Araras (SP) - Uma das principais referências na produção de leite no Brasil, a Fazenda Colorado está no limite de sua capacidade produtiva. A constatação é de Carlos Alberto Pasetti de Souza, proprietário da empresa, que admite ter planos, há cerca de dez anos, de adquirir outra área.

“Não tem para onde crescer aqui, seja por espaço, seja por recursos naturais, como água. Queremos outra fazenda, mas essa é uma questão que envolve outros fatores”, diz Beto, como é conhecido, em conversa com o AgFeed.

Ele assumiu a propriedade ao lado dos irmãos após a morte do pai, Lair Antônio de Souza, o “Sr. Lair”, em 2015, conhecido à época como o “Rei do Leite”.

Por 12 anos consecutivos, a Colorado, localizada em Araras, no interior paulista, manteve-se como a maior produtora de leite do País, posição perdida no ranking Top 100 de 2026, elaborado pelo MilkPoint em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite).

No ano passado, a fazenda produziu, em média, cerca de 101,9 mil litros por dia, mesmo sem possuir o maior rebanho em lactação. A produtividade ficou próxima de 43 litros por vaca/dia.

Segundo Beto, o volume já chegou a 106 mil litros por dia em anos de maior produção, com aproximadamente 2,4 mil vacas em lactação.

A eficiência, que coloca a propriedade entre os níveis mais elevados da atividade leiteira, é resultado da combinação de genética, nutrição, biosseguridade, tecnologia e mais de 58 anos de aprendizado contínuo.

“Hoje eu não tenho mais para onde crescer em produção aqui e também já temos várias linhas de produtos com mais valor agregado, como queijos, iogurtes e outros. Por outro lado, a escala é cada vez mais importante”, explica.

Valor agregado

Parte da estratégia para ampliar o valor obtido com a produção ocorreu fora dos estábulos. A Colorado avançou na industrialização e diversificou o portfólio de lácteos, comercializado sob a marca Xandô, que também atua com sucos de frutas.

A linha láctea inclui leite tipo A integral, semidesnatado e desnatado, além de leite A2 e derivados como queijos e iogurtes. O processamento permite capturar maior valor sobre uma matéria-prima produzida em escala e com controle desde a origem.

Mas Beto considera que a agregação de valor não elimina a necessidade de escala. Pelo contrário. O movimento de concentração da pecuária leiteira no País tende, em sua avaliação, a tornar tamanho e eficiência ainda mais relevantes para a competitividade.

Até recentemente, o Brasil possuía quase 1 milhão de propriedades produtoras de leite, muitas delas com baixos níveis de produtividade e eficiência.

Como parâmetro, os Estados Unidos tinham cerca de 23,6 mil propriedades leiteiras licenciadas em 2025, apesar de possuírem população aproximadamente 75% maior e produção leiteira quase três vezes superior à brasileira.

“A tendência no Brasil é a concentração da produção e do mercado em menor número de produtores mais eficientes. Isso já está acontecendo claramente”, afirma.

Os números dos maiores produtores reforçam esse movimento. As 100 propriedades que lideram o ranking nacional, equivalentes a aproximadamente 0,01% do universo de quase 1 milhão de produtores, já respondem por 4,7% de todo o leite produzido no Brasil.

Para Beto, produtores de menor escala do Sul do País estão especialmente expostos à concorrência do leite importado do Cone Sul, principalmente da Argentina e do Uruguai.

Ele classifica essa disputa como “desleal” e afirma que parte das importações chega ao mercado brasileiro em condições de dumping.

“Eles sofrem mais porque a barreira do frete no Sul é menor. Lá o transporte pode custar R$ 2 desde o Uruguai e Argentina, mas, para chegar aqui, seria no mínimo R$ 10. Por isso, o problema é maior por lá”, argumenta.

Escala e eficiência

A Colorado opera atualmente com cerca de 2,4 mil vacas em lactação e uma estrutura desenhada para obter elevada produtividade do rebanho. Entre os equipamentos está um carrossel com 72 posições para ordenha.

