A produtora brasileira de biocombustíveis FS — Fueling Sustainability - e o Mubadala Investment, fundo soberano de Abu Dhabi, estão avaliando comprar dívidas hoje em poder de credores da Raízen.

A informação é da Bloomberg, publicada na noite da segunda-feira, 27 de outubro, e atribuída a fontes próximas à companhia sucroenergética controlada em sociedade pelos grupos Cosan e Shell.

Segundo a reportagem, a FS já teria inclusive contratado o Morgan Stanley para assessorá-la na potencial aquisição. As conversas com os dois grupos estariam em estágio preliminar e não há garantia de que resultem em transação.

Caso se confirme a informação e um dos potenciais compradores avance para a aquisição, a transação pode representar um marco para todo o segmento bioenergético, criando uma potência de peso incontestável no mercado brasileiro e também com forte posicionamento no cenário global.

A Raízen ajuizou em março passado um processo de recuperação extrajudicial visando a renegociação de uma dívida bruta consolidada de mais de R$ 65 bilhões, restrita aos créditos financeiros quirografários.

O plano foi homologado em julho, formalizando a maior recuperação extrajudicial da história do País, e obteve adesão superior a 80% dos créditos abrangidos. Na semana passada, a companhia propôs aumento de capital privado de, no mínimo, R$ 3,5 bilhões, com emissão de novas ações a R$ 0,25 por papel e subscrição mínima de 14 bilhões de ações.

Como parte do plano de recuperação extrajudicial, os credores da Raízen concordaram com conversões de 45% da dívida em ações, que lhes dariam mais de 80% do capital da companhia.

Assim, comprar esses papéis antes da conversão significa, na prática, adquirir fatias majoritárias da maior produtora mundial de etanol e biomassa de cana-de-açúcar a preços de crédito em dificuldade, com um dos maiores descontos implícitos já vistos numa reestruturação brasileira de grande porte.

Mais que o tamanho de um possível cheque para a aquisição, importa o desenho que se forma se ele for assinado. O Mubadala Capital, braço de investimentos do fundo soberano, opera no Brasil desde 2021, quando começou a montar uma cadeia que vai da molécula de cana ao posto de combustível.

O primeiro passo desse movimento foi a compra da Atvos, em 2023. Uma das maiores produtoras de biocombustíveis do País, com oito unidades agroindustriais em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo, a companhia criada pelo grupo Odebrecht foi arrematada em um processo semelhante ao que o grupo estaria vislumbrando agora com a Raízen.

O fundo de Abu Dhabi comprou a empresa em meio a uma recuperação judicial, iniciada em 2019, com cerca de R$ 12 bilhões em dívidas. O Mubadala entrou com R$ 500 milhões por 31,5% do capital, via fundo FIP MC Green, e depois adquiriu mais 10% que estavam com a Novonor (antiga Odebrecht).

Em seguida, iniciou um processo de renegociação com credores e injetou outros R$ 500 milhões no negócio, encerrando a RJ ainda em setembro de 2023.

Desde então, os novos controladores investiram mais de US$ 1,5 bilhão na empresa. Os números da safra 2025/26 mostram uma companhia recuperada, mas ainda distante de atingir a sua plenitude operacional.

A Atvos processou 27 milhões de toneladas no ciclo, frente a 22 milhões de toneladas na safra 2023/2024, mantendo a mesma base territorial de 500 mil hectares. Sua capacidade instalada, no entanto, permite ampliar a moagem a cerca de 38 milhões de toneladas por safra.

A segunda frente do projeto do Mubadala para se tornar uma potência energética no País é a Acelen, que opera desde dezembro de 2021 a Refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde, na Bahia.

O ativo foi comprado da Petrobras por US$ 1,8 bilhão. A unidade processa entre 301 mil e 302 mil barris por dia, o equivalente a 14% da capacidade de refino do País, 42% do abastecimento do Nordeste e 80% da Bahia. É a segunda maior refinaria brasileira em volume médio processado, atrás apenas da Replan.

A partir da refinaria, o grupo deu início, em 2023, a um novo negócio, a Acelen Renováveis, com um projeto de US$ 3 bilhões para erguer uma biorrefinaria na Bahia com capacidade para 20 mil barris por dia — cerca de 1 bilhão de litros anuais de querosene de aviação sustentável e diesel renovável.

