A expansão acelerada da indústria brasileira de etanol de milho está criando uma nova equação para as usinas. Quanto mais combustível sai das biorrefinarias, maior também é a disponibilidade dos coprodutos gerados, os grãos de destilaria, como DDG e DDGS. Com isso, aumenta a necessidade de encontrar mercados capazes de absorver esses volumes sem pressionar sua valorização.

Até agora, a pecuária bovina tem sido o destino mais natural desses ingredientes. A proximidade entre confinamentos e usinas e a maior familiaridade dos nutricionistas de ruminantes com os produtos ajudaram a desenvolver esse mercado, que ainda tem espaço para crescer.

A produção de DDG e DGGS no Brasil, que foi de 4,8 milhões de toneladas métricos no ano passado e deve chegar a 5,9 milhões de toneladas em 2026, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) compilados pela Novonesis, pode mais que dobrar nos próximos 10 anos, chegando a 10,4 milhões de toneladas em 2034.

O problema é que essa oferta, que tende a ser robusta, a avançar mais rapidamente do que a necessidade dos confinamentos. Por isso, as usinas começam a se voltar para um mercado muito maior e também mais exigente: as fábricas de ração para aves e suínos.

Essa foi uma das principais discussões do painel "Expansão de coprodutos: Amadurecimento em novos mercados", realizado durante o Teco, principal evento da indústria de etanol de milho e cereais da América Latina, realizado pela Novonesis nesta semana em São Paulo.

“Olhar para mercados tradicionais talvez não seja suficiente. A gente precisa desenvolver novos caminhos”, resumiu Jacqueline Chimilovski, gerente de desenvolvimento de negócios da Novonesis.

Os números ajudam a dimensionar a oportunidade. Dados apresentados por Vitor Fascina, gerente de desenvolvimento de negócios da Novonesis, durante o painel, indicam que, em 2026, frangos de corte devem consumir 39,8 milhões de toneladas de ração no Brasil. Para os suínos, a estimativa é de 23,6 milhões de toneladas, enquanto as poedeiras devem demandar outras 7,7 milhões. Somados, os três segmentos chegam a 71,1 milhões de toneladas.

Bovinos de corte e de leite, por sua vez, aparecem com 8,2 milhões e 7,9 milhões de toneladas, respectivamente, ou 16,1 milhões de toneladas no total.

Isso não significa que o mercado de bovinos tenha perdido importância, pelo contrário. Fascina afirmou que os ruminantes continuarão sendo um vetor de expansão para os grãos de destilaria.

“Vai continuar sendo o principal cabo de crescimento para a indústria dos produtos de destilaria, porém, nutrição animal para aves e suínos é o maior volume.”

A questão é que, diante do crescimento esperado da oferta, depender apenas desse canal pode não ser suficiente.

“Onde existe uma planta de etanol de milho, nas redondezas começam a aparecer confinamentos. Mas, se avaliarmos a comparação em dados dos crescimentos dos últimos três anos, comparando o confinamento com o crescimento da oferta de grãos de destilaria, e também fazendo uma projeção aproximada, a gente observa que a oferta vai crescer muito mais do que está crescendo e se desenvolvendo o confinamento”, diz Jacqueline Chimilovski.

Entrar com mais força nas dietas de aves e suínos, entretanto, exige outro nível de precisão. "Há um mercado potencial, mas que também é muito mais exigente”, ressaltou Chimilovski.

Na prática, não basta uma usina entregar um produto com 30% ou 40% de proteína, por exemplo. Para o nutricionista, importa saber quanto dessa proteína será efetivamente aproveitada pelo animal e, principalmente, se essa característica será mantida de um lote para outro.

Fascina dividiu as principais barreiras para o avanço dos grãos de destilaria entre aves e suínos em quatro grupos: viabilidade econômica diante de ingredientes tradicionais, qualidade nutricional e variabilidade, disponibilidade de informações técnicas e limitações logísticas dentro das próprias fábricas.

A vantagem econômica existe em determinadas condições. Em uma simulação apresentada no painel, baseada na formulação de uma agroindústria do Paraná, a inclusão de 80 quilos de grãos de destilaria por tonelada de ração, equivalente a 8% da dieta, permitiu substituir parte do farelo de soja.

Nesse cenário específico, em que o preço do ingrediente equivalia a aproximadamente 80% do valor do farelo de soja, a economia calculada foi de R$ 32 por tonelada de ração formulada.

A conta, porém, não termina no custo da ração. Para uma integradora de aves, uma formulação mais barata pode deixar de ser interessante caso resulte em pior conversão alimentar ou menor ganho de peso. Por isso, pequenas diferenças na qualidade nutricional têm peso maior em monogástricos do que no mercado de ruminantes.

É justamente aí que aparece uma das principais lacunas do DDG brasileiro: ainda existem poucos dados para que os nutricionistas conheçam com precisão a variabilidade desses produtos.

Fascina mostrou que, em determinados parâmetros das tabelas brasileiras utilizadas como referência, havia apenas 13 amostras de DDGS e 14 de DDG de alta proteína.

"Isso é suficiente para a gente começar a trabalhar? Eu, como nutricionista, vou falar categoricamente para vocês: não. A gente precisa de um banco de dados maior", afirmou.

