No final da década de 1990, dois agrônomos recém-formados se conheceram na capital paulista, onde eram colegas de trabalho.

Era uma época em que o agro já começava a crescer em ritmo acelerado e os mineiros Anderson Galvão e Leonardo Sologuren decidiram voltar para a cidade de origem, Uberlândia (MG), onde em 2002 criaram a consultoria Céleres.

O tempo passou e os parceiros seguiram caminhos diferentes. Galvão transformou a Céleres em uma das maiores consultorias especializadas em agronegócio do País, responsável por estimativas de safra, análises e grandes projetos de inteligência de mercado, incluindo M&As.

Já Sologuren apostou no avanço da tecnologia. Fez uma imersão no Vale do Silício e no meio oeste dos Estados Unidos (a potência agrícola dos americanos).

“Em 2013, já começa a me chamar a atenção bastante os movimentos digitais que estavam tendo nos Estados Unidos. Foi quando a Monsanto comprou a Climate. Eu vi que ia mudar um pouco a forma como a gente captava dados”, afirmou Leonardo Sologuren, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Em 2016, com mais sócios, ele fundou a Zeus Agrotech, empresa de inteligência agroclimática que atraiu investidores internacionais e segue operando até hoje, sendo uma das maiores da América Latina.

O empresário vendeu sua participação na Zeus em 2022. Desde então, seguiu se aprofundando em tecnologia, com mais foco em inteligência artificial (IA), até criar a Arkéra Intelligence, uma consultoria de inteligência estratégica baseada em modelos de IA para ajudar empresas a antecipar cenários e reduzir incertezas.

Foi nesse ponto da trajetória que os dois mineiros viram a oportunidade de unir forças, voltando às origens, mas, acima de tudo, potencializando as armas que cada uma das empresas possui.

Agora, Céleres está anunciando oficialmente ao mercado que acaba de incorporar a Arkéra Intelligence, num movimento de “troca de ações”, como descreveu Anderson Galvão, na conversa com o AgFeed.

Os detalhes financeiros da operação não foram detalhados, mas a expectativa de ambos é não apenas acelerar soluções que a Céleres já oferece a seus clientes, mas também criar novos produtos, que devem impulsionar a receita.

“A inteligência artificial sozinha, costumo dizer, é uma máquina de escrever. Se você der uma máquina de escrever para um analfabeto, ele vai usar ela de peso de papel. Mas se você der para um escritor muito bom, ele pode ganhar um prêmio Nobel de literatura com a mesma máquina de escrever”, analisou o empresário.

Ele diz que essa é a visão da Céleres em relação à chegada das ferramentas de IA. Os analistas da consultoria serão os curadores do que for produzido pelas tecnologias digitais.

Galvão dá exemplos práticos da aplicação imediata da IA nas soluções da Céleres. “Temos um produto desde que a gente começou, lá em 2002, que é uma análise de longo prazo, que roda todo ano. A gente projeta os próximos 10 anos de área plantada de soja, de milho, de algodão, de cana, de várias culturas. No modo old school, a gente gastava quase 4 meses para rodar um modelo desse com integridade”, explicou.

Agora há ganho de agilidade e abrangência nas análises, diz ele. “A partir do momento que a gente incorporou esses agentes de IA e outras ferramentas, primeiro, a gente abriu o escopo ao invés de olhar 20 e poucas variáveis, estamos olhando mais de 200 variáveis e numa agilidade muito maior.  Agora eu rodo em 10 dias”.

A mudança na Céleres não se restringe ao retorno de Leonardo Sologuren. Os analistas Enilson Nogueira, Vinícius Paiva e Erickson Oliveira passam a ser sócios. Também foi confirmado Douglas Ribeiro como novo sócio, trazendo a experiência de quase duas décadas em tradings multinacionais como Cargill e CHS.

“Knowledge as a service”

A incorporação da Arkéra não muda muito o tamanho da Céleres, mas a expectativa é de ganhos qualitativos com a união da base de conhecimento na consultoria tradicional liderada por Galvão com as tecnologias digitais que foram desenvolvidas por Sologuren ao longo dos anos.