A matéria-prima escolhida para a produção é a macaúba, oleaginosa nativa da região Nordeste, mais ainda sem uso comercial e escala produtiva. Para viabilizar o plantio previsto de 144 mil a 180 mil hectares, priorizando áreas degradadas, a empresa precisou investir no desenvolvimento de novas variedades e na formação de uma cadeia de fornecimento, um processo ainda em curso.

O pacote de financiamento, de cerca de US$ 1,1 bilhão a US$ 1,15 bilhão, reúne US$ 520 milhões de bancos de desenvolvimento — IFC, IDB Invest, FinDev Canada, AIIB e BNDES —, US$ 310 milhões de bancos comerciais, debêntures locais de até R$ 422,6 milhões e linhas de crédito e liquidez complementares.

A decisão final de investimento saiu em maio de 2026, e a operação está prevista para 2028 ou 2029, conforme a fonte consultada. A visão declarada é de até cinco módulos de biorrefinaria, somando US$ 12,5 bilhões.

Somadas, Atvos e Acelen geraram cerca de R$ 53 bilhões de receita líquida e R$ 6,2 bilhões de Ebitda em seus últimos exercícios reportados.

Com um eventual controle da Raízen, o Mubadala Capital consolidaria no Brasil uma plataforma global de biocombustíveis financiada por receita de petróleo.

Uma aquisição desse porte teria, no entanto, que superar alguns obstáculos concretos. O primeiro seria uma análise do Cade. Adquirir influência sobre a Raízen reuniria sob o mesmo dono duas das maiores capacidades de moagem do País, num setor em que a disputa pela cana de fornecedores independentes é assunto recorrente no conselho.

O segundo seria uma possível resistência da Shell. Controladora de 44% da Raízen, a petroleira tem interesse estratégico direto em não ver a dona da rede de postos que leva sua marca ser absorvida por um fundo soberano que, no exterior, é também seu concorrente em combustíveis.

Por que a FS entra na conta

Um eventual interesse da FS na negociação teria lógica própria, distinta da do Mubadala. A companhia é a segunda maior fabricante de etanol de milho do Brasil e hoje soma três unidades em Mato Grosso (Lucas do Rio Verde, Sorriso e Primavera do Leste) com capacidade para produzir cerca de 2,5 bilhões de litros por ano.

Em maio deste ano, a Amaggi, maior empresa brasileira de grãos e fibras, adquiriu 40% do capital da FS, em operação que incluiu aporte de US$ 100 milhões por emissão primária de ações. Em junho, a FS obteve R$ 500 milhões do BNDES para uma nova planta, somando-se ao projeto de R$ 2 bilhões em Campo Novo do Parecis, com capacidade de 540 milhões de litros anuais.

Para a FS, comprar créditos da Raízen abriria uma ponte entre duas rotas que hoje competem mas se complementam: o milho do Centro-Oeste, de ciclo curto e safra na entressafra da cana, e a cana do Centro-Sul, com logística e distribuição já montadas.

Ambas, entretanto, passariam a jogar em um tabuleiro já com movimento feitos. Em junho passado, a IG4 Capital, gestora de Paulo Mattos, manifestou interesse em comprar dívida suficiente para assumir o controle da Raízen, num modelo semelhante ao que aplicou na Braskem, onde adquiriu 34,3% do capital após negociar com credores da Novonor.

Segundo a Bloomberg, a IG4 agora busca adquirir apenas créditos vinculados à Raízen Energia, divisão de açúcar e etanol, passando a disputar o pedaço mais nobre do ativo, exatamente o mesmo que interessa ao Mubadala e à FS

O plano de reestruturação da Raízen já prevê a segregação dos negócios em duas companhias com ações na B3, separando energia e combustíveis. Em 19 de outubro, a CVM deferiu pedido da Raízen Energia para listagem.

Resumo

  • FS e Mubadala avaliam adquirir créditos de credores da Raízen, que busca renegociar uma dívida bruta superior a R$ 65 bilhões
  • Mubadala pode ampliar sua plataforma de biocombustíveis no Brasil, que já reúne Atvos, Acelen e um projeto de biorrefinaria
  • Para a FS, controle da Raízen abriria uma ponte entre duas rotas de etanol que hoje competem mas se complementam: a do milho e a da cana