Uma das maiores empresas globais de defensivos agrícolas, a Adama, de origem israelense, promete uma nova ofensiva no mercado com lançamento de produtos e ações para reforçar as parcerias no acesso aos clientes.
O comandante desta operação é João Aleixo, que já passou por diversas multinacionais do setor, ocupando posições de liderança em diferentes países, e que desde o início de maio assumiu a posição de vice-presidente executivo da Adama no Brasil.
“O meu mandato é olhar para o crescimento da empresa e atuar no crescimento dela. A base está feita. A empresa tem 22 fábricas no mundo. Não somos um player de mercado que compra de alguém, a gente fabrica os nossos próprios ativos”, ressaltou Aleixo, em entrevista exclusiva ao AgFeed, sua primeira desde que está no posto.
Palavras como “qualidade, consistência e credibilidade” estão no discurso do CEO da Adama para reforçar ao mercado os diferenciais da companhia.
Desde 2011, a empresa é controlada por chineses. Hoje faz parte do Syngenta Group, que pertence à gigante estatal chinesa Sinochem, mas o executivo garante que as duas marcas são empresas completamente distintas e que não há nenhum tipo de interação ou alinhamento na estratégia de acesso ao mercado.
A Adama não lança novas moléculas, atuando no segmento de pós-patente, porém se caracteriza por trazer inovações por meio de novas misturas e formulações, além de produzir seus ativos em fábricas próprias, o que ocorre inclusive no Brasil, onde tem duas plantas, uma em Londrina (PR) e outra em Taquari (RS).
Essa é uma das características que a empresa espera reforçar junto aos clientes. O mercado vem sendo invadido por novos entrantes, muitos baseados na importação de defensivos genéricos e operações terceirizadas, para baratear custos.
“A gente não é uma empresa que vai comprando ativo de todo lugar e formula, coloca isso dentro de uma embalagem bonita e vende. A gente é uma empresa que faz toda a traçabilidade e garante que o produtor está comprando com uma confiabilidade altíssima”, afirma.
Assim como os principais representantes da indústria tradicional de defensivos, ele alerta para riscos que envolvem os novos concorrentes.
“Fazer o feijão com arroz bem feito e entregar bem feito já é um diferencial, porque tem muita gente vendendo arroz que não é arroz e vendendo feijão que não é feijão, o produtor tem que tomar muito cuidado. É uma questão de credibilidade”.
Inovação para voltar a crescer
O mercado desafiador para a indústria de insumos agrícolas nos últimos anos também refletiu nos negócios da Adama. Globalmente, a receita do setor de proteção de cultivos foi de US$ 3,73 bilhões em 2025, praticamente estável em relação ao ano anterior.
No Brasil, o faturamento da Adama ficou em R$ 3,56 bilhões no ano passado, uma leve queda na comparação com os R$ 3,66 bilhões de 2024.
Na conversa com o AgFeed, João Aleixo sinalizou que este ano a empresa está “crescendo acima do mercado”, mas com o atraso nas compras por parte dos produtores, o percentual deste avanço no ano ainda seria uma incógnita. “O mercado está atrasado, a gente tem 70 dias para fazer metade do faturamento do ano”.
A estratégia para retomar o crescimento “de forma sustentável”, segundo ele, passa pelos investimentos em inovação. “Nos próximos cinco anos a gente está lançando 25 novos produtos. A nossa inovação está ligada à formulação”, revelou o CEO.
Os produtos são desenvolvidos em centros de pesquisa que a companhia possui em Israel, na China, na Europa e no Brasil.
“A gente consegue investir, criar misturas, duplas, triplas, que têm sinergias, que entregam muito mais do que o produto sozinho, entrega lá no campo”.
Na previsão de 2027 estariam dois fungicidas e um inseticida. Este ano foram dois os lançamentos, sendo um deles o inseticida chamado “Galil nano”. “É uma nanotecnologia onde a efetividade do ativo é maior”.
Apesar dos investimentos recentes, 60% da receita da Adama no Brasil ainda vem da venda dos defensivos considerados “commodities”. No inseticida acefato, por exemplo, a empresa diz ser a maior produtora do mundo.
Aleixo afirma que a busca por maior participação dos produtos com inovação faz sentido, com chances de chegar a 50% cada segmento.