“Quando a gente junta essas duas partes, onde eu tenho um think tank que é referência no mercado ,como a Céleres, e eu absorvo essa informação pra dentro da IA, eu torno a IA mais poderosa. E torno a Céleres, com certeza, mais poderosa também. Do ponto de vista de uma empresa que faz análise, quanto mais eu consigo ter agentes buscando essas análises, formando indicadores, me ajudando a pensar, inclusive, como se fosse um consultor virtual”, descreveu Sologuren.

O plano dos executivos é criar o “RAG da Céleres”. RAG é a sigla em inglês para Retrieval-Augmented Generation (Geração Aumentada por Recuperação), uma técnica de inteligência artificial que conecta modelos de linguagem a bases de dados externas para gerar respostas mais precisas e confiáveis.

O sistema será alimentado com o histórico de 24 anos de informações em temas como logística, trabalhos junto ao setor de insumos, sementes, planos de longo prazo, entre outros.

Soluguren diz que a expectativa é criar um modelo semelhante ao SaaS (software as a service). No caso da Céleres, seria o KaaS – “knowledge as a service”, já que não se trata de um software e sim uma base de inteligência estratégica, econômica e política.

“A gente dá velocidade e força para a consultoria. Entregas que hoje são basicamente só feitas com apresentações passam a ter plataformas também. E a ideia é que essas plataformas, algumas delas, não todas, sejam por assinatura”.

As pesquisas e coletas de dados para estimativas e projeções da consultoria também devem ter ganhos.

“Dados que a gente não conseguia antes analisar ou era difícil fazer pesquisa, eu consigo trabalhar diversos agentes hoje que fazem pesquisa, não só no Brasil, como no mundo inteiro. E a partir daí criar uma série de indicadores. Esse é um caminho sem volta, não dá para ficar fora desse movimento”, destacou Sologuren.

Ele ressalta também, que do ponto de vista da consultoria, a IA não será substituta, mas sim uma ferramenta que dará mais velocidade ao trabalho.

“Crise do agro”

Anderson Galvão diz que o perfil da consultoria é atender mais clientes corporativos, embora haja um relacionamento próximo com os produtores rurais.

Neste período desafiador, de margens apertadas, aumento nas recuperações judiciais, ele diz que a demanda pelos serviços da empresa segue aquecida, só mudou o tipo de trabalho que os clientes buscam, em alguns casos.

“O nosso trabalho ao longo dos anos, aqui na consultoria, sempre foi muito voltado para temas de investimento, fusão e aquisição, análise de viabilidade econômica de novos projetos, questões regulatórias envolvendo tecnologias”.

Os clientes são grandes empresas de insumos, como fertilizantes, defensivos e sementes, distribuidores e também companhias agrícolas de maior porte.

“De 2023 para cá, a gente continuou trabalhando em muitas transações quase sempre pelo lado do comprador, ou seja, a caixa de ferramentas é a mesma. Muda quem está pedindo a ferramenta”.

Além disso, segundo Anderson, a consultoria passou a ser mais demandada para auxiliar em processos de  reestruturação operacional, redesenho de estratégias de acesso a mercado, de portfólio e margem de produtos.

“São todos trabalhos e ações que têm toda característica de fase de aperto. Cinco anos atrás, seis anos atrás, boa parte dos projetos nossos era expansão, abertura de novos negócios, investimento em novas fábricas".

"Agora tem capacidade ociosa, capacidade instalada sobrando. O desafio das corporações é o que eu faço? Como é que eu otimizo o processo? Como é que eu otimizo força comercial? Como é que eu cubro melhor uma determinada região geográfica? Então, sob uma perspectiva da consultoria, a caixa de ferramentas é a mesma. Muda que parafuso eu estou apertando agora”.

Resumo

  • A Céleres, consultoria especializada em agronegócio, incorporou a Arkéra Intelligence, empresa que opera com modelos de Inteligência Artificial (IA)
  • Expectativa é dar mais velocidade aos serviços da consultoria e criar novos produtos que podem incluir acesso ao conhecimento da Céleres via plataformas digitais
  • Com o momento desafiador do agro, Céleres avalia que há maior demanda das empresas para processos de reorganização e menor procura por projetos de investimento