O mês de maio de 2026 foi especial para a fintech Agroforte. Isso porque a companhia bateu R$ 1 bilhão em crédito concedido ao setor de proteína animal, isso contando todas as operações realizadas desde sua origem no financiamento de produtores de frango e suínos até a expansão recente para pecuária de leite e corte.

Ancorada em uma agenda que inclui captações com grandes gestoras, aquisições, um salto na pecuária de corte e a atuação no primeiro Fiagro do Paraná, a companhia pretende somar um novo bilhão em operações até dezembro deste ano, revelou o CEO e cofundador da empresa, Felipe d’Ávila, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

“2025 foi transformador para nós. A gente de fato consolidou a Agroforte como uma fintech de proteína. Tivemos um salto grande na originação e em tração dentro dos ecossistemas, e nos consolidamos no leite”, disse.

A meta para 2026 é praticamente dobrar o ritmo da operação. Após originar cerca de R$ 500 milhões em crédito no ano passado, a fintech projeta movimentar aproximadamente R$ 1 bilhão neste ano, somando operações realizadas pelo fundo próprio e pela estrutura do Fiagro do Paraná, onde a empresa atua como responsável pela esteira de crédito.

O crescimento virá acompanhado de uma expansão da capacidade financeira da companhia. O principal fundo utilizado pela Agroforte, que encerrou 2025 com cerca de R$ 200 milhões em patrimônio líquido, deve alcançar entre R$ 280 milhões e R$ 300 milhões até dezembro. Já os desembolsos realizados pelo veículo devem saltar para algo entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões ao longo do ano, afirmou d'Ávila.

Além do avanço em volume, a empresa espera ampliar significativamente sua base operacional. Depois de realizar cerca de 3,5 mil operações em 2025, a expectativa é fechar 2026 com algo entre 5 mil e 6 mil contratos de crédito formalizados.

Hoje, a empresa já origina aproximadamente R$ 30 milhões por mês em crédito, com, em média, 12 operações por dia, distribuídos entre 200 e 300 operações mensais. Os tickets variam desde R$ 5 mil até R$ 2 milhões.

“O foco deste ano é crescer originação, crescer funding e ganhar eficiência. Estamos automatizando toda a esteira para conseguir atender mais produtores e ampliar nossa presença dentro dos ecossistemas onde já atuamos”, afirmou d'Ávila.

Por trás dessas projeções está uma transformação acelerada vivida pela companhia ao longo dos últimos meses.

Fundada para atuar no financiamento das cadeias de frangos e suínos, aproveitando da expertise familiar do CEO - bisneto de Attilio Fontana, fundador da Sadia -, a Agroforte opera um modelo baseado na integração com agroindústrias, cooperativas e - recentemente - indústrias de laticínios.

Em vez de depender exclusivamente de garantias tradicionais, a fintech utiliza informações operacionais dos produtores e os recebíveis gerados pelas vendas futuras para estruturar suas operações de crédito.

Hoje, a companhia mantém cerca de 50 parcerias com agroindústrias e cooperativas, alcançando uma base potencial superior a 60 mil produtores.

Um dos movimentos mais importantes dessa expansão aconteceu no início de 2025, com a aquisição da Rumicash, fintech especializada em crédito para pequenos produtores de leite.

Segundo d'Ávila, a operação trouxe mais de 20 laticínios parceiros para dentro da plataforma da Agroforte e abriu acesso a aproximadamente 20 mil produtores adicionais.

“A aquisição da Rumicash foi um salto estratégico. Ela trouxe uma operação mais ágil para atender pequenos produtores e uma base importante de parceiros. Conseguimos integrar esse ecossistema à nossa plataforma e ampliar nossa oferta de crédito”, afirmou.

O negócio ajudou a consolidar a presença da Agroforte em um dos mercados mais relevantes da companhia atualmente.

Hoje, cerca de 60% da carteira está concentrada no leite, enquanto aves e suínos - as origens da empresa - respondem por aproximadamente 30%. Os 10% restantes já refletem os primeiros passos da empresa em uma nova frente considerada estratégica: o gado de corte.

“O gado de corte praticamente dobra o mercado endereçável da Agroforte. Antes atuávamos em um universo próximo de R$ 250 bilhões em produção primária. Com a entrada dos bovinos de corte, esse potencial se aproxima de R$ 500 bilhões”, afirmou.

A empresa iniciou operações piloto no segmento ao longo do último ano e acredita que a nova vertical poderá alterar significativamente a composição da carteira nos próximos meses.

A expectativa é que a composição da carteira evolua gradualmente para algo próximo de 40% em leite, 30% em aves e suínos e outros 30% em bovinos de corte.

