O próximo dia 14 de maio será de festa na sede da Coopercitrus, maior cooperativa brasileira em número de associados, em Bebedouro, no Interior de São Paulo. A organização, que nasceu da união de citricultores e hoje é um colosso com negócios em diversos setores, culturas e estados, vai celebrar seu cinquentenário.

Não deve faltar, claro, suco de laranja nos brindes. Mas, olhando para o futuro, serão também erguidas xícaras de café, pelo menos no que depender do plano que começou a ser executado pelo CEO da cooperativa, Fernando Degobbi.

“Este ano vamos fazer, pela primeira vez, a compra de 1 milhão de sacas de nossos produtores, o que nos transforma em um player relevante no Brasil também nessa cultura”, afirmou o executivo ao AgFeed, em conversa no megaestande da Copercitrus na Agrishow 2026.

Dar destino lucrativo a tanto café é a missão que os gestores da cooperativa colocaram como prioritária no arranque para os próximos 50 anos. Há pouco mais de um mês Degobbi esteve na China, onde visitou importadores – entre eles a C&D, um dos maiores daquele país - e redes de cafeterias como a Luckyn Coffee, hoje a maior do mundo, com mais de 30 mil pontos de venda.

Lá, pôde constatar uma importante mudança de comportamento da população chinesa em relação à bebida. “Há muitos jovens tomando, usando café como um energético natural, inclusive misturando com outras bebidas, como suco de laranja”, contou.

“Eles querem café de qualidade e eu achei interessante esse comportamento. No Brasil, bebemos em média 300 xícaras por habitante no ano. Nos Estados Unidos, é até um pouco mais. E lá está em 13 xícaras por habitante. Já é um mercado de 6 milhões de sacas, mas sobretudo uma grande oportunidade”.

Desse total, o Brasil já atende com a exportação de 1,1 milhão de sacas – a própria China produz internamente em torno de 2 milhões e o restante compra de outros países, principalmente africanos.

Degobbi está confiante de que pode colocar os produtores associados à Coopercitrus entre os vendedores para o mercado chinês. Ele voltou de lá com o compromisso de que uma missão chinesa visitará a cooperativa em junho. Paralelamente a isso, já providenciou o envio de amostras de café para serem avaliadas pelos potenciais compradores.

São os primeiros passos para que seja possível realizar, ainda este ano, o primeiro embarque de cafés da cooperativa para o país oriental, como espera Degobbi.

Mas o CEO da cooperativa olha além das xícaras. Para ele, no relacionamento com os chineses o café pode funcionar como um “energético de negócios”, abrindo frentes e criando oportunidades também em outras áreas.

Ele cita o exemplo da AgroAllianz, empresa constituída em parceria com a alemã DVA Agro para a produção de defensivos químicos. Hoje, a companhia importa da China os produtos que comercializa aqui no Brasil e mantém, em território chinês, relacionamento com fornecedores e empresas com terminais portuários.

Assim, um dos focos da cooperativa é fechar acordos com essas empresas de logística que façam com que os navios que trazem defensivos voltem carregados de café.

Degobbi vislumbra ainda a possibilidade de acessar, com isso, linhas mais baratas de financiamento ou desonerações tributárias oferecidas a quem importa produtos para a produção de outros destinados à exportação, num regime chamado de drawback.

“Não e só sobre café, mas sobre alavancar mais negócios”, definiu.

Internamente, a estrutura cafeeira da Coopercitrus tem sido encorpada. No final do ano passado a cooperativa concluiu a incorporação da Cooparaíso, com sede em São João do Paraíso, no coração da região cafeeira de Minas.

A organização paulista já geria, em regime de intercooperação, estruturas e ativos da mineira, que agora passam definitivamente para o seu controle. Da mesma forma, recebe cerca de 2,3 mil cafeicultores no seu quadro de associados.

Com isso, passa a contar com cerca de um quinto de seus mais de 42 mil cooperados cuja principal atividade é a cafeicultura. “Estamos em quase todas as geografias do café arábica e com muita oportunidade de expansão”, afirmou Degobbi.

Na análise o executivo, a cadeia produtiva do café é, ao lado da das carnes, uma das duas com potenciais mais fortes de demanda crescente nos próximos anos.

“O caminho para a Coopercitrus é estar presente em todos os processo do cooperado e no café a gente consegue verticalizar a nossa operação, graças à capacidade de armazenagem e à possibilidade de ofecer condições financeiras muito melhores ao produtor, como barter e hedge natural em dólar, por exemplo”.

Hoje, no entanto, a Coopercitrus ainda exporta pouco do café que compra. Para ampliar o comercio exterior, segundo Degobbi, serão necessárias mudanças do modelo de negócios relacionado à cultura.

Ele citou que, nos armazéns da cooperativa, estão estocadas atualmente cerca de 120 mil sacas de café ainda não comercializadas pelos produtores. Os lotes são personalizados, identificados por produtor, que deixa sob os cuidados da Coopercitrus enquanto aguarda o momento ideal para vender.

O executivo espera agiliza essa decisão. “A partir do momento que entender que tipo de os chineses querem e como montar o quebra-cabeças de incentivos financeiros e fiscais, fica mais atrativo e conseguimos trazer produtor para a mesa de forma mais vantajosa. Aí vamos conseguir medir o quanto conseguimos mandar para lá”, disse.

