Mesmo com a recente alta dos preços do açúcar nas bolsas internacionais, a XP Investimentos não está convencida que o mercado tenha precificado totalmente a produção mais fraca da commodity no Brasil ao longo desta safra, que poderá fazer com que as cotações permaneçam elevadas por mais tempo.
Em relatório divulgado ao mercado esta semana, a XP reforçou sua tese sobre o açúcar ao mesmo tempo em que cortou suas estimativas para os principais indicadores de produção da cana-de-açúcar na região Centro-Sul, principal região produtora do País.
A instituição agora projeta uma moagem de 613,5 milhões de toneladas de cana no atual ciclo agrícola, redução de 12,4 milhões de toneladas em relação à estimativa anterior.
A XP também diminuiu em aproximadamente 1,5 milhão de toneladas sua projeção para a produção de açúcar no Centro-Sul, que deve alcançar 36,9 milhões de toneladas na safra 2026/2027, queda de 8,8% em relação aos 40,4 milhões de toneladas produzidos no ciclo anterior.
"Em nossa visão, uma safra abaixo de 37 milhões de toneladas é difícil de conciliar com uma visão baixista [de preços] para o médio prazo, especialmente enquanto o mercado segue avaliando condições globais de oferta cada vez mais apertadas", disse a XP Investimentos em relatório divulgado esta semana.
A gestora reduziu também a projeção para a quantidade de açúcar total recuperável (ATR) das plantas em 2,3 kg por tonelada, somando ao todo 134,3 kg por tonelada, já que o excesso de precipitação vem prejudicando o acúmulo de sacarose na cana.
A redução reflete a combinação de uma moagem abaixo das expectativas iniciais e de uma menor concentração de açúcar na cana em função do aumento da ocorrência de chuvas no Centro-Sul.
Segundo a XP, o chamado mix açucareiro, que representa a proporção da matéria-prima destinada à fabricação de açúcar, deve ficar em 47% nesta temporada, abaixo dos 50,4% registrados na safra passada.
Na avaliação dos analistas, mesmo um direcionamento maior da matéria-prima para a produção de açúcar nos meses finais do ciclo não seria suficiente para compensar os efeitos da moagem mais fraca e da redução do ATR.
Essa combinação pode ter consequências importantes para o mercado internacional, uma vez que o Brasil é o maior exportador mundial de açúcar e exerce influência significativa sobre a formação dos preços da commodity.
A XP destacou que os contratos futuros de açúcar vêm registrando uma recuperação nas últimas semanas, acompanhando a percepção de que a oferta global poderá ser mais restrita do que se imaginava anteriormente.
O contrato com vencimento em março de 2027, negociado na Bolsa de Nova York, acumulou valorização de aproximadamente 12% ao longo do último mês, estima a XP.
"O movimento foi sustentado por uma entrega menor do que o esperado na bolsa, sinais de melhora marginal da demanda, deterioração das perspectivas de produção na Europa e crescente reconhecimento de que a safra brasileira de 2026/27 pode ficar abaixo das estimativas anteriores", disse a casa do mercado financeiro.
Embora a melhora das perspectivas para a demanda também contribua para sustentar as cotações, a instituição considera que o principal fator por trás da valorização está no lado da oferta.
Isso porque as revisões negativas para a moagem de cana e para a qualidade da matéria-prima brasileira ocorrem simultaneamente à deterioração das perspectivas de produção em outros mercados exportadores relevantes.
"Mais importante, o mercado parece estar abandonando a premissa de que o Brasil seria capaz de compensar integralmente os problemas de produção observados em outras regiões exportadoras relevantes”, disse a XP.
“À medida que os impactos climáticos continuam apertando o balanço brasileiro e a Europa enfrenta mais uma safra decepcionante, os riscos para a oferta global permanecem inclinados para cima.”
Outro efeito do excesso de chuvas sobre os canaviais do Centro-Sul deve aparecer na próxima safra.
Com as dificuldades para avançar na colheita, parte da cana-de-açúcar que seria processada neste ciclo deverá permanecer no campo para ser colhida apenas em 2027/2028.
É a chamada cana bisada, quando a planta não é colhida na temporada prevista e permanece no canavial até o ciclo seguinte.
Segundo a XP, aproximadamente 27 milhões de toneladas de cana-de-açúcar poderão ser transferidas para a próxima safra, volume que deverá reforçar a disponibilidade de matéria-prima para as usinas.
Embora esse movimento contribua para reduzir a produção de açúcar na temporada atual, a instituição avalia que a cana bisada poderá proporcionar um impulso relevante à moagem e ao potencial de fabricação de etanol em 2027/2028.
Etanol
A precipitação mais elevada na principal região produtora de cana-de-açúcar do Brasil também levou a XP a revisar suas projeções para o mercado de etanol.
A instituição reduziu em aproximadamente 800 milhões de litros a estimativa de produção do biocombustível a partir da cana-de-açúcar, principalmente em razão da menor disponibilidade da matéria-prima e da queda na concentração de açúcares.
“Esperamos que a produção permaneça pressionada até o fim da safra, embora os níveis atuais de estoque ainda sejam confortáveis. Em termos ajustados sazonalmente, entretanto, os estoques continuam em queda, sugerindo que a demanda permanece saudável”, disse a XP.
Apesar da revisão, a produção total de etanol no Centro-Sul, considerando tanto o combustível fabricado a partir da cana como também o produzido com milho, deverá crescer 5% nesta temporada, alcançando 35,4 bilhões de litros, ante 33,7 bilhões de litros no ciclo anterior.
Parte desse crescimento está relacionada à expansão da indústria de etanol de milho, que vem ampliando sua participação na oferta brasileira de biocombustíveis.
Para o Centro-Sul, a XP projeta uma produção de 9,7 bilhões de litros de etanol de milho, crescimento de 6,7% em relação aos 9,2 bilhões de litros registrados na temporada passada.
Considerando todas as regiões do País, a produção do biocombustível fabricado a partir do cereal deverá chegar a 11 bilhões de litros, frente aos 9,8 bilhões de litros do ciclo anterior.
O avanço deverá ocorrer principalmente no segmento de etanol anidro, utilizado na mistura obrigatória à gasolina. A expectativa é que a produção nacional de anidro de milho cresça 33,1%, alcançando 5,6 bilhões de litros.
Já a fabricação de etanol hidratado de milho, comercializado diretamente nos postos de combustíveis, deverá registrar queda de 4,8%, para 5,4 bilhões de litros.
Resumo
- XP reduz projeção de moagem de cana no Centro-Sul para 613,5 milhões de toneladas, 12,4 milhões abaixo da estimativa anterior
- Produção de açúcar deve cair 8,8%, para 36,9 milhões de toneladas, pressionada pelo excesso de chuvas e pela queda do ATR
- Mesmo após alta de 12% nos contratos futuros, XP avalia que mercado ainda subestima aperto na oferta brasileira e vê preços elevados por mais tempo