Com mais de 100 mil litros por dia, o desempenho individual dos animais permite à propriedade permanecer entre as maiores produtoras brasileiras sem possuir o maior plantel.

Para Beto, não basta aumentar o número de animais. A expansão precisa estar associada à produtividade, ao controle de custos e à capacidade de diluir investimentos em tecnologia e infraestrutura.

A intenção, segundo ele, não é simplesmente disputar a liderança nacional em volume produzido. “Não quero ser um campeão nacional”, afirma, em referência ao termo que ganhou projeção com a política de financiamento público à expansão de grandes empresas brasileiras nas últimas décadas.

A corrida por escala, porém, também ocorre na indústria de lácteos. Nos últimos anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamentos de centenas de milhões de reais para projetos de expansão e agregação de valor de grandes empresas do setor.

Um dos maiores foi destinado ao Grupo Piracanjuba, que teve aprovado financiamento de R$ 499 milhões em 2025 para construir uma nova fábrica no Paraná.

O Grupo Sooro Renner também obteve financiamento de R$ 197,6 milhões do banco para ampliar a produção de ingredientes derivados do soro do leite.

Na Colorado, Beto afirma que a prioridade não é apenas produzir mais. O objetivo é consolidar um sistema reconhecido por eficiência, qualidade e sustentabilidade.

Nos últimos anos, a agenda ambiental passou a ocupar ainda mais espaço na gestão, com atenção especial às práticas regenerativas.

“Meu foco aqui é regenerativo. O cliente não gosta de um produto que está na contramão do que ele acredita”, diz.
Beto também acredita que ganhos de produtividade e escala podem ajudar a preparar a cadeia brasileira para uma etapa ainda pouco explorada: a exportação de lácteos.

Para isso, considera necessário produzir de maneira competitiva não apenas em relação a outros produtores brasileiros, mas também aos principais concorrentes internacionais.

Bem-estar animal

A face mais visível dessa busca por eficiência está dentro dos enormes galpões construídos no coração dos 1,7 mil hectares da Colorado.

O maior deles tem cerca de 220 metros de comprimento por 110 metros de largura e abriga aproximadamente 2,4 mil animais em lactação.

As instalações foram desenhadas para proporcionar conforto aos animais e favorecer o manejo, a alimentação e o acompanhamento individual do rebanho.

A estrutura também ajuda a explicar por que crescer dentro da propriedade se tornou difícil.

Aumentar o rebanho nas mesmas instalações significaria maior disputa por alimento, água e espaço, com impactos sobre o bem-estar animal e a produtividade.

Negócio com novilhas

Enquanto a expansão territorial não acontece, a qualidade genética consolidou uma nova fonte de receita. A Colorado chega a comercializar cerca de 500 novilhas por ano para outras propriedades leiteiras.

Os animais são vendidos principalmente para produtores de Minas Gerais, embora a fazenda tenha ampliado mais recentemente os negócios com compradores do Nordeste.

Com valor médio próximo de R$ 18 mil por animal, a venda das novilhas movimenta cerca de R$ 9 milhões por ano e já representa quase 10% do negócio da fazenda.

A atividade apoia-se na reputação sobre genética construída pela Colorado ao longo de décadas.

Em uma fazenda que chegou ao limite físico para ampliar o próprio rebanho, parte desse potencial produtivo passou a crescer fora de suas porteiras.

Resumo

  • Fazenda Colorado atinge o limite de expansão em Araras e avalia adquirir uma nova propriedade para crescer
  • Empresa aposta em escala, produtividade e produtos de maior valor agregado para ampliar a competitividade no mercado de leite
  • Venda de novilhas e diversificação de lácteos criam novas fontes de receita para a fazenda

Carrossel de ordenha garante produtividade

Novilhas na Fazenda Colorado: genética se tornou novo negócio

Principal galpão da propriedade abriga 2,4 mil vacas em lactação