A Mantiqueira Alimentos está ampliando seu repertório no mercado de capitais. Maior produtora de ovos da América do Sul, que tem a a JBS entre seus acionistas, protocolou na CVM na quinta-feira, 15 de outubro, os termos e condições de sua primeira emissão de Cédulas de Produto Rural com Liquidação Financeira (CPR-F) para distribuição pública.
O documento projeta uma captação de R$ 500 milhões, com emissão marcada para esta sexta-feira, 16 de outubro, e vencimento em sete anos.
A emissão será feita em série única de 500 mil CPR-Fs, com remuneração de 94% da Taxa DI, paga semestralmente, sempre em 16 de abril e 16 de outubro.
O principal será amortizado em quatro parcelas anuais iguais a partir de outubro de 2030, culminando no vencimento de 2033. A partir de outubro de 2028, a companhia poderá liquidar antecipadamente os títulos, pagando prêmio decrescente de 0,50% a 0,20% ao ano conforme a data.
O lastro é a própria produção de ovos da companhia. São 2.649.007 caixas de ovos valorados a R$ 188,75 cada, conta que fecha praticamente nos R$ 500 milhões da emissão.
A operação conta com fiança bancária do Banco Bradesco, o Bradesco BBI como coordenador líder da colocação, a Vórtx como agente de CPR-F e o Itaú Unibanco como banco liquidante e escriturador.
Os recursos, segundo o documento, serão destinados à produção, comercialização e processamento de produtos agrícolas.
Dois detalhes estruturais da emissão chamam atenção. O primeiro é uma cláusula de assunção de dívida que prevê a possibilidade de a JBS S.A. assumir integralmente as obrigações da emissão, tornando-se a nova emitente com a Mantiqueira como avalista.
O desenho que reflete o peso da gigante da proteína no capital da produtora de ovos e oferece conforto adicional aos investidores.
O segundo ponto é que o termo incorpora disposições socioambientais e anticorrupção completas, em linha com as exigências de governança do público profissional.
A operação é o terceiro capítulo recente da Mantiqueira no mercado de capitais — e o mais sofisticado até agora. Em agosto de 2025, a empresa havia captado outros R$ 500 milhões em uma CRA estruturado pela Ecoagro e coordenado por XP Investimentos e Bradesco BBI.
Em julho deste ano, voltou ao mercado com uma nova oferta de CRAs, desta vez de R$ 150 milhões, estruturada pela Eco Securitizadora e com coordenação-líder da XP. A emissão foi lastreada justamente em uma CPR-F emitida pela própria Mantiqueira.
A sequência revela uma progressão clara. Nos CRAs, a cédula da Mantiqueira servia de lastro dentro da estrutura de securitização. Agora, a companhia emite a CPR-F diretamente para distribuição pública, encurtando a cadeia.
A lógica econômica é eliminar camadas intermediárias para buscar reduzir custos de estruturação e a dar ao emissor acesso direto à base de investidores profissionais, ao mesmo tempo em que amplia o menu de instrumentos disponíveis para o passivo da companhia.
Outras empresas do agro tem seguido o mesmo caminho, deixando de acessar o mercado de CRAs por causa dos custos de capital mais elevados que esses títulos carregam.
A nova emissão direta de CPR-F reforça essa leitura. Em vez de recuar, a produtora de ovos está expandindo e refinando sua presença no mercado de dívida agro.
A captação se encaixa na fase de expansão acelerada que a companhia vive. Nos últimos meses, a Mantiqueira lançou a N.OVO, sua marca de consumo, e firmou parceria com a Bunge para a compra de soja rastreável e de baixo carbono, movimentos que exigem capital para sustentar o crescimento da produção e a verticalização rumo ao consumidor final.
Com um título de sete anos, com amortização só a partir de 2030, a companhia ganha um fôlego de prazo que instrumentos de curto prazo não oferecem.
A cláusula de assunção de dívida pela JBS, por sua vez, funciona como uma âncora de crédito: embora seja apenas uma possibilidade contratual, a existência do mecanismo sinaliza o alinhamento entre a produtora de ovos e sua acionista.
Resumo
- Mantiqueira Alimentos prepara sua primeira emissão pública de CPR-Fs, com captação prevista de R$ 500 milhões e prazo de sete anos
- Operação tem remuneração de 94% do DI, garantia bancária do Bradesco e lastro na produção de 2,65 milhões de caixas de ovos
- Emissão amplia as alternativas de financiamento da produtora, que já captou R$ 650 milhões em operações com CRAs desde 2025