A gente, historicamente, trabalha com farelo de soja, e a gente faz análise, algumas páginas aí a gente faz 1.000, 2.000, 4.000 análises explorando a qualidade do farelo.

Um levantamento apresentado por Ideraldo Lima, sócio e consultor da ILL Consultoria, também mostrou a diferença de pesquisa sobre os grãos de alta destilaria no Brasil em comparação com os Estados Unidos, o principal produtor desse produto no mundo.

Entre 2000 e 2026, segundo os dados levados ao painel, foram publicados 28 trabalhos brasileiros sobre DDGS convencional, ante 349 estudos americanos. Para HPDDG (High Protein Dried Distillers Grains, ou grãos secos de destilaria com alta proteína, em português), foram 11 trabalhos no Brasil e 39 nos Estados Unidos.

"Mas se a gente pegar nos últimos anos, o que podemos observar? Que o americanos continuam estudando, tanto com o DDG como com o DDGS, mas o Brasil avançou bastante do ponto de vista de trabalho publicado", ponderou Lima, que garantiu, ainda, que o produto brasileiro hoje já possui uma qualidade superior à verificada nos demais países.

“A qualidade dos produtos de destilaria do Brasil é muito superior à dos produtos americanos. Trabalho na América Latina e recebo amostras de DDGS produzido nos Estados Unidos principalmente dos nossos clientes no México, e a variabilidade que eu encontro é extremamente alta, maior do que as novas aqui no Brasil.”

Ainda assim, os executivos concordaram que, quando não se conhece com segurança o comportamento de um ingrediente, o nutricionista de uma agroindústria, por exemplo, tende a adotar margens de segurança maiores. Com isso, atribui valores nutricionais mais conservadores ao produto, reduzindo sua competitividade dentro da formulação.

"O risco não está em usar o DDG ou o DDGS, mas em tratar produtos diferentes como se fossem nutricionalmente equivalentes", afirmou Lima.

Parte dessa variabilidade nasce dentro da própria indústria de etanol. Temperatura, tempo de processamento, composição do milho e proporção das diferentes frações podem alterar a disponibilidade dos nutrientes.

O cuidado começa ainda antes, na entrada do milho. Os especialistas chamaram atenção para micotoxinas e impurezas que podem chegar com a matéria-prima e se concentrar nos derivados durante o processo industrial, aumentando a necessidade de controle quando o destino é a alimentação de aves e suínos.

E. mesmo que a qualidade avance, existe ainda uma barreira física. Grande parte das fábricas brasileiras de ração foi projetada para receber principalmente milho e farelo de soja. Adicionar novos ingredientes exige espaço de armazenagem, silos e sistemas de dosagem.

"Tem cliente que fala: 'Vitor, até gostaria de usar DDG ou DDGS, DDG de alta proteína, mas não tem espaço na minha fábrica'", contou Fascina. "E aí eles têm que investir em um capex extremamente alto para aumentar silos e armazenagem."

Além disso, as fábricas de ração foram desenhadas exclusivamente para receber o farelo de soja, ressaltou ele. “Quando a gente recebe uma alternativa, como são os grãos de destilaria, é complicado porque a gente não tem silos de armazenamento adequados e nem silos de dosagem dentro da fábrica”, afirmou.

Exportações aceleradas

Enquanto busca mais espaço no mercado doméstico, a indústria também acelera as exportações.

Nas estimativas de Ideraldo Lima, da ILL Consultoria, os embarques, que chegaram a 879 mil toneladas para 25 destinos em 2025, devem subir para cerca de 2 milhões de toneladas em 2026. Se confirmado, o volume exportado deve representar um avanço de 123%.

Em curso também há uma mudança na configuração das exportações. Em 2025, a Turquia respondeu por 33% dos embarques brasileiros de grãos de destilaria, seguida por Vietnã, com 24%, Nova Zelândia, com 16%, Espanha, com 13%, e Indonésia, com 9%.

Com a abertura do mercado chinês ao DDG brasileiro em fevereiro deste ano, o mapa das exportações de 2026 mudou rapidamente. Até agosto passado, a China já respondia por 44% das exportações brasileiras, estimou Jacqueline Chimilovski, da Novonesis. “Se formos olhar os números de 2026 até agosto, a China já ultrapassou a Turquia”, disse.

O avanço das exportações à frente, no entanto, também depende da relação de preços. No ano passado, o volume efetivamente embarcado ficou quase um terço abaixo do projetado porque o mercado doméstico remunera melhor os produtores.

“Temos que considerar a exportação como uma ferramenta, mas também não é a única saída”, ponderou Jacqueline Chimilovski.

Ainda assim, Lima acredita que a exportação é um bom destino especialmente para as biorrefinarias que operam em praticamente 365 dias do ano. "[Com a exportação], você faz contratos de médio a longo prazo, e te dá realmente um conforto maior."

Resumo

  • Oferta de DDG cresce mais rápido que os confinamentos e empurra usinas para aves, suínos e exportação
  • Monogástricos somam 71,1 milhões de toneladas de ração, mas exigem mais padronização e previsibilidade
  • Exportações podem chegar a 2 milhões de toneladas em 2026, com a China ganhando espaço entre os principais destinos