A invasão chinesa nas máquinas é fato inquestionável nas feiras de tecnologia agrícola. Muitos chegam por parceiros locais, outros começam agora a aventura no Brasil, mas a realidade é que os chineses estão aperfeiçoando o discurso para conquistar uma fatia do mercado.
Um exemplo disso é a Zoomlion, grupo chinês de máquinas que se destaca em produtos da linha amarela (construção) e também agrícola. É uma companhia com capital aberto na China e faturamento anual de US$ 10 bilhões (considerando todas as áreas que atua, não apenas a agrícola).
No Brasil, a empresa está presente há 10 anos com a linha amarela, enquanto no setor agrícola a chegada ocorreu em 2025.
Na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), participou pela primeira vez este ano, mas já havia mostrado suas máquinas no Show Rural Coopavel, do Paraná.
A executiva chinesa Sherry Bao, diretora de máquinas agrícolas para América Latina, que mora na China, e o “brasileiro” Huang Wei Zhe, head de máquinas agrícolas Brasil, que fica em Indaiatuba (SP), receberam o AgFeed para uma conversa.
“O primeiro ano sempre é difícil, porque existem muitos concorrentes já consolidados há muitos anos. Mas já encontramos parceiros muito bons. Em várias regiões já temos distribuidores que estão ajudando a levar nossas máquinas aos produtores”, disse Sherry Bao, na entrevista exclusiva.
A empresa mostrou na Agrishow uma linha variada de tratores, entre 75 e 350 cavalos de potência. Um dos destaques é o que o executivo diz se tratar do “primeiro trator híbrido da categoria no Brasil” e “o maior híbrido do mundo”.
O modelo apresentado em Ribeirão Preto tem 350 cavalos, mas a fabricante já teria híbridos de até 700 cavalos de potência. O trator funciona a diesel e também a eletricidade.
“Nosso foco é uma linha premium”, afirmou Huang Wei Zhe, contrapondo quem ainda tente avaliar produtos asiáticos como mais simples e baratos.
Um argumento frequente de fabricantes tradicionais (a maioria de origem americana, mas com fábrica no Brasil) é de que ao comprar um trator chinês haverá dor de cabeça na manutenção e reposição de peças.
Os executivos da Zoomlion querem derrubar essa narrativa. Dizem que já possuem 10 subsidiárias próprias no Brasil, o que foi facilitado pela presença há uma década com a linha de construção – neste segmento a empresa conta com uma fábrica, em Indaiatuba (SP).
O plano é daqui a seis meses começar a montar pelo menos parte das peças agrícolas no Brasil. Hoje elas vêm 100% prontas da China.
“Queremos que os produtores conheçam nosso produto porque estamos investindo muito em pós-venda. Em Indaiatuba, temos um grande centro de distribuição de peças. Até o final deste ano estamos em negociação para iniciar uma operação CKD (montagem local com kits importados)”, informou o head brasileiro.
A vantagem ao cliente seria a redução de custos e a maior disponibilidade de peças. “Esse é o maior receio de quem compra produtos importados: ficar sem peça e esperar 60 dias. Isso não vai acontecer”, garantiu Zhe.
Faturamento em alta
A Zoomlion diz que, ao longo de 2025, descobriu que era necessário fazer ajustes, uma espécie de tropicalização para algumas de suas máquinas. Esse seria o motivo para ter alcançado uma receita abaixo do esperado no primeiro ano, de apenas R$100 milhões.
Já em 2026, conta o executivo, o cenário começa a melhorar. O faturamento teria alcançado R$ 300 milhões até agora e a perspectiva é fechar o ano com pelo menos R$ 500 milhões em vendas.
“Trouxemos alguns modelos, testamos em várias regiões e cidades do Brasil justamente para entender como adaptar as máquinas ao mercado brasileiro. Por exemplo, a colheitadeira que está aqui hoje já é diferente da primeira unidade que trouxemos ao Brasil. Fizemos testes e percebemos necessidade de ajustes, como calibração de rodas e adaptação de plataformas. Foi um desenvolvimento rápido e já estamos demonstrando essas versões tropicalizadas”, revelou.
Ele admite que o cenário de juros elevados e queda dos preços agrícolas também tem sido desafiador para a empresa. Mas acredita que a marca tem diferenciais para conquistar clientes em momento como esse.
A marca diz viabilizar uma economia de combustível entre 30% e 50%, o que poderia ajudar muito em tempos de margens apertadas para os produtores rurais.
“Temos muitos parceiros em potencial visitando a empresa e recebemos feedbacks muito positivos, a gente vê que nesse cenário de juro alto o produtor brasileiro está buscando alternativas, testando outras marcas”, ressaltou.
A fabricante admite ter um “preço é mais competitivo que o mercado”, porém diz que a proposta é entregar mais valor e não apenas preço.
“A Zoomlion é uma empresa de capital aberto, precisamos gerar lucro, mas também investimos muito em pesquisa e desenvolvimento, acreditamos muito em inovação”, ressaltou Zhe.
As vendas feitas até agora no Brasil têm se concentrado em produtos com até 350cv, mas ele afirma que “é uma aposta para atingir metas futuras”. Em breve também será ofertado no Brasil um modelo de 410 cv.
A Zoomlion garante que está atendendo pequenos, médios e também grandes produtores.
“Temos de tudo. O último cliente que testou nossos equipamentos planta cerca de 28 mil hectares na região de Unaí e no Oeste da Bahia. Temos também potenciais clientes que cultivam até 120 mil hectares”, pontuou.
São ao todo 10 grupos econômicos parceiros, sendo que cada um tem duas ou mais lojas. A meta da empresa é ter uma rede de 50 distribuidores ao final de 2026.
Está prevista para breve também a instalação de centros de treinamento, para dar suporte às subsidiárias.
Mas o passo mais ousado será a construção de uma fábrica no Brasil, algo que está sendo planejado, disseram eles.
“Nosso planejamento é ter uma fábrica localizada em até quatro anos. Ainda não podemos divulgar valores de investimento, mas vamos investir bastante porque sabemos que o Brasil é um mercado enorme e, para atuar aqui no longo prazo, a produção local é essencial”, sinalizou a executiva chinesa.
A Zoomlion confirma que teve conversas com os governos dos estados de Goiás, Minas Gerais e Santa Catarina, sendo essas possíveis regiões para instalar a fábrica, mas ainda não houve uma decisão.
A nova unidade será dividida em três fases. Na primeira, a empresa acredita que serão produzidas cerca de 1 mil unidades por ano.
Sobre o cenário incerto com a geopolítica, Bao afirma que a empresa foi menos afetada. O efeito estaria mais nos custos logísticos internacionais, “mas isso também abre oportunidades para vender mais equipamentos eficientes”.
“O problema maior é que matérias-primas vindas do Oriente Médio podem faltar para algumas indústrias (como a de defensivos químicos). Mas nossas fábricas continuam operando normalmente porque a maioria das matérias-primas e componentes é produzida na China”.
Resumo
- Chinesa Zoomlion prevê receita de R$ 500 milhões no Brasil com a venda de máquinas agrícolas
- Empresa diz ter o maior trator híbrido do mundo e fatura US$ 10 bilhões em nível global
- Zoomlion está abrindo centro de montagem de peças e planeja construir uma fábrica no Brasil daqui a 4 anos