá em viabilizar comercialmente o projeto bilionário do Canadá, que foi planejado ao longo de 22 anos.

Mas a principal razão para descartar essa hipótese é o altíssimo capital necessário para tirar o projeto brasileiro do papel, com muitas dúvidas quanto à viabilidade do retorno financeiro e em qual prazo.

Algumas vezes o AgFeed já destacou o projeto da Brazil Potash, que envolve investimentos de US$ 2,5 bilhões para iniciar a produção de potássio em Autazes, na Amazônia. Várias etapas complicadas como o licenciamento ambiental foram vencidas, mas entre as dificuldades esteve sempre a captação do total de recursos necessários para finalizar o projeto.

Mercado em queda

Além das incertezas citadas, o ano de 2026 vem sendo marcado pela redução nas entregas de adubos aos agricultores brasileiros, em meio à decisão do produtor de aplicar menos fertilizante e garantir uma margem viável no negócio.

Dados divulgados nos últimos dias pela Anda – Associação Nacional da Difusão de Adubos – mostraram queda de 22,3% nas entregas de fertilizantes em julho na comparação com o ano passado. No semestre, o recuo é de 8,8%.

A previsão da Agroconsult é que as vendas de adubos diminuam cerca de 12% este ano, na comparação com 2025. O volume chegaria em cerca de 45 milhões de toneladas. Nos fosfatados, a queda deve ser de 20%. Fábricas destes produtos vem sendo paralisadas no País e também há recuo nas importações de fertilizantes fosfatados.

Já o potássio, alvo na BHP, deve terminar o ano com estabilidade no consumo em relação ao ano passado. Além de não ter registrado alta tão intensa de preços, nos fertilizantes potássicos a visão do comprador é de que há mais segurança no fornecimento, à medida que não há dependência de países acostumados a “mexer” com a oferta e a demanda, como China e região do Oriente Médio.

Resumo

  • Mineradora australiana BHP está investindo US$ 15,3 bilhões em mina de potássio que poderá ser a maior do mundo
  • Empresa conta com demanda da agricultura brasileira para absorver parte de um total de 8,5 milhões de toneladas que serão produzidas quando capacidade máxima for atingida
  • Brasil é o segundo maior consumidor global de potássio e poderá demandar 16 milhões de toneladas nos próximos três anos