Apesar do crescimento nas vendas de produtos de maior valor agregado, como cafés, biscoitos, massas e pescados, a Camil encerrou o segundo trimestre de 2026 com seu lucro líquido caindo quase pela metade na comparação com o mesmo período de 2025.
O movimento se explica pela retração dos volumes comercializados de produtos básicos e à pressão dos preços das matérias-primas, especialmente do arroz.
A companhia registrou lucro líquido de R$ 41,3 milhões no período, contração de 47,5% em relação aos R$ 78 milhões apurados no mesmo trimestre de 2025.
O Ebitda (sigla para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) também recuou, mas em menor intensidade, somando R$ 225,3 milhões, queda de 10,1% na comparação anual.
O desempenho reflete um cenário de contrastes entre as diferentes frentes de negócios da companhia.
Enquanto a linha de alto valor, que reúne cafés, biscoitos, massas e pescados de marcas como Amália, Coqueiro, União e Mabel, conseguiu ampliar as vendas, o segmento de alto giro, composto por produtos como arroz, feijão e açúcar, e as operações internacionais registraram retração nos volumes comercializados.
Além disso, a manutenção dos preços das matérias-primas, especialmente do arroz, em patamares baixos continuou pressionando os resultados, embora as cotações tenham apresentado “sinais iniciais” de retomada no fim do trimestre, salientou a Camil.
Já na linha de alto giro, o preço líquido médio chegou a R$ 3,89, avanço de 10% na comparação anual, mas a melhora não foi suficiente para compensar os demais fatores que afetaram o desempenho da companhia.
Com isso, a receita bruta da Camil somou R$ 3,2 bilhões, queda de 6,1% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a receita líquida recuou 7,2%, para R$ 2,7 bilhões.
Ao todo, a companhia comercializou 604,7 mil toneladas de produtos no trimestre, volume 4,6% inferior ao registrado um ano antes. A retração foi puxada principalmente pelos segmentos de alto giro, que retraiu 4,6%, somando 336 mil toneladas no período, e de vendas internacionais, que apresentaram queda de 8,3%, com 217,1 mil toneladas.
De acordo com a Camil, parte do resultado inferior do segmento de alto giro está relacionado à normalização dos volumes de açúcar frente a uma base elevada no ano anterior, que contou com exportações pontuais no período.
Por outro lado, o volume comercializado de grãos apresentou crescimento, movimento que, na avaliação da companhia, reflete os resultados de sua nova estratégia comercial.
No lado internacional, o resultado mais negativo reflete a pressão sobre os preços do arroz, que recuaram 18,3% na América Latina.
Houve queda de vendas principalmente no Uruguai, parcialmente compensada pelo crescimento das vendas no Chile, Peru e Equador.
Se os produtos básicos e as operações internacionais pressionaram os números da Camil, a linha de maior valor agregado seguiu na direção contrária.
O segmento, que reúne pescados, cafés, biscoitos e massas, registrou crescimento de 14,1% no volume de vendas, alcançando 51,6 mil toneladas no trimestre.
A expansão foi observada em todas as categorias, mas os principais destaques, segundo a companhia, foram os negócios de cafés e pescados.
Na avaliação da empresa, a categoria de cafés vem se desenvolvendo de forma consistente trimestre após trimestre, com ampliação do portfólio, inovações e expansão da presença em marca e canais.
Já em pescados, a Camil avalia que o crescimento reflete o fortalecimento da marca e a ampliação de distribuição em uma categoria que se beneficia da tendência de consumo saudável.
Alavancagem estável e despesas seguem em alta
Do ponto de vista financeiro, a relação de alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, permanece relativamente estável. No fechamento deste trimestre, estava em 4,7 vezes o Ebitda ante 4,1 vezes o Ebitda no mesmo período de 2025, mas na comparação com o trimestre imediatamente anterior, continua em 4,7 vezes o Ebitda.
O endividamento total da companhia cresceu 10,4% no período, somando agora R$ 5,9 bilhões, ante R$ 5,3 bilhões há um ano.
Mas o perfil da dívida mudou: se no segundo trimestre de 2025, R$ 2,4 bilhões eram referentes a débitos de curto prazo, agora esse indicador é de R$ 1,5 bilhão. As dívidas de curto prazo, por sua vez, passaram de R$ 2,9 bilhões para R$ 4,4 bilhões.
Além da pressão sobre receitas e volumes, a Camil também registrou, outra vez, um aumento das despesas operacionais, especialmente no mercado brasileiro.
As despesas com vendas, gerais e administrativas somaram R$ 542,1 milhões no trimestre, crescimento de 8,9% em relação ao mesmo período de 2025.
O avanço foi concentrado na operação brasileira, cujas despesas atingiram R$ 394,3 milhões, alta de 19,5% na comparação anual. No mercado internacional, o movimento foi inverso, com redução de 12,1%, para R$ 147,8 milhões.
No Brasil, a Camil destacou que as despesas com vendas cresceram 27,9%, pressionadas principalmente pelo aumento dos gastos com frete.
Segundo a empresa, a elevação reflete mudanças na composição das rotas logísticas e os efeitos do reajuste da tabela de fretes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
A Camil também informou que contribuíram para o aumento os maiores desembolsos com promotores de vendas e materiais promocionais, em linha com as iniciativas comerciais adotadas pela companhia para fortalecer suas marcas e ampliar a presença no varejo.
As despesas gerais e administrativas da operação brasileira, por sua vez, cresceram 5,9%, principalmente em razão do aumento dos gastos com pessoal, além de despesas jurídicas e investimentos em tecnologia.
No mercado internacional, a redução dos volumes comercializados e das exportações teve reflexo também sobre a estrutura de custos. As despesas com vendas recuaram 14,9%, enquanto as despesas gerais e administrativas diminuíram 3,2%.
Resumo
- Lucro líquido da Camil recuou 47,5% no segundo trimestre de 2026, para R$ 41,3 milhões, pressionado pelos preços do arroz
- Vendas de produtos de alto valor cresceram 14,1%, com destaque para cafés e pescados, enquanto segmento de alto giro perdeu volume
- Despesas operacionais avançaram 8,9%, para R$ 542,1 milhões