De qualquer forma, ele diz que a prioridade é desenvolver produtos que sejam uma demanda do agricultor e que gerem mais margem desde a fazenda, passando pela distribuição e chegando também a indústria. “A margem é consequência, ela é decorrente daquilo que você entrega”.
Com 150 pessoas no campo – são 650 colaboradores no Brasil – a empresa diz buscar sempre “ouvir” essa demanda do produtor, para antecipar as tendências de mercado.
Crédito e parceria
A estratégia de acesso ao mercado, reforçando parcerias com distribuidores e cooperativas, também faz parte da missão de João Aleixo.
Atualmente 50% das vendas da Adama são feitas por meio de revendas e distribuidores. Outros 30% são negócios com as cooperativas e o restante é o acesso direto aos produtores.
O CEO diz trabalhar especialmente com os parceiros que hoje têm um relacionamento com a empresa no modelo que ele chama de “diamante”, em que não há somente a compra e venda de um produto e sim uma interação mais ampla, em diferentes áreas.
Entre as oportunidades estaria uma possível oferta de crédito alternativo para os distribuidores, hoje ainda “machucados”, diz ele, por todo o cenário de restrição por parte dos bancos, em meio às recuperações judiciais.
“Hoje o sistema de distribuição tem 30% a menos de oferta de crédito. O produtor precisa comprar. E os 30% vêm de todo mundo, vêm do banco, da indústria. Então existe uma restrição de crédito do sistema de distribuição no Brasil”, alertou.
Aleixo pondera que as cooperativas, na maioria, saem fortalecidas porque têm lastro financeiro e um sistema melhor.
Algumas multinacionais do setor de defensivos agrícolas estão optando por oferecer crédito via fundos, como os FIDCS, de direitos creditórios.
Na opinião do CEO da Adama, essa modalidade ainda resulta em juros muito altos para quem vai tomar o empréstimo.
Por isso, ele conta que a companhia está em fase de testes para um modelo que possa suportar os canais de distribuição “com melhores linhas de crédito”, mas evita dar detalhes.
Hoje a companhia já faz operações de crédito com seus parceiros estratégicos, mas a ideia agora, segundo o executivo, é “ter algo mais competitivo”, com taxas menores, especialmente para os clientes “diamante”.
Apesar dos desafios, Aleixo garante que a inadimplência na Adama está abaixo de 1%. “Temos que cuidar para não morrer com o barulho da bala”, disse ele, a respeito das recuperações judicias no agronegócio, que ainda representariam um número muito baixo se comparado ao total de propriedades rurais no Brasil.
Virada de ciclo
O CEO da Adama acredita que o agro ainda deve viver “mais um ou dois anos de um mercado bastante estressado”.
Embora alguns preços tenham melhorado, como no caso da soja, ele avalia que o mercado pode estar apenas “precificando” os riscos do El Niño, algo que não necessariamente represente uma tendência imediata de virada no ciclo das commodities.
“A gente está em um ambiente onde o produtor não ganha dinheiro. Agora a soja deu uma aumentada, pessoal deu uma animada, mas basicamente você tem um achatamento das margens do produtor. O produtor que arrenda hoje está em uma situação complicada”.
Para enfrentar o cenário adverso, Aleixo diz que a ordem é tentar deixar a Adama com maior capacidade de ser ágil e se adaptar às mudanças. A lógica de qual momento do ano ocorre a compra, onde está o estoque, na indústria ou na distribuição, por exemplo, tem mudado. Cada vez mais as compras são feitas “da mão para a boca”, o que aumenta os desafios logísticos.
No milho há um cenário favorável, com a forte demanda do cereal para etanol, mas “nada que mude drasticamente o mercado”, pontuou.
Já o café ainda estaria com o “vento a favor”, na visão dele, mas em outras culturas, como a cana, também há problemas. Por isso, o executivo acredita que até 2028 permanece o cenário de desafios no mercado de insumos.
Resumo
- Novo CEO da Adama, João Aleixo, aposta em estratégia com mais inovação no portfólio e suporte aos canais de distribuição
- Multinacional de defensivos agrícolas prevê lançamento de 25 novos produtos nos próximos cinco anos
- Companhia estuda um mecanismo alternativo para oferecer crédito às revendas, prevendo um cenário "estressado" por mais um ou dois anos