Outro pilar da expansão veio pelo lado das captações. Ao longo do último ano, a fintech reforçou sua estrutura de funding com a entrada de investidores como XP, EQI - que juntos aportaram R$ 60 milhões no fundo da empresa. Os players se juntaram a outros como Itaú e Credit Saison, instituição japonesa focada em investimentos de impacto.

Além do aumento do patrimônio disponível para novas operações, a chegada desses investidores ajudou a reduzir o custo de capital da empresa.

“Foi um ano importante também do ponto de vista de funding. Crescemos o patrimônio do fundo, trouxemos investidores relevantes e melhoramos nosso custo de capital. Isso é fundamental para conseguirmos levar crédito mais competitivo para a ponta”, disse o executivo.

Segundo ele, a companhia continua avaliando novas captações ao longo de 2026 e não descarta uma futura rodada de equity para financiar a próxima fase de crescimento.

“Estamos com geração de caixa positiva, mas crescer exige investimento. Estamos conversando com investidores e preparando os próximos passos para continuar expandindo", prosseguiu.

Fiagro do Paraná como divisor de águas

Se houve um projeto capaz de acelerar a trajetória recente da Agroforte, esse projeto foi o Fiagro do Paraná.

Lançado para financiar a construção de aviários no estado, o veículo combina recursos públicos, capital privado e participação das próprias agroindústrias em uma estrutura de blended finance desenhada para reduzir o custo final do crédito tomado pelo produtor.

A Agroforte foi escolhida para operar toda a esteira da operação, atuando junto com a Suno, responsável pela captação com investidores. O fundo projeta atingir R$ 1,1 bilhão em desembolsos para a construção de aviários para produtores parceiros de Seara, MBRF e C.Vale.

Segundo a companhia, algo entre 350 e 400 produtores devem ser beneficiados ao longo da primeira etapa do programa.

Na prática, a fintech realiza a análise de crédito, a formalização das garantias, a gestão dos desembolsos e o acompanhamento dos pagamentos ao longo de contratos que podem chegar a dez anos. As operações possuem ticket médio próximo de R$ 5 milhões.

Segundo d'Ávila, a escolha ocorreu porque a companhia já possuía relacionamento com os principais grupos envolvidos na iniciativa.

“Era praticamente um plug and play. A estrutura é muito parecida com a que já operamos no nosso modelo tradicional. A diferença é que estamos falando de financiamentos de longo prazo para construção de aviários.”

Do total projetado, cerca de R$ 500 milhões já foram desembolsados, e a expectativa da Agroforte é desembolsar o restante até o final do ano. É essa a soma de d'Ávila para atingir R$ 1 bilhão neste ano: cerca de R$ 400 milhões com o fundo próprio, que opera em praticamente todo o País, e mais R$ 600 milhões com o Fiagro do Paraná.

A empresa projeta esses avanços mesmo em meio ao momento delicado para o crédito rural.

Para d'Ávila, o fato da AgroForte ser especializada em algumas cadeias ajuda a reduzir riscos de inadimplência e outros problemas de pagamento.

Em vez de analisar apenas garantias e patrimônio, a empresa utiliza informações operacionais dos produtores e das agroindústrias parceiras para modelar crédito e acompanhar a evolução de cada cliente, avalia o CEO.

"No caso de um produtor de frango, analiso os últimos lote, entendo o aviário, qualidade do manejo, indicadores de mortalidade, conversão alimentar, volume de produção e também renda gerada com base no que a indústria paga", exemplificou.

O executivo admite que a companhia enfrentou alguns atrasos, principalmente durante os momentos mais desafiadores vividos pelo setor leiteiro, especialmente quando os preços pagos ao produtor recuaram. A empresa é por exemplo, um dos credores financeiros do processo de recuperação judicial da Belagrícola.

"A gente fez bastante renegociação. Como estamos dentro do ecossistema, consigo acompanhar o produtor e, quando vejo que ele está tendo um problema, proativamente ofereço ajuda ou aumento o prazo, por exemplo".

Esse acompanhamento constante também exige uma estrutura operacional diferente da encontrada em outras verticais do agro.

Enquanto culturas agrícolas costumam seguir calendários mais previsíveis, a Agroforte opera simultaneamente com cadeias que possuem ciclos de pagamento bastante distintos. No leite, atua com recebimentos muitas vezes mensais, no mundo do frango, geralmente bimestral, enquanto que os bovinos tem fluxos distintos a depender do momento da cadeia.

Resumo

  • Agroforte alcança R$ 1 bi em crédito e quer repetir a marca até dezembro de 2026. São R$ 400 milhões no fundo próprio e o restante com Fiagro do Paraná
  • Fintech aposta em pecuária de leite e de corte para movimentar montante neste ano
  • Aquisição da Rumicash pavimentou acesso a novos mercados e ampliou base de produtores e indústrias parceiras