O algodão brasileiro chega ao fim de 2026 em posição rara entre as commodities agrícolas: com rentabilidade mantida e até ampliada em um ano em que quase todas as outras culturas viram suas margens encolherem.
A avaliação é de André Pessôa, CEO da Agroconsult, em entrevista ao SpeedCast, série do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte.
Para o consultor, os fundamentos do mercado apontam para uma retomada das margens para o produtor e o recado chega pelo preço. “Tem sinais positivos de mercado pedindo ao Brasil para produzir mais”, afirmou.
Pessôa resume o momento da cultura em duas características distintas. A primeira é uma produtividade "espetacular". Segundo ele, o Brasil bateu, de longe, o recorde de produtividade do algodão em todas as regiões. A Bahia, disse, foi "espetacular", Mato Grosso e a safrinha também foram muito boas.
“A primeira parte da animação da turma aqui no CBA é que todo mundo está batendo no peito dizendo: ‘a minha parte eu fiz e fiz bem feito, eu produzi bem’”, pontuou.
O segundo ponto que trouxe ânimo ao setor é o preço. O mercado esperava entrar em 2026 com o algodão em 70 cents de dólar por libra/peso ou abaixo disso. Porém o mercado surpreendeu e hoje a fibra opera acima dos 80 cents. “Isso é muito bom, porque ajuda a compor uma rentabilidade em um ano que foi complicado”, afirmou o consultor.
Ele lembrou que a safra 2025/2026 começou já com custos mais altos, de fertilizantes ainda no ano passado e dos defensivos neste. “É uma cultura que enfrenta uma rentabilidade que não caiu. Ela se manteve e até ampliou. Ao contrário de quase todas as outras, que, por uma questão de custo de produção ou de preços deprimidos, têm rentabilidades menores em 2026 do que em 2025”, analisou.
Com esse cenário, a tendência é de retomada da área plantada. Depois da redução registrada no ano passado, compensada por uma produtividade tão boa que a produção ainda cresceu, Pessôa espera que o algodão volte, na safra 2026/2027, ao nível máximo alcançado há dois anos, em torno de 2,2 milhões de hectares.
“Pode ser até um pouquinho mais, se tiver crédito suficiente, porque vontade de ampliar as áreas existe”, ponderou.
Ele ressaltou, porém, a condição climática no radar. O plantio da soja precisa ocorrer dentro do calendário correto, permitindo uma colheita cedo que não comprometa a janela de plantio do algodão.
Mesmo assim, o consultor vê espaço natural para o crescimento. “Os ativos já estão lá. A algodoeira já está lá, a colheitadeira de algodão está lá, o perfil do solo está lá. Usar essa capacidade instalada, no mínimo, é o que vai acontecer neste ano.”
Pessôa reconheceu que o endividamento e as margens apertadas das outras culturas contaminam “um pouco” o ambiente, já que todo produtor de algodão também é produtor de soja e de milho. Mas destacou a diferença do perfil do cotonicultor.
“O algodão, em geral, é produzido no Brasil por produtores muito bons gestores, com um entendimento das questões financeiras acima da média”, afirmou. Segundo ele, o setor sempre foi dependente do crédito privado e aprendeu a conviver com disciplina na gestão financeira. Isso não o torna, no entanto, imune ao custo do capital.
“A gente tem uma taxa de juros no Brasil hoje que é incompatível com qualquer atividade produtiva lícita”, criticou o consultor. “A questão de crédito no Brasil continua sendo crítica para a expansão das atividades, para investimento, para manutenção do nível de tecnologia”.
Na prática, isso significa que o crescimento que vem é o que já estava investido. “Se dependesse de novos investimentos, como fazer uma algodoeira nova, comprar um novo parque de máquinas ou mesmo preparar uma nova área para plantar algodão, não seria feito, por conta do nível da taxa de juros”, emendou.
O apetite por investimento, resumiu, está "mais comedido", num processo que ainda precisa “depurar” o endividamento elevado e as margens deprimidas dos últimos anos.
É nesse ponto que Pessôa conecta o algodão ao cenário mais amplo do agronegócio. Para a soja, ele disse não ter dúvida de que o problema de crédito de 2027 será maior que o de 2026, com a percepção de risco mais clara e políticas de crédito sendo revistas em toda a cadeia.
Ele contou que a Agroconsult tem 65 clientes, dos quais pelo menos 50 com exposição a crédito. E todos estão revisando políticas de garantias, limites e acesso ao mercado. Mas os fundamentos de mercado apontam na direção oposta.
“O que a gente tem como reflexo hoje é que a safra de soja no Brasil, pela primeira vez em muitos anos, não deve crescer. Se crescer, vai ser marginalmente. Vai repetir praticamente a área”, afirmou.
“Para o ano que vem, tem sinais positivos de mercado pedindo ao Brasil para produzir mais. E isso vem através de preço. Produz mais aí porque precisamos de mais oferta”, avaliou.
O consultor não acredita em redução de área de soja, mas em crescimento moderado, sem repetir os 1,5 a 2 milhões de hectares adicionais da "fase áurea da pandemia". E vê isso como boa notícia.
“Se o Brasil cresce dois anos muito pouco ou não cresce, o preço vai responder ao não crescimento do Brasil nas commodities, porque o Brasil é muito relevante. Isso ajuda a botar a casa em ordem, com rentabilidades possivelmente melhores nos anos que vêm pela frente”.
Demanda e preços sustentados
Sobre a preocupação com a demanda, Pessôa compartilha a cautela e dá um exemplo concreto no caso do algodão. Segundo ele, Bangladesh, grande comprador de fibras, depende de gás para 66% de sua energia, e “a indústria sem gás não roda”. O mesmo vale para Paquistão e outros mercados, o que poderia resultar em uma pressão baixista para os preços do algodão.
Por outro lado, a alta dos preços do petróleo encarece o poliéster e favorece a competitividade da fibra natural. E, além disso, as cotações do algodão podem ser sustentadas por reduções de oferta em países produtores importantes, como os Estados Unidos, que reduzindo a produção, a Austrália, cortando por falta de água, a China e a Índia enfrentando problemas climáticos.
“Só o Brasil está na mão contrária, que é ampliando produção. Isso fez com que a gente trouxesse para o mercado de algodão fundamentos muito sólidos para ter preços mais altos, que vão além do petróleo”, afirmou.
A perspectiva da Agroconsult é de preços que permanecem em patamares competitivos. “Talvez não acima dos 80 cents em 2027, mas acima dos 70 cents é bem provável”, projetou. Isso ainda garantiria competitividade ao algodão brasileiro e rentabilidade aos produtores.
E há mais um alívio à frente, na sua visão. “Os custos não devem subir o ano que vem como vêm subindo. A gente vai ter uma acomodação de custos também no próximo ano. Com preços melhores, a gente vai reconstruindo a rentabilidade da cadeia. Produtividade? É só repetir o que aconteceu esse ano e já está bom”.