Cinco décadas em consolidação

O café deve ser, assim, um dos motores estratégicos da expansão da Coopercitrus na sua sexta década de existência. Outros estão associados, conforme disse Degobbi, à cadeia das carnes, outra que, na sua visão, deve apresentar viés de crescimento nos próximos anos.

Na área das proteínas animais, a principal aposta da cooperativa está na produção de rações. Este ano foram iniciados os investimentos na implantação de sua sexta fábrica nesse segmento, que deve gerar receita de R$ 500 milhões à Coopercitrus em 2026.

Serão R$ 110 milhões aportados até 2027 na planta, que ficará no complexo agroindustrial que a cooperativa erguerá em Araçatuba, no interior de São Paulo. Com a nova unidade, serão 120 mil toneladas a mais de ração ao ano à capacidade de produção, que hoje, com as cinco unidades já em operação, atinge 480 mil toneladas.

Outro investimento importante ligado à pecuária – mais especificamente ao destino dos dejetos da atividade – é o na produção de fertilizantes organominerais.

No próximo mês de julho, durante a realização da Coopercitrus Expo, tradicional feira de negócios promovida pela cooperativa, deve ser oficialmente inaugurada a produção de fertilizantes granulados na planta da Tello, companhia fundada em 2024 em sociedade com gigantes do agro como Amaggi e Agropastoril Campanelli (Tecnobeef), além da Viola Participações, do ex-CEO da UPL Carlos Pellicer, que hoje comanda a empresa, e da Souza e Lucas Participações, da mesma família que controla a empresa de fertilizantes AgroCP.

Com isso, a empresa conclui sua primeira fase de investimentos, somando um total de R$ 180 milhões, e passa a ter sua capacidade prevista de produção de 120 mil toneladas de fertilizantes por ano – a linha de farelados já vinha funcionando – na planta localizada junto ao confinamento da Campanelli, em Altair, no interior paulista.

Pelo cronograma da companhia, a conclusão dessa unidade abre a janela para um novo investimento, que pode chegar a R$ 200 milhões, segundo Degobbi, em uma segunda fábrica. “Será um espelho da primeira”, afirmou o CEO da Coopercitrus.

O local definido é também anexo a um confinamento, de dimensões semelhantes ao paulista, recentemente aberto pela Amaggi no Mato Grosso.

De acordo com Degobbi, o plano dos sócios é iniciar a montagem da nova planta nos primeiros meses de 2027, com operação prevista até o final de 2028.

“É um projeto que envolve muita inovação. Para ele, conseguimos uma qualificação bastante exitosa no Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia) para linhas de projetos de inovação no Brasil”, disse.

“Colocar um organomineral em grãos na qualidade que a gente está produzindo é muito desafiador, exige um know-how bastante grande para chegar nisso”.

Com o investimento dividido entre os diversos sócios, a parte da Coopercitrus no projeto é diluída, fazendo com que, no ano do cinquentenário, a cooperativa tenha um pipeline de aportes distribuído entre diversas áreas.

Uma das marcas dessa efeméride ficará por conta dos retrofits nas unidades da cooperativa (como as revendas de máquinas e insumos), atualizando a identidade da Coopercitrus.

As comemorações servirão para que a organização recapitule os destaques das cinco décadas de sua história, através de uma série de podcasts. Cada capítulo trará a marca de um decênio, do empreendedorismo dos fundadores nos anos 1970, ao princípio da diversificação dos negócios, iniciada nos anos 1980 com a criação da Credicitrus, hoje a maior cooperativa de crédito singular do País.

A terceira década, lembrou Degobbi, foi do desenvolvimento de sinergias e oportunidades, como a distribuição de insumos e a comercialização de grãos, além do início da fabricação de ração.

“Começamos a entender mais como poderia participar da rotina do cooperado e fortalecer o portfólio”, disse. “E aí você tem, depois, a quarta década, já com uma visão de expansão, com a incorporação de pequenas cooperativas, nos levando para para outras fronteiras, com a operação em Minas e em Goiás”.

Segundo ele, da quinta década para a frente o trabalho é para a consolidação de tudo isso, com o uso cada vez mais intensivo de tecnologia para acompanhar a rotina dos associados e apoiá-los nos negócios.

A mais recente ferramenta nesse sentido, de acordo com Degobbi, é o Atlas da Agricultura, desenvolvido em parceria com a agtech Seedz, que permite, com o uso de imagens de satélite, monitorar um total de mais de 90 mil propriedades.

A cada oito dias, em média, os satélites “visitam” essas áreas e indicam qual atividade está ocorrendo ali. “Isso dá para a gente uma capacidade muito grande de entender o que está acontecendo em cada propriedade, o que antes demandava muito tempo, muita visita, muito dinheiro investido”, explicou.

“E aí a gente direciona a equipe técnica, consegue ter mais presença, aumenta o nosso share naquilo que o produtor realmente precisa. Tem muita oportunidade na nossa base. E a nossa decisão, junto com o conselho, foi fazer essa década da consolidação, ser mais efetivo, mais eficiente, estar mais próximo do produtor”.

Resumo

  • Coopercitrus completa 50 anos e aposta no café como nova alavanca de crescimento, com meta de exportação à China
  • Estratégia inclui ampliar negócios, logística e integração com outras cadeias do agro
  • Cooperativa investe em ração, fertilizantes e tecnologia para consolidar expansão nos